A casa do povo não pode ter porta estreita - Jornalismo e Cultura

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26/06/26

A casa do povo não pode ter porta estreita


 A palavra xenofobia costuma ser imaginada longe da rotina das cidades,
associada a fronteiras, crises migratórias e conflitos internacionais. Mas seu sentido é
mais próximo do cotidiano do que parece. Trata-se da rejeição, da hostilidade ou da
desconfiança dirigida a alguém por sua origem. Pode alcançar quem veio de outro país,
de outro Estado, de outra cidade, de outro sotaque ou simplesmente de outra trajetória.
Esse tipo de sentimento, quando aparece em uma conversa privada, já revela
uma compreensão limitada da vida em sociedade. No ambiente político torna-se ainda
mais grave. E quando encontra espaço dentro ou ao redor de uma casa legislativa, mesmo
fora da formalidade das sessões, a contradição se torna evidente: o lugar destinado a
representar a pluralidade da população passa a flertar com uma ideia estreita de
pertencimento.
A representação política não se mede pelo local de nascimento. Câmaras
municipais, assembleias legislativas e o Congresso Nacional não existem para representar
apenas os que chegaram primeiro, os sobrenomes mais antigos ou os grupos
tradicionalmente instalados no território. O Legislativo representa pessoas: moradores,
trabalhadores, famílias, contribuintes, estudantes, comerciantes, servidores,
desempregados, empreendedores, idosos, jovens, gente que nasceu ali e gente que
escolheu viver ali.
No plano municipal, essa percepção deveria ser quase natural. A cidade é o
espaço da convivência concreta. É nela que se dividem os serviços públicos, as
dificuldades urbanas, as oportunidades de trabalho, o comércio de bairro, a escola dos
filhos, a fila na unidade de saúde e a expectativa, nem sempre realizada, de uma vida
melhor. A política local não lida com abstrações distantes. Lida com vizinhos.
Nenhum município é uma ilha biográfica. A história local raramente foi
construída apenas por quem nasceu no mesmo chão. Cidades crescem porque recebem
gente. Recebem famílias em busca de trabalho, pequenos comerciantes, estudantes,
operários, profissionais liberais, pessoas empurradas por crises econômicas, homens e
mulheres que saíram de lugares difíceis e tentaram recomeçar. Em muitos casos, quem
veio de fora ajudou a abrir ruas, erguer casas, fundar empresas, movimentar o comércio,
ocupar escolas, pagar impostos e formar novas gerações.
Por isso há uma incoerência profunda em transformar a origem de alguém em
defeito político, social ou moral. A cidade que rejeita o “de fora” costuma esquecer que
sua própria identidade foi, em boa parte, formada por chegadas. Antes de haver tradição,
houve deslocamento. Antes de haver comunidade consolidada, houve gente nova tentando
encontrar lugar.
Isso não significa negar a legitimidade de debates difíceis. Políticas
migratórias podem ser discutidas. A chegada de novos moradores pode pressionar
serviços públicos, desafiar a assistência social, exigir planejamento na saúde, na
educação, na habitação e no mercado de trabalho. A política existe também para enfrentar
essas tensões, distribuir responsabilidades e buscar soluções possíveis. O que não se pode
aceitar é a substituição do debate público por uma acusação genérica contra pessoas
identificadas por sua nacionalidade, sua região ou sua cidade de origem.
Há uma diferença fundamental entre discutir problemas sociais e escolher
culpados convenientes. Quando alguém afirma, sem base séria, que estrangeiros ou
migrantes “roubam empregos”, não está fazendo análise econômica. Está usando o antigo
atalho de transformar um grupo vulnerável em explicação simples para angústias
complexas. É uma frase que fala ao medo, não à razão. Pode até produzir concordância
imediata em alguns ambientes, mas não melhora a vida de quem procura trabalho.
O mercado de trabalho depende de crescimento econômico, qualificação
profissional, investimentos, políticas públicas, relações produtivas, informalidade,
tecnologia, custo de vida e de muitas outras variáveis que não cabem em slogans. Reduzir
tudo à presença de pessoas vindas de fora é confortável para quem fala, mas inútil para
quem precisa de solução. E ainda pior. Desvia o olhar das causas reais e diminui a
responsabilidade de quem deveria enfrentá-las.
Esse cuidado precisa ser maior quando a fala parte de quem exerce mandato
ou influência pública. O legislador não é apenas alguém que opina. Ele ocupa uma
posição institucional. Mesmo quando fala fora do microfone da sessão, sua palavra
carrega o peso simbólico do cargo. Um vereador, por exemplo, não representa apenas os
eleitores que concordam com ele, nem apenas os moradores mais antigos, nem apenas
quem compartilha sua origem. Representa a cidade em sua inteireza, inclusive aqueles
que não votaram nele, aqueles que chegaram há pouco e aqueles que sequer têm voz
organizada.
A função legislativa exige crítica, fiscalização, debate duro e divergência.
Nada disso se confunde com discriminação. Criticar uma política pública é parte da
democracia. Questionar uma decisão administrativa também. Apontar falhas em
programas sociais, políticas de acolhimento ou gastos públicos pode ser necessário. Mas
desqualificar pessoas por sua origem não é fiscalização. É empobrecimento do debate.
A Constituição brasileira não adotou a igualdade como enfeite de discurso.
Ela assumiu entre seus objetivos fundamentais a promoção do bem de todos, sem
preconceitos de origem e sem outras formas de discriminação. Esse compromisso não
deveria aparecer apenas em solenidades, discursos de posse ou campanhas institucionais.
Precisa orientar a cultura das instituições públicas, especialmente daquelas que vivem da
palavra.
E no Parlamento a palavra nunca é apenas palavra. É por meio dela que se
propõem leis, se fiscaliza o Executivo, se defendem comunidades, se alimentam conflitos
ou se constroem soluções. Quem fala da tribuna, do gabinete, de uma reunião política ou
mesmo de um espaço informal de poder não fala em terreno neutro. Fala a partir de uma
instituição que não pertence a uma origem, a um grupo, a um partido ou a uma turma.
Pertence à população.
Há quem tente tratar manifestações xenófobas como simples opinião. Mas
nem tudo que se apresenta como opinião deve ser naturalizado pelas instituições. A
democracia protege a liberdade de expressão porém não exige que se trate a degradação
de grupos inteiros como se fosse apenas mais uma divergência legítima. A diferença é
simples. Dizer que determinada política pública é falha pertence ao debate democrático.
Sugerir que pessoas são menos dignas, menos confiáveis ou menos bem-vindas porque
nasceram em outro lugar já é outra coisa. E essa outra coisa não melhora a política, não
protege a cidade e não resolve problema algum.
No plano local, essa distinção é ainda mais importante. O estrangeiro, o
migrante, o recém-chegado, o morador de outro bairro, o trabalhador sem raízes
familiares antigas na cidade, todos frequentam a mesma unidade de saúde, matriculam
filhos nas mesmas escolas, compram no comércio local, usam o transporte público,
caminham pelas mesmas ruas e enfrentam os mesmos problemas urbanos. Transformá-
los em ameaça abstrata é esquecer que a cidade é feita de presenças concretas.
Uma Câmara Municipal deveria ser a primeira instituição a compreender isso.
A casa do povo não pode funcionar como clube de origem. Não pode sugerir que alguns
pertencem mais do que outros. Não pode tratar cidadania como privilégio de quem chegou
antes. Em uma República, pertencimento não é concessão generosa dos antigos
moradores, mas condição reconhecida a quem participa da vida comum.
Condenar a xenofobia não impede o debate. Ao contrário, melhora o debate.
Obriga a política a abandonar frases fáceis e encarar problemas reais com argumentos
reais. Recusa a tentação de culpar quem tem menos poder de resposta. E lembra que a
representação pública perde sentido quando deixa de reconhecer a humanidade de quem
deveria representar.
As cidades brasileiras, grandes ou pequenas, são feitas de encontros. Algumas
pessoas nascem nelas. Outras chegam. Algumas ficam. Outras passam. Muitas criam
raízes onde antes eram desconhecidas. As comunidades se formam com tempo, trabalho,
convivência e alguma generosidade pública.
O Legislativo precisa ser mais do que um lugar onde se fala. Precisa ser um
lugar onde se mede a responsabilidade do que se fala. A crítica política pode ser firme,
dura e incômoda. Mas jamais deve escolher a origem de alguém como alvo. Quem ocupa
uma cadeira de representação deve lembrar que a cidade não pertence apenas aos que
dizem “somos daqui”. Pertence também aos que chegaram, trabalharam, contribuíram e
decidiram chamar aquele lugar de casa.