Como um Título Judicial de 1940 e Fundos Inflados Ocultaram um Rombo Bilionário no Banco de Edir Macedo - Jornalismo e Cultura

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23/06/26

Como um Título Judicial de 1940 e Fundos Inflados Ocultaram um Rombo Bilionário no Banco de Edir Macedo

 

A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta terça-feira (23), a Operação Miragem, uma das ações mais profundas de combate a crimes contra o sistema financeiro nacional recentes. O foco principal é o Banco Digimais, instituição controlada pelo líder da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo. Por determinação da Justiça Federal, foram bloqueados R$ 670 milhões em bens e ativos dos investigados sob a suspeita de gestão fraudulenta e inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis para maquiar um rombo bilionário.

A operação mobilizou agentes para cumprir mandados de busca e apreensão contra a alta cúpula da instituição. Entre os alvos estão o bispo João Urbaneja — homem de extrema confiança de Edir Macedo — e seu filho, Thiago Urbaneja. Os executivos bancários Marcelo de Lima Brasil, João Alves de Campos e Rodrigo Ruggero também foram submetidos a buscas.

O controlador majoritário, Edir Macedo, embora seja o centro financeiro da investigação e tenha seus bens bloqueados, não foi alvo de mandados de busca locais por residir atualmente fora do Brasil. A PF também mirou os empresários José Roberto Giancoli Filho e Rodrigo Balassiano, proprietários da ID, corretora e gestora responsável pela administração dos fundos sob suspeita.

A Anatomia da Crise: Do Consignado à Deterioração Severa

Para compreender a Operação Miragem, é preciso analisar a mudança de estratégia do Banco Digimais nos últimos anos. Após Edir Macedo assumir o controle definitivo do banco, a gestão concentrou seus esforços em dois produtos de varejo de alto volume: o crédito consignado e o financiamento de veículos.

Embora o movimento tenha gerado um crescimento inicial rápido, o cenário macroeconômico e falhas de governança levaram a uma "severa deterioração" das carteiras, resultando em prejuízos operacionais expressivos. Para continuar captando recursos e cobrir o buraco que se abria no balanço, o banco adotou uma estratégia agressiva entre 2023 e 2024: passou a emitir Certificados de Depósito Bancário (CDBs) pagando taxas de rendimento muito elevadas, superiores a 110% do CDI, atraindo investidores com a promessa de lucros acima da média do mercado.

O castelo de cartas começou a ruir com eventos subsequentes no sistema financeiro. Em novembro de 2025, a decretação da liquidação extrajudicial do Banco Master acendeu o sinal de alerta dos órgãos reguladores. A quebra do Master revelou que o Banco Digimais possuía uma exposição oculta de aproximadamente R$ 600 milhões atrelada a carteiras de crédito daquela instituição, agravando drasticamente a situação patrimonial do banco de Macedo.

O Truque Contábil: O Fundo "Hermon" e a Herança de Getúlio Vargas

Diante de um prejuízo iminente que poderia forçar o Banco Central a intervir na instituição, os controladores e a gestora ID teriam estruturado uma complexa engenharia financeira para inflar artificialmente o patrimônio do Digimais. O mecanismo central dessa maquiagem foi o chamado Fundo de Direitos Creditórios Hermon.

O Fundo Hermon detém um ativo peculiar e sem liquidez a curto prazo: o direito a receber uma indenização judicial bilionária movida por herdeiros da antiga Companhia de Mineração e Siderurgia. A empresa foi encampada (estatizada) em 1940 pelo regime ditatorial de Getúlio Vargas durante o processo que culminou na criação da Vale do Rio Doce.

Embora a Justiça Federal do Rio de Janeiro tenha condenado a União a indenizar os herdeiros em valores equivalentes a 7 mil ações da Vale — o que gerou uma estimativa de R$ 2,2 bilhões a receber por parte do fundo —, a ação judicial se arrasta desde a década de 1990. O cálculo definitivo do pagamento é alvo de intensas controvérsias jurídicas e pode levar décadas para ter um desfecho real.

De acordo com o inquérito da Polícia Federal, o esquema funcionou em três etapas:

  1. Aquisição Desvalorizada: Por meio de uma intrincada teia de fundos, a gestora ID adquiriu esses direitos creditórios (créditos podres de difícil recebimento) por apenas R$ 71 milhões.

  2. Superavaliação Artificial: Sucessivas reavaliações patrimoniais feitas de forma sistemática e sem lastro técnico inflaram o valor contábil desse mesmo ativo para R$ 741 milhões.

  3. A Limpeza do Balanço: Para retirar o risco do papel e injetar dinheiro limpo no Digimais, a própria holding controladora de Edir Macedo comprou do banco as cotas do Fundo Hermon pelo valor inflado de R$ 741 milhões.

Com essa triangulação, o banco substituiu um ativo problemático e artificialmente inflado por dinheiro em caixa, mascarando o rombo financeiro real perante o Banco Central.

O Alerta da Auditoria Independente

A manobra, no entanto, deixou rastros evidentes. Por força de normas regulatórias, toda instituição financeira de médio e grande porte é obrigada a contratar auditorias independentes para validar suas demonstrações contábeis antes de enviá-las ao Banco Central.

A fraude começou a vir a público quando a própria auditoria do Digimais apontou inconsistências graves na transação envolvendo o Fundo Hermon, levantando suspeitas sobre a avaliação do ativo de Getúlio Vargas. A partir desse relatório de auditoria, as investigações avançaram, culminando na deflagração da operação de hoje.

A Polícia Federal e o Ministério Público Federal apontam que a sistemática superavaliação de ativos serviu exclusivamente como "escopo de inflar artificialmente o patrimônio para viabilizar a emissão desproporcional de títulos de captação", configurando fortes indícios de gestão fraudulenta.

Até o fechamento desta reportagem, a defesa dos executivos citados, dos donos da gestora ID e dos representantes do Banco Digimais e de Edir Macedo estava sendo procurada para se manifestar sobre os mandados de busca e o bloqueio de R$ 670 milhões. O espaço segue aberto para manifestações oficiais.