A resolução do Conselho Nacional de Justiça determinando que todos os cartórios do país celebrem o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo ou convertam uniões estáveis homoafetivas em matrimônios foi, sem dúvida, uma das mais importantes mudanças de 2013 no Brasil. Mas será que o chamado "casamento gay", agora oficialmente reconhecido, pode representar o fim da família?
Ou trata-se de uma reinvenção dessa instituição?
"Certamente, o casamento gay coloca em xeque uma
determinada forma de conceber a família, a que teria como base a união
de um homem com uma mulher", diz Carolina de Campos Borges, doutora em
psicologia pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro) e professora da UFGD (Universidade Federal de Grande Dourados,
no Mato Grosso do Sul).
"A noção de família formada por pai, mãe e filhos remonta a mudanças socioculturais ocorridas na Europa por volta do século 17 que, conforme o historiador e medievalista francês Philippe Ariès, determinaram o surgimento do sentimento de infância e também de família", explica Borges.
"É nesse contexto que se apresenta a demanda de legitimação social
da união de duas pessoas do mesmo sexo", diz a especialista. Segundo
Borges, o casamento gay é resultado de um processo de transformações que
se iniciaram há algumas décadas, quando se reivindicou por liberdade
individual, igualdade de direitos e rupturas de padrões tradicionais,
como a atuação exclusiva dos homens no espaço público e a restrição das
mulheres ao mundo doméstico.
"O casamento gay, a meu ver, não aponta para o fim da família, mas para uma mudança na forma de concebê-la, mudança intimamente marcada, entre outras coisas, pelo respeito à diversidade individual e social", diz a doutora em psicologia.
"O casamento gay, a meu ver, não aponta para o fim da família, mas para uma mudança na forma de concebê-la, mudança intimamente marcada, entre outras coisas, pelo respeito à diversidade individual e social", diz a doutora em psicologia.
"Reivindicar a equiparação jurídica das uniões de homossexuais com a família, quando elas não dispõem das características que vão além do afeto, tem como consequência a descaracterização dessa estrutura, ferindo seu direito de permanecer assim como se constituiu ao longo dos milênios", afirma.
Para o bispo, o que está sendo projetado é um processo de alteração do significado das palavras. "Matrimônio e casamento sempre indicaram um mesmo fato: a união exclusiva entre homem e mulher. Ao surgir na contemporaneidade a exigência de reconhecer novas formas de viver o afeto, é necessário encontrar novas palavras para tratar de forma adequada realidades diferentes".
De acordo com
Marcos Horácio Gomes Dias, professor de sociologia na Universidade São
Judas Tadeu, em São Paulo, essa posição quase defensiva já é algo
esperado. O especialista afirma que instituições que se apoiam na
tradição como forma de legitimidade, geralmente, não aceitam as mudanças
que o tempo traz.
"As igrejas estão presas a valores seculares. Reconhecer que casais do mesmo sexo constituem uma família implicaria na revisão dos livros sagrados considerados imutáveis por representarem a própria palavra de Deus".
Além disso, o sociólogo defende que a estrutura familiar é determinada, sim, pelo carinho entre duas pessoas, apesar de não exclusivamente por ele. Também entram em jogo a afinidade, os objetivos em comum e a divisão de despesas entre outros fatores, o que daria a qualquer casal –hétero ou homossexual– o direito de se classificar como família.
"As igrejas estão presas a valores seculares. Reconhecer que casais do mesmo sexo constituem uma família implicaria na revisão dos livros sagrados considerados imutáveis por representarem a própria palavra de Deus".
Além disso, o sociólogo defende que a estrutura familiar é determinada, sim, pelo carinho entre duas pessoas, apesar de não exclusivamente por ele. Também entram em jogo a afinidade, os objetivos em comum e a divisão de despesas entre outros fatores, o que daria a qualquer casal –hétero ou homossexual– o direito de se classificar como família.
Já o pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, Ed René
Kivitz, afirma que a relação entre pessoas do mesmo sexo, apesar de não
merecer o carimbo "família" de acordo com os termos religiosos cristãos,
ainda deve ser vista como um arranjo familiar. "A convicção religiosa
não pode deixar de reconhecer que os casais homossexuais devem receber
do Estado todo o amparo para que possam se unir civilmente e tenham
resguardados todos os direitos inerentes a essa união".
Para Carolina de Campos Borges, a dificuldade de reconhecimento do
casamento homossexual por vários segmentos da sociedade também não é
surpresa, pois nenhuma modificação social opera sem resistências.
"Pode-se comparar essa não aceitação ao que ocorria, por exemplo, nos anos 1980 e início dos 1990 com relação às famílias que viviam o divórcio. Acreditava-se que a separação do casal traria consequências maléficas para seus filhos", conta ela.
"Pode-se comparar essa não aceitação ao que ocorria, por exemplo, nos anos 1980 e início dos 1990 com relação às famílias que viviam o divórcio. Acreditava-se que a separação do casal traria consequências maléficas para seus filhos", conta ela.
"Atualmente, quando o divórcio ocorre com mais frequência do que
antigamente, sabe-se que o que causa maior prejuízo para o
desenvolvimento dos filhos é a pouca qualidade do relacionamento
conjugal e não o fato de estar casado ou não. Isso porque a felicidade
individual dos pais interfere na forma como desempenham suas funções
parentais", explica Borges.
A também
psicóloga Ida Kublikowski, da PUC-SP, também aposta na metamorfose da
ideia de família. "Ela está se adaptando ao mundo contemporâneo", diz
ela. "Seu conceito nunca morrerá, mas se diversificar e se adequar aos
costumes da sociedade moderna, como já vem acontecendo".
Para Kublikowski, estamos acostumados aos padrões arraigados da entidade. "Esse modelo ideal e burguês, que se estabeleceu há séculos nas classes socioeconômicas mais altas, não é mais necessariamente o que predomina nos dias de hoje", fala a especialista.
Para Kublikowski, estamos acostumados aos padrões arraigados da entidade. "Esse modelo ideal e burguês, que se estabeleceu há séculos nas classes socioeconômicas mais altas, não é mais necessariamente o que predomina nos dias de hoje", fala a especialista.
Caroline Randmer e Fábio de Oliveira
Do UOL
Do UOL
