Uma mulher demora nove meses para gerar um filho, certo? Certo. Aí você vai e engravida nove mulheres.
O que acontece? Você produz uma criança em um mês, ué. Os números não
mentem – ainda mais quando não entra na conta um inconveniente chamado
“mundo real”.
O engraçado é o mundo real acaba mesmo descartado como um
zero à esquerda de vez em quando. No mercado financeiro, de vez em
sempre. E um dos casos mais estapafúrdios de cegueira para a realidade
está acontecendo agora mesmo: é a ideia de que a bolsa virou um mico.
Começando pelo começo: o Ibovespa chegou ao pico já faz
meia década. Foi precisamente no dia 20 de maio de 2008, quando marcou
73 mil pontos. Hoje o Índice patina nos 55, 56 mil pontos. Dá 23% de
queda.
Pior: de lá para cá a inflação, pelo IGPM, foi de 27%. Opa:
uma perda de 50% em valores reais. No mesmo espaço de tempo, a poupança
rendeu 50%. Putz… Então quem tinha dinheiro na bolsa perdeu feio,
certo? Não.
Olhar só para o Ibovespa significa ignorar o mundo real. O Índice
mede a variação do preço das ações mais negociadas na bolsa. Quanto mais
gente comprando e vendendo papéis de uma empresa, mais peso ela tem no
Ibovespa. Se 10% de todo o dinheiro que flui na bolsa, então, for em
ações da Vale (e geralmente é isso mesmo), a mineradora vai responder
por 10% da variação do Ibovespa naquele dia. Quer dizer: se todas as
ações da bolsa ficarem no zero e a Vale subir, vá lá, 5%, o William
Waack vai dizer no final do dia que o “Ibovespa subiu 0,5%”, “puxado”
pela alta da Vale.Ok. E o que aconteceu no mundo real nos últimos 5 anos? Bom, a ação da Vale caiu de R$ 56 para R$ 31. Tombo de 44%. A da Petrobras despencou de R$ 51 para R$ 20. Menos 60%. Gerdau, -70%. Usiminas, -80%. O horror, o horror. Culpa da crise mundial, que derrubou os preços do aço e do minério de ferro – o petróleo nem caiu tanto assim, mas a Petrobras é um caso à parte. Só essas quatro empresas, das 68 que compõe o Ibovespa, respondem por 25% do Índice, já que milhões de ações delas trocam de mãos todos os dias – e o Índice reflete as ações mais negociadas. Elas puxaram o índice para baixo. E também é fato: quem tem ações dessas companhias desde 2008 entrou num mato sem cachorro.
Mas isso não significa que a bolsa inteira derreteu. Várias
ações subiram violentamente nesses últimos 5 anos. E não são papéis de
empresas desconhecidas. Longe disso. As ações de companhias ligadas ao
consumo são o maior exemplo.
As da Ambev, por exemplo, subiram de R$ 17 para R$ 86 desde 2008. Uma alta de 405%.
E estamos falando de uma ação óbvia, que consta de qualquer portfólio
com o mínimo de vergonha na cara. As do Pão de Açúcar, que não é
exatamente uma start up do varejo, subiram 361%. Até algumas empresas que dependem de demanda estrangeira se deram bem de lá para cá. Caso da Embraer, que subiu 216%.
Ninguém precisa de um guru do mercado ou de informação
privilegiada para saber que as ações da maior fábrica de cerveja, da
maior rede de supermercados e da terceira maior fabricante de aviões do
mundo poderiam, quem sabe, ser alternativas bacanas de investimento. Com
ou sem crise internacional. Daí o “feio, pobre, burro e sem carro” do
título. A real é que qualquer um poderia ter escolhido essas ações em
2008 e segurado elas até hoje. E muita gente fez exatamente isso.
Um portfólio dividido igualmente entre ações da Ambev, do
Pão de Açúcar e da Embraer é uma cesta até conservadora. Uma carteira
bem mais para quem quer segurança do que para quem tenta ganhos rápidos –
são empresas sólidas, mas já grandes demais para ter muito para onde
crescer. Elas eram assim em 2008. E a realidade não mudou de lá para cá.
Mesmo assim, quem colocou, digamos, R$ 10 mil num portfólio com ⅓
Ambev, ⅓ Pão de Açúcar e ⅓ Embraer há cinco anos está com R$ 42 mil
reais hoje. Dá 327% de lucro. Diante desse tipo de
dado, dizer que a bolsa inteira foi o pior investimento dos últimos anos
é mais do que miopia: é incapacidade de considerar o mundo real como
parte de uma equação. Em outras palavras, é não saber do que está
falando.
Moral do episódio de hoje, Gorpo: cuidado com os índices. Eles são só um reflexo imperfeito da realidade.
E cuidado com os gerentes de banco também. Algum deles pode te dizer, baseado nos números crus do Ibovespa, que a bolsa está “num bom momento de compra” – a hora em que as ações estão subvalorizadas, com mais potencial para subir. Mas o que está “num bom momento de compra”, em tese, são as ações ligadas a commodities, as que tombaram desde 2008 levando o Ibovespa junto. E talvez não seja um “momento bom de compra” nem assim. Os buracos no mercado financeiro teimam em ser mais abaixo do que o aparentemente razoável – que o diga Eike Batista, responsável por 6% do Ibovespa, com a OGX (-85%), a MMX (-88%) e a LLX (-38%).
Na outra ponta dessa história estão as ações que subiram,
200%, 300%, 400%. Essa ponta pode ser até mais traiçoeira que a outra.
Ninguém com o mínimo de massa cinzenta entre as orelhas diria que elas
são a oportunidade de compra do século, que estão agudamente
desvalorizadas. Não estão. Talvez esses papéis já tenham subido demais,
independentemente do resto do Ibovespa, e o que os aguarda pode ser uma
“correção” (eufemismo econômico para “tombo”). Ou não também: pode ser
que elas ainda tenham bastante espaço para subir mesmo. Mas aí já começa
outro assunto. Aconteça o que acontecer, a única constante do mercado
de ações é a imprevisibilidade. Essa é a natureza dele. E não levá-la em
conta é tão irracional quanto julgar a bolsa toda pelo desempenho do
Ibovespa. Ou tentar produzir um filho em um mês.
Alexandre Versignassi
