Seus pais não entendem o porquê de você querer ser chamada por um determinado nome. Digamos, Maria: o nome com o qual você mais se identifica e que mostra que você é, sim, uma mulher. Na escola, ninguém quer conversar com você, e acha estranho que você queira ser chamada de Maria, imagine só. Você recebe apelidos maldosos, o grandalhão da sala convoca os amigos para persegui-la e grita outro nome em alto e bom som, mesmo que esse não seja bem o seu nome. A família toda acha que você merece um castigo, e um dos membros chega a bater em você, com a aprovação de todo mundo. A vizinhança encara com um desprezo semelhante tudo o que você faz. Daí você é expulsa de casa e não tem nem coragem de voltar à escola, porque nem ali as pessoas têm algum respeito.
Essa é a realidade enfrentada pela maioria esmagadora das pessoas transexuais e travestis, aquelas que não se identificam com o gênero que foi atribuído a elas quando nasceram. É assim: uma pessoa que nasceu com um pênis não necessariamente se identifica como homem (ou vice-versa, no caso dos homens trans), e por isso precisa ser reconhecida pelo que é, uma mulher. A Maria, nossa personagem fictícia, já disse que se identifica como mulher, já apontou como deve ser tratada e qual é sua identidade de gênero. E as discriminações enfrentadas pela Maria - em maior ou menor grau, em cada detalhezinho do dia a dia - são o que define a transfobia, um tipo de violência que atinge a letra "T" da sigla LGBT. Em seu aspecto mais extremo, ela culmina no assassinato. E o Brasil, em matéria de transfobia, tem muito a lamentar. Somos os líderes nesse ranking de assassinatos, segundo dados da organização Transgender Europe, e só neste ano foram 70 vítimas.
O último caso de destaque foi da travesti Laura Vermont, de 18 anos, que trabalhava como garota de programa. A jovem foi a uma festa, na Zona Leste da capital paulista, mas não voltou para casa. Ela foi espancada por um grupo de rapazes, esfaqueada e encontrada com a marca de um tiro em um dos braços. Ao pedir ajuda à polícia, em vez de ser socorrida, foi agredida novamente. A suspeita sobre a autoria do crime recai sobre dois policiais militares, que forjaram uma versão sobre o ocorrido ao relatarem tudo na delegacia. Ao que tudo indica, não só os PMs assassinaram a moça, como arrumaram um sujeito para se passar por testemunha e dizer que eles não tinham feito nada de errado. Por trás do caso, além da violência policial, está a transfobia. Se era uma travesti, precisava ser respeitada, enquanto caminhava por uma avenida à noite? Na última Parada do Orgulho LGBT, a atriz Viviany Beleboni desfilou "crucificada" e chamou atenção para o assunto: "a dor que a comunidade LGBT tem passado".
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Então, o jeito é ir para a rua e arranjar um jeito de não passar fome. Nem a casa nem a escola, via de regra, apoiam pra valer esse alguém. Nem o psicólogo na escolinha entende o que está acontecendo, nunca ouviu falar de identidade de gênero. O ambiente não é seguro e nem oferece o cuidado necessário. Daí que, desamparadas, 90% dessas meninas são empurradas para a prostituição, de acordo com os dados da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil). "A mulher trans que se prostitui, além de ser vista como criminosa, é encarada como um ser inferior", explica Daniela. E esse tratamento dá margem tanto para a violência por parte de policiais e clientes, como também reforça o preconceito contra as travestis e transexuais. Mesmo no caso de Laura, que contava com o apoio da família, essa imagem negativa motiva agressões.
Agora, e se você não quer se prostituir e vai procurar um emprego? Fique sabendo que a moça do RH vai pensar em todos os estereótipos antes de contratar. Juntando todas essas peças, dá para entender a que tipo de jogo essas pessoas ficam submetidas. Na verdade, nem a lei brasileira contempla essa população. Modificar o nome nos registros (certidão de nascimento, RG...), por exemplo, demanda um trabalho danado. São precisos laudos e mais laudos para comprovar para o Estado qual é o seu gênero, e muito esforço para obter gratuitamente os hormônios para conseguir adequar seu corpo, que são oferecidos pelo SUS, assim como a cirurgia de transgenitalização. "As pessoas trans não são só expulsas de casa e da escola, elas são expulsas da sociedade toda", resume Daniela. As muitas Lauras, Biancas, Natálias e Izabellys são a prova disso.
Por Priscila Bellini
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