Investigação autorizada pelo STF apura o direcionamento irregular de verbas parlamentares e contratos milionários em esquema que envolve o deputado Mario Frias e a empresária Karina Gama.
Uma megaoperação deflagrada pela Polícia Federal mobilizou dezenas de agentes para cumprir 49 mandados de busca e apreensão em quatro unidades da federação: São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. A ação, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), mira 29 pessoas investigadas por integrar uma suposta organização criminosa responsável pelo desvio de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares.
O foco central do inquérito é a captação e o direcionamento irregular de verbas destinadas à produção de "Dark Horse", longa-metragem sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O Núcleo do Esquema: Deputado e Empresária no Alvo
Entre os principais alvos das buscas estão o deputado federal Mario Frias (PL-SP) — ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro e autor das emendas parlamentares sob suspeita — e a empresária Karina Gama, proprietária da produtora Go Up Entertainment, responsável pela realização do filme.
De acordo com a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU), a rede criminosa atuava simulando a prestação de serviços culturais e sociais para repassar valores a empresas subcontratadas sem a devida comprovação de execução. Levantamentos financeiros apontam que o grupo movimentou centenas de milhões de reais em transações atípicas. As apurações abrangem crimes de:
Peculato
Falsidade documental
Lavagem de dinheiro
Organização criminosa
Fraudes em licitações
As tentativas de dissimular a origem e o destino dos valores estenderam-se até recentemente. Em declaração rápida sobre o caso, Karina Gama negou qualquer irregularidade, afirmando que a aplicação dos recursos seguiu rigorosamente a lei.
Estrutura das Empresas de Fachada e Expansão de Negócios
A trajetória comercial de Karina Gama passou por uma transformação expressiva a partir de 2020, coincidindo com o período em que conheceu Mario Frias na Secretaria Especial de Cultura.
Até 2019, a empresária mantinha uma firma individual aberta com capital social de apenas R$ 1.000. Nos anos seguintes, fundou e assumiu o comando de uma rede de entidades privadas e produtoras que passaram a captar volumosos recursos públicos:
| Ano | Entidade / Empresa | Evento Principal / Atividade |
| 2005 | K F da Gama Produções | Abertura de empresa individual de eventos (Capital: R$ 1.000). |
| 2014 | Instituto Conhecer Brasil (ICB) | Assumiu a presidência da associação privada sem fins lucrativos. |
| 2020 | Academia Nacional de Cultura (ANC) | Criação da associação que captou emendas para produções audiovisuais. |
| 2021 | Go Up Entertainment | Fundação da produtora responsável pelas filmagens do longa Dark Horse. |
| 2026 | Gama Participações / Upcon | Expansão para holdings imobiliárias em Aracaju e construção em Salvador. |
Análises cadastrais junto à Receita Federal revelaram que quatro das principais entidades vinculadas à empresária compartilhavam o mesmo endereço de um escritório virtual na Avenida Paulista, em São Paulo, utilizado apenas como ponto de correspondência.
As Conexões com Contratos Municipais
Além das emendas federais, o escopo da investigação do STF incorporou apurações da Polícia Civil paulista relativas a um chamamento público de R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB). O contrato tinha como objeto oficial o fornecimento de sinal de wi-fi gratuito em comunidades vulneráveis.
As suspeitas da PF indicam que parte substancial das verbas dessa parceria municipal foi desviada para abastecer o fluxo de caixa das produtoras envolvidas no filme e eventos paralelos organizados pelo grupo, como a feira Connect Faith, realizada no Expo Center Norte com R$ 3,5 milhões em aportes da Secretaria Municipal de Turismo.
Anatomia Financeira: O Orçamento de "Dark Horse" sob Análise
A dimensão financeira solicitada para a confecção do filme virou centro de debates operacionais no mercado cinematográfico. Relatórios revelam que a busca por captação privada para a obra incluiu pedidos diretos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro no valor de R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões teriam sido efetivamente transferidos via articulação política.
MERCADO CINEMATOGRÁFICO: COMPARAÇÃO ORÇAMENTÁRIA (EM R$ MI)
Dark Horse (Pedido) [##########################################] 134 Mi
"Lula, o Filho do BR" [###############] 51.4 Mi (Corrigido)
"Ainda Estou Aqui" [#############] 45 Mi
"O Agente Secreto" [########] 28 Mi
Especialistas do setor audiovisual e cineastas apontam que orçamentos nessa magnitude são atípicos para o padrão brasileiro, onde obras premiadas internacionalmente foram produzidas por uma fração desse montante:
"Ainda Estou Aqui": Vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, custou cerca de R$ 45 milhões.
"O Agente Secreto": Produção nacional de grande porte estrelada por Wagner Moura, teve orçamento de aproximadamente R$ 28 milhões.
"Lula, O Filho do Brasil" (2009): Cinebiografia gravada no país com custo equivalente atualizado a R$ 51,4 milhões.
Produtores e consultores técnicos ponderam que filmagens realizadas parcialmente nos Estados Unidos e pagamentos em dólar encarecem as diárias de gravação. Contudo, a ausência de registros da obra na Agência Nacional do Cinema (Ancine) e o sigilo mantido sobre os contratos de subcontratação mantêm o projeto sob contundente apuração dos órgãos de controle.
As apurações continuam sob sigilo no Supremo Tribunal Federal para rastreamento do caminho do dinheiro e identificação final de todos os beneficiários do esquema.
Seu PDF com a linha do tempo cronológica está pronto:
📅 Linha do Tempo Cronológica: O Caso "Dark Horse"
2005
Abertura da Primeira Empresa: Karina Gama abre a K F da Gama Produções em São Paulo, uma empresa individual focada em eventos e marketing com capital social de apenas R$ 1.000.
2009
Parâmetro do Cinema Nacional: Lançamento de "Lula, O Filho do Brasil", filmado no país ao custo de R$ 17 milhões (equivalente a R$ 51,4 milhões em valores corrigidos pelo IGP-M), utilizado pelo mercado como referência orçamentária para produções biográficas de grande porte.
2014
Entrada no Terceiro Setor: Karina Gama assume a presidência do Instituto Conhecer Brasil (ICB), associação privada sem fins lucrativos voltada a projetos sociais, de tecnologia e esportes.
2020
Aproximação Política e Reestruturação: Karina é apresentada ao ex-ator e então secretário de Cultura Mario Frias.
A empresa K F da Gama muda seu perfil jurídico e razão social para Conhecer Brasil Assessoria Produção e MKT Cultural (GO 7), apresentando indícios de expansão financeira e operacional.
Karina fundação a Academia Nacional de Cultura (ANC), associação criada para captar emendas em projetos culturais.
2021
Criação da Produtora: Karina Gama funda a Go Up Entertainment, produtora responsável pelas filmagens de "Dark Horse", com operação cadastrada também nos Estados Unidos.
2023
Aquisição Imobiliária: Karina Gama assina contrato de compra de uma casa avaliada em mais de R$ 2 milhões em Santana de Parnaíba (SP), cujas parcelas deixaram de ser pagas no ano seguinte, dando origem a uma disputa judicial.
Maio de 2024
Revelação de Aportes Privados: O portal ICL Notícias revela que o senador Flávio Bolsonaro solicitou recursos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master) para o filme. O senador admitiu o pedido de R$ 134 milhões e a captação de R$ 61 milhões.
Junho de 2025
Evento Financiado pela Prefeitura: A ANC realiza no Expo Center Norte a feira Connect Faith, financiada com R$ 3,5 milhões repassados pela Secretaria Municipal de Turismo de São Paulo.
16 de Novembro de 2025
Troca de Mensagens: Às vésperas da prisão do dono do Banco Master, o senador Flávio Bolsonaro envia mensagem de apoio a Daniel Vorcaro solicitando orientação.
Fevereiro de 2026
Diversificação dos Negócios: Karina Gama expande sua atuação ao criar a Gama Participações Ltda (holding de imóveis em Aracaju) e tornar-se sócia-administradora da Upcon Serviços Especializados Ltda (construção civil em Salvador).
Junho de 2026
Operação da Polícia Civil de SP: Agentes cumprem mandados de busca em endereços da produtora e em secretarias da Prefeitura de São Paulo para apurar suspeitas de desvio do contrato de R$ 108 milhões do Wi-Fi comunitário do Instituto Conhecer Brasil.
Agosto de 2026
Intervenção do STF: O ministro Flávio Dino avoca para o Supremo Tribunal Federal o inquérito da Polícia Civil paulista e autoriza o compartilhamento de provas com a Polícia Federal.
9 de Setembro de 2026
Recondução na Polícia Federal: O ministro Flávio Dino determina o retorno de Andrei Rodrigues à direção-geral da PF, fundamentando a necessidade de continuidade nas apurações do caso "Dark Horse".
10 de Setembro de 2026
Megaoperação da Polícia Federal: Com apoio da CGU, a PF deflagra operação cumprindo 49 mandados de busca e apreensão em SP, RJ, CE e DF contra 29 investigados — incluindo o deputado federal Mario Frias e a empresária Karina Gama. O inquérito apura peculato, lavagem de dinheiro, fraude em licitações e organização criminosa.
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