Papa Francisco põe a Igreja a serviço dos fiéis


No sexto dia de uma semana de mensagens dirigidas aos jovens, aos políticos, aos sacerdotes, aos usuários de drogas e até aos manifestantes, Francisco dissolveu, diante de uma multidão estimada em 3 milhões de pessoas, acampada entre o Atlântico e os prédios de Copacabana, os vestígios de dúvida sobre os caminhos que traça para a Igreja Católica. O mar de fiéis festejava o início da vigília na 28ª Jornada Mundial da Juventude, numa faixa de areia castigada pelo vento constante de uma noite atipicamente gélida no Rio de Janeiro. Jorge Mario Bergoglio citou São Francisco de Assis diante do crucifixo. “Francisco, vai e repara minha casa”, lembrou o papa, citando palavras de Jesus ao jovem que se tornou frei.
A voz, agora, é dele, Francisco, e quem ouve é uma massa que embaralha nacionalidades e classes sociais, a quem pede “coragem” e a quem chama de “construtores de uma Igreja mais bela”. Ao se despedir do Brasil, na noite deste domingo, o pontífice deixou entre os católicos brasileiros a sensação de que há alguém nos altares disposto a ouvir e falar mais. A visita também envia, para o resto do mundo, a ideia de que a transformação começou.
É imensa a espontaneidade do papa. Perde seu tempo quem tenta encontrar, nos gestos de humildade, alguma incoerência do argentino que ocupa o trono da Igreja e abre mão dos privilégios a ele conferidos através dos séculos. Foi o “estilo Francisco” a primeira mensagem recebida no Brasil, chamando a atenção de quem, por ventura, não tenha tomado conhecimento do novo papa e do que ele quer dizer aos católicos: o papa exigiu um carro simples, andou de vidros abertos, dispensou o guarda-chuva para a caminhada até o hospital de dependentes químicos, no meio de chuva forte. O pontífice não descansou do primeiro ao sétimo dia da viagem – a sua primeira como papa. Apresentou, em capítulos, aos fiéis e sacerdotes, os sinais do que pode ser um novo tempo para uma instituição voltada excessivamente fechada em si mesma, que deixou seu rebanho exposto ao assédio de crenças que não usam meias palavras - com destaque, no Brasil, para as correntes evangélicas, que avançaram enquanto os católicos perderam cerca de 1,7 milhão de fiéis, um encolhimento de 12,2% em uma década, segundo o IBGE.
Francisco fala sem pompa, sem rodeios. Aos jovens, de forma geral, pediu fé, o abandono aos “falsos ídolos”, e que sejam protagonistas de sua trajetória como cristãos. Ao falar para os dependentes químicos, bateu forte na tendência de legalização das drogas que começa a despontar na América Latina. E, no Complexo de Manguinhos, na favela de Varginha, onde quem manda é o tráfico de drogas, alertou que a “pacificação” não resolve tudo. No sábado, defendeu a ética na política, e, na cidade onde há mais de 30 dias persistem os protestos violentos e uma surdez recíproca entre polícia e manifestantes, propôs uma saída mais serena: “Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo. O diálogo entre as gerações, o diálogo com o povo, a capacidade de dar e receber, permanecendo abertos à verdade”, afirmou, no encontro com representantes da sociedade civil.
Um dos organizadores do livro Francisco – Renasce a Esperança (Ed. Paulinas, 23,90 reais), o cientista da religião Afonso Maria Ligório Soares, da PUC-SP, enxergou na mensagem deixada pelo pontífice os traços característicos de jesuíta e franciscano de Jorge Mario Bergoglio. “Francisco demonstra o despojamento do santo que o inspirou, criticou o consumismo e a distração diante de ninharias. Como jesuíta, ele também é um soldado de Deus. Tem disciplina, disposição de ir à frente, o que o faz cobrar comprometimento de seu clero. Submeteu-se a uma agenda extenuante de compromissos, incluindo a visita a uma favela”, disse Soares.
As mensagens ao clero foram duras. A homilia do sábado com os bispos mostrou um papa bem menos brando e mais incisivo do que o dos altares diante dos peregrinos. “Não se pode apenas adorar Jesus no sacrário. É preciso adorá-lo nas favelas”, ordenou o pontífice, pedindo que os religiosos ganhem as ruas. Para o estudioso da PUC-SP, somados os exemplos e as falas do papa ao clero, há um chamamento evidente para que se abandone a cultura de luxo e ostentação enraizada em parte da Igreja. “Francisco está provocando uma grande confusão no status quo da Igreja Católica”, acredita Soares.

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