Após mais de três anos de Lava Jato com inúmeras prisões e denúncias contra políticos e empresários, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou nessa segunda-feira que já é possível se vislumbrar o fim da Lava Jato, dado o farto e profundo material encontrado pelos investigadores, acrescentando que o país não pode ficar eternamente refém da operação.
Segundo
ele, ao longo desses anos foram adotadas medidas e aprovadas
legislações que literalmente visavam minar a Lava Jato, e chegou a
comparar essa iniciativas as manobras feitas na Itália durante a
operação Mãos Limpas.
“Se vocês reparem, as
tentativas legislativas que ocorreram na Itália para desvirtuar as
investigações boa parte delas já ocorreu ou está em curso aqui no
Brasil“, disse ele a jornalistas em evento do jornal O Globo, no Rio de
Janeiro.
O procurador-geral não teme que essas
força contrárias à Lava Jato consigam abortar a operação. Para ele, a
investigação não pertence ao Ministério Público Federal mas sim à
sociedade brasileira, que não permitiria tais iniciativas.
Ele
acrescentou que a Lava Jato já foi muito além do que se imaginava e,
diante do volume do materiais colhidos e de sua relevância, já é
possível se enxergar o fim da operação.
“A Lava
Jato não pode ser uma investigação permanente, ela não existe por si
mesma e tem escopo”, disse. “Acredito que com os últimos episódios a
gente vislumbra o final e temos linha traçada até onde a operação pode
ir e até aonde se espera que vá... o Estado não pode ficar refém de uma
investigação eterna”, acrescentou.
Janot
criticou veladamente a sua sucessora, Raquel Dodge, que se encontrou
fora da agenda pública com o presidente Michel Temer ao afirmar que ele
“nunca fez isso”, mas disse não acreditar em problemas para a Lava Jato.
“Não
temo a Lava Jato conduzida pela Raquel Dodge, vai continuar sim, não há
o que temer“, disse, fazendo um trocadilho com o sobrenome do
presidente da República.
LENIÊNCIA PRECISA MELHORAR
Em nome da boa continuidade das investigações, Janot defendeu um ajuste no sistema de acordo de leniência no país.
Ele
entende que o modelo adotado atualmente está “uma bagunça” uma vez que a
empresa colaboradora não sabe com quem negociar entre todas das
instâncias envolvidas: Conselho Administrativo de Defesa Econômica
(Cade), Advocacia-Geral da União (AGU), Ministério da Transparência e
Controladoria-Geral da União (CCU) e Tribunal de Contas da União (TCU).
Além
disso, Janot acredita que o Ministério Público não poderia ficar fora
do processo de negociação já que o órgão é que oferece as denúncias na
esfera penal.
“Qual o interesse de fazer um
acordo e não acertar o lado penal que a empresa tem todo interesse? A
leniência está uma bagunça e tem que ser aprimorada”, disse.
TRABALHO ATÉ O FIM
Nos
próximos 20 dias de mandato, Janot afirmou que ainda tem muito trabalho
pela frente, mas não falou em ações específicas, como uma nova denúncia
contra Temer.
“Não vou deixar de praticar ato
de ofício meu até 17 de setembro e tudo que estiver maduro seguirá seu
rumo natural , como eu sempre fiz”, disse Janot, que chegou a dizer que a
mala de dinheiro filmada em São Paulo com o ex-deputado Rodrigo Rocha
Loures, seria apenas a primeira de uma série de malas de 500 mil reais.
No
final de junho, Janot apresentou denúncia por corrupção passiva contra o
presidente da República, mas a Câmara dos Deputados não deu autorização
para que a acusação fosse examinada pelo Supremo Tribunal Federal
(STF).
Desde a primeira denúncia, há uma forte expectativa de que seja apresentada pelo menos mais uma acusação formal contra Temer.
O
procurador-geral garantiu que seu combate intenso contra envolvidos em
crimes de corrupção, propina e outros não tem objetivo eleitoral, como
se chegou a especular. Disse que “não é candidato à Presidência, a
governador nem a síndico de prédio... não sou candidato a nada”.
O
procurador da República revelou ainda desejo de trabalhar no futuro na
iniciativa privada, de preferência na área de compliance e governança,
mas garantiu que jamais irá atuar como advogado para defender políticos
corruptos
“Assumo compromisso público de não defender corruptos. Esse é um compromisso comigo mesmo."Rodrigo Viga Gaier
Reuters
