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Salsinha e endro ajudam a curar câncer e... para, para tudo!

Uma notícia 100% honesta

Um grupo de cientistas russos publicou um estudo que afirma que salsinha e endro (também conhecido como dill) ajudam a curar câncer. É exatamente isso o que diz o título do comunicado do Instituto de Física e Tecnologia de Moscou.

A descoberta

Se isto fosse uma notícia típica sobre o câncer, a gente podia dar o nome dos cientistas e algumas citações. Gente com problemas reais talvez saísse por aí fazendo salada e esperando a cura. Ou gente saudável começaria a tacar salsinha e endro em tudo. Vai que dá certo...
Convido quem sabe ler em inglês a abrir o link acima. Vamos ver o que os cientistas têm a dizer depois do título.
O que eles descobriram é um método de sintetizar glaziovianina A a partir dos temperinhos mencionados. O composto é um potencial remédio novo, que atua ao atrapalhar a criação da tubulina, uma proteína essencial para a reprodução das células. Eles testaram os resultados em embriões de ouriço marinho e células de diversos tipos de câncer, com sucesso, e aparente pouca toxicidade para células saudáveis. (O ouriço, eles explicam, é um modelo para crescimento celular.)
"Tanto a evolução das terapias existentes e a procura por abordagens inovativas são uma missão no tratamento do câncer", afirma o professor Alexander Kislev, condutor do estudo. "Nossa equipe desenvolveu um método simples de produzir glaziovianina A e seus análogos, que inibem o crescimento de células de tumores humanos, usando blocos de construção da natureza." Viva a ciência!

Por que não é lá essas coisas

Vamos então às verdades chatinhas que não costumam aparecer em matérias sobre câncer. Primeiro, os cientistas russos não descobriram nenhum remédio novo. A glaziovianina A é conhecida desde 2007. O nome vem da Ateleia glazioviana - ou timbó, uma planta nativa do sul e sudeste do Brasil que é extremamente venenosa. Desde a descoberta, sabe-se de sua atividade contra a reprodução das células, o que é potencialmente um remédio para o câncer, uma reprodução descontrolada de células.
Dois: não adianta comer endro ou salsinha. Sério, não faça isso (exceto se estiver seguindo uma deliciosa receita). O que é descrito é um processo em nove etapas para sintetizar o composto a partir dessas plantas. Um produto sintetizado a partir das plantas não é o mesmo que as plantas - o composto pode só surgir durante o processo, ou a dose pode ser mínima. Mesmo se os compostos estão presentes na forma final na planta, em quantidade suficiente, podem ser destruídos no estômago ou não absorvidos.
Por fim, esse possível tratamento está num estágio bem primordial. Os cientistas estão falando em testes em células - a coisa não chegou nem no ratinho ainda. Anos ainda devem se passar e muito pode dar errado no meio do caminho. Não há garantia que ela possa ser adequadamente absorvida e tenha a mesma eficiência num organismo vivo. E estamos falando em quimioterapia aqui: ninguém sabe também dos efeitos colaterais. A empolgação dos cientistas russos está em usar uma matéria-prima comum... na Europa, sem depender de uma planta exótica brasileira.

Como ler notícias sobre câncer

É só isso... sintetizaram um possível remédio contra câncer a partir de duas plantinhas de cozinha. Estamos chamando os cientistas de desonestos? Não. A descoberta pode ser revolucionária... num futuro talvez distante, e nem pense em comer temperos para curar câncer.

Mas não é isso que você queria ler, era?

Todo mundo tem medo de câncer e toda a semana surge outra "cura" aparentemente milagrosa. O sensacionalismo, como neste caso, pode vir dos próprios cientistas - ou melhor, dos assessores de imprensa das universidades, que escrevem comunicados com títulos chamativos, para fisgar os jornalistas antes de fisgar o público. Faz parte do jogo. A algo triste verdade é que cientistas precisam ser conhecidos para ter financiamento.
Quanto a você, leitor, mantenha uma orelha em pé. Clique na fonte - se não tiver fonte, pode fechar a matéria. E, sim, isso vale até para este que vos escreve, inclusive.

original de
Fábio Morton
super