Conexões Sombrias - Como Contratos do Wi-Fi de SP Uniram Produtora de Filme de Bolsonaro e Homem Apontado como Elo do PCC - Jornalismo e Cultura

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26/06/26

Conexões Sombrias - Como Contratos do Wi-Fi de SP Uniram Produtora de Filme de Bolsonaro e Homem Apontado como Elo do PCC

 

Uma complexa teia que entrelaça o uso de recursos públicos, propaganda política, crimes violentos e o crime organizado desafia as autoridades de São Paulo. Investigações lideradas pelo Ministério Público do Estado (MP-SP) e pela Polícia Civil apontam que uma empresa subcontratada para instalar internet gratuita nas periferias da capital paulista pertencia a um homem apontado como membro relevante do Primeiro Comando da Capital (PCC) — e cujo pano de fundo empresarial esbarra na produção de uma cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

No centro do caso está o empresário Alex Leandro Bispo dos Santos, de 40 anos, conhecido no submundo como "Baianão". Santos é réu por feminicídio e apontado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) como integrante da facção criminosa.

Sua empresa, a Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda. (atual Urban Connect), recebeu milhões de reais de uma organização parceira da Prefeitura de São Paulo, comandada pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB).

A Teia de Conexões: Do Cinema Político ao Wi-Fi Público

O elo entre o dinheiro público da capital paulista e o projeto audiovisual reside no Instituto Conhecer Brasil (ICB). A organização é presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama, que também é dona da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo documentário "Dark Horse", filme que retrata a trajetória de Jair Bolsonaro.

A cronologia dos fatos revela a evolução dos repasses e das suspeitas:

  • Junho de 2024: O ICB firma um termo de colaboração com a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) da gestão Ricardo Nunes para o programa WiFi Livre. O montante total estimado pela polícia chega a R$ 157 milhões (com escopo inicial de R$ 108 milhões). Na época, o ICB não tinha histórico consolidado no setor de tecnologia.

  • A Subcontratação: Para executar o serviço, o ICB terceirizou as instalações. A empresa de Alex Leandro, a Favela Conectada, foi subcontratada em um acordo de até R$ 12 milhões para implantar pontos de internet nas zonas Sul e Oeste.

  • Os Pagamentos: Até o fim de dezembro de 2025, a empresa de Santos instalou 908 pontos em comunidades e faturou mais de R$ 3,8 milhões, comprovados em notas fiscais e medições. Um único extrato de julho de 2025 registrou o repasse de R$ 2 milhões.

A Polícia Civil apura se parte dos recursos do contrato bilionário com o município foi ilegalmente desviada para financiar a produção da cinebiografia política, hipótese que a defesa de Karina Gama nega veementemente.

O Perfil do Empresário e os Vínculos com o PCC

Segundo o promotor Lincoln Gakiya, uma das principais autoridades do país no combate ao PCC, Alex Leandro Bispo dos Santos possui uma extensa ficha criminal, acumulando mais de 60 citações em processos judiciais e três condenações por roubo que somam 34 anos de pena.

Histórico no Sistema Prisional: Santos passou por 13 presídios ao longo de quase 13 anos detido. Entre as unidades, figuram as penitenciárias de Mirandópolis e a P2 de Presidente Venceslau — esta última conhecida por abrigar a cúpula da facção paulista. Santos esteve lá no mesmo período em que Marco Willians Herbas Camacho, o "Marcola", chefe máximo do grupo, estava isolado na unidade.

A inteligência da polícia reuniu indícios substanciais sobre o papel de Santos na organização:

  1. Gravações de Áudio: Em uma discussão gravada e anexada aos autos, o empresário afirma textualmente: "tenho escorpião do PCC", em alusão a uma de suas tatuagens.

  2. Simbologia do Crime: Relatórios policiais detalham que Santos possui as tatuagens de uma carpa e de um dragão. No contexto das facções, a combinação de ambos os símbolos reforça o status de um membro de alto escalão que superou grandes desafios na hierarquia criminosa.

O Caso de Feminicídio e a Mudança Societária

Em novembro de 2025, a trajetória empresarial de "Baianão" colidiu com um crime de violência doméstica. Santos foi preso preventivamente sob a acusação de matar sua companheira, Maria Katiane Gomes da Silva, de 25 anos. A jovem morreu após cair do 10º andar de um edifício residencial na Vila Andrade, Zona Sul da capital.

A investigação aponta que o casal discutiu em uma festa antes de retornar ao prédio. Imagens de segurança flagraram Alex agredindo a companheira e arrastando-a pelo pescoço para dentro do apartamento. Pouco depois, ocorreu a queda. Um detalhe técnico chama a atenção dos investigadores: Maria Katiane assinou como testemunha no contrato firmado entre o ICB e a empresa de internet de Santos.

A Manobra Contratual pós-Denúncia

Após as primeiras denúncias sobre o contrato virem à tona na imprensa em dezembro de 2025, a estrutura da Favela Conectada sofreu alterações rápidas na Junta Comercial de São Paulo (Jucesp):

  • Santos deixou o quadro societário.

  • O controle passou para Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes, que reside no mesmo endereço do empresário, no Butantã.

  • O nome da companhia foi alterado para Urban Connect Serviços e Tecnologia LTDA., e uma retificação contratual foi assinada junto ao ICB para transferir a titularidade dos recebimentos.

O Outro Lado: O que Dizem as Partes Envolvidas

Os citados defendem a regularidade de suas condutas e rebatem as acusações de conluio com o crime organizado.

  • A Defesa de Alex Leandro: O advogado criminalista Eugênio Malavasi nega categoricamente que seu cliente integre o PCC, afirmando que "evidência não é prova". No caso do feminicídio, sustenta que a vítima se jogou da sacada e que o réu colaborou entregando uma assistente virtual Alexa para perícia. Sobre os contratos, o defensor preferiu não se manifestar por atuar apenas na esfera criminal do homicídio.

  • O Instituto Conhecer Brasil (ICB): A entidade afirma que a escolha da Favela Conectada baseou-se em critérios puramente técnicos, visto que a empresa já prestava serviços regulares de conectividade na favela de Paraisópolis. O instituto declarou que, à época, não havia qualquer impedimento legal contra o prestador e que apoia os princípios constitucionais de ressocialização. Informou também que rescindiu o contrato imediatamente em dezembro de 2025, assim que soube da acusação de feminicídio.

  • A Prefeitura de São Paulo: Por meio da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT), a gestão municipal declarou que sua relação jurídica ocorre exclusivamente com o ICB e que, por lei, a escolha de subcontratados é de responsabilidade única da ONG parceira. A prefeitura classificou qualquer associação direta entre o município e o crime organizado como "irresponsável e leviana", reforçando que o programa WiFi Livre segue operando normalmente e fiscalizado em tempo real.