Como a Escala Global do El Niño Coloca em Risco a Safra Brasileira e Eleva Pressão sobre Preços de Alimentos - Jornalismo e Cultura

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12/07/26

Como a Escala Global do El Niño Coloca em Risco a Safra Brasileira e Eleva Pressão sobre Preços de Alimentos

 

Em meio ao aperto econômico de juros altos e custos geopolíticos, o reaquecimento do Pacífico impõe quebra de regularidade regional e desafia a resiliência do campo do Matopiba ao Rio Grande do Sul.

O agronegócio brasileiro, motor histórico do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, está diante de um divisor de águas meteorológico no segundo semestre. A consolidação do fenômeno El Niño, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico na faixa equatorial, joga luz sobre as vulnerabilidades estruturais do campo. Longe de ser apenas uma estatística meteorológica, o evento ganha contornos dramáticos ao coincidir com um ambiente macroeconômico já desgastado por taxas de juros elevadas e pela permanente pressão nos custos de produção — reflexos dos choques logísticos e energéticos no mercado de fertilizantes e de diesel motivados pela guerra envolvendo o Irã.

O grau de incerteza que orbita a intensidade do fenômeno mobiliza as principais consultorias e centros de pesquisa. Dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), agência oficial dos Estados Unidos, apontam que as probabilidades de que o atual ciclo se configure como um evento de força extrema, popularmente apelidado de "Super El Niño", atingiram a expressiva marca de 81%. Embora o termo carregue uma conotação mais midiática do que estritamente técnica, ele traduz com precisão o potencial de perturbação climática na comparação com os históricos registrados nas últimas décadas.

"A gente sabe que vai ter um El Niño, mas ainda não tem a dimensão das possíveis perdas caso os eventos sejam extremos", alerta o pesquisador Leandro Gilio, do centro de estudos Insper Agro Global, citando ameaças à produção de grãos, cana-de-açúcar e hortaliças.

A Assimetria dos Impactos Geográficos

A principal armadilha para o planejamento do produtor reside na descentralização da produção agropecuária brasileira. Não há um impacto uniforme. O território nacional experimentará, de forma simultânea, extremos opostos em suas fronteiras produtivas. Conforme explica o pesquisador Felippe Serigati, do centro de estudos FGV Agro, a extensão continental do país dita que cada região sinta o estresse climático sob dinâmicas completamente distintas, demandando estratégias sob medida: "A produção agropecuária brasileira está espalhada em diversas porções do território, então não há um único impacto do El Niño. Cada região deve sentir o fenômeno de um jeito".

Relatórios analíticos do Itaú BBA classificam os riscos climáticos em três níveis de probabilidade (alto, médio-alto e médio), mapeando os cenários com base no histórico de episódios anteriores:

  • Norte e Nordeste (Risco Alto): Ameaça severa de chuvas abaixo da média e longos períodos de seca, concentrando as maiores preocupações na região do Matopiba (áreas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).

  • Região Sul (Risco Alto): Excesso volumoso de chuvas e temperaturas acima da média histórica, gerando risco iminente de inundações.

  • Centro-Oeste e Sudeste (Risco Médio-Alto): Elevada irregularidade na distribuição das chuvas e ondas de calor intermitentes durante fases críticas do cultivo.

"Se houver problemas de produção, haverá um aperto na oferta, o que deve levar à alta dos preços, principalmente dos grãos", projeta o analista Francisco Queiroz, da consultoria Agro do Itaú BBA.

O Efeito Dominó nas Janelas de Plantio

O maior temor das consultorias especializadas, como a Safras & Mercado, concentra-se no cronograma do complexo soja-milho. A soja, considerada o carro-chefe da balança comercial agrícola do país, possui uma janela ideal de semeadura que se estende de setembro a dezembro, variando conforme a localidade.

No Centro-Oeste, destaque nacional na atividade, a irregularidade inicial das chuvas pode forçar o produtor a adiar o início do cultivo da oleaginosa. Segundo o consultor Gabriel Viana, este atraso gera um inevitável efeito dominó sobre o segundo ciclo, conhecido como milho "safrinha". Como o milho safrinha depende diretamente da desocupação da área pela soja, qualquer semana perdida empurra o cereal para uma janela climática de outono muito mais seca e desfavorável. "Não podemos quebrar a safra antes da hora, mas tudo está se encaminhando para problemas com o El Niño. Os mapas climáticos estão feios", aponta Viana.

No Sudeste, os riscos estendem-se para culturas perenes e semiperenes, como o café e a cana-de-açúcar. Já no Sul, a preocupação imediata recai sobre o trigo, que pode perder qualidade com o excesso hídrico, e o arroz. Cerca de 70% da produção nacional de arroz está concentrada no Rio Grande do Sul; volumes excessivos de chuva nas várzeas gaúchas podem comprometer severamente o padrão do cereal.

Danyella Bonfim, assessora técnica da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), reforça o sinal de alerta sobre a instabilidade no Centro-Oeste e Sudeste. "Qualquer atraso nas chuvas pode comprometer a janela de plantio. Há muita preocupação com esse efeito dominó", diz a analista, apontando também para os extremos de escassez hídrica no Matopiba.

Impacto na Pecuária e a Transmissão para o Bolso do Consumidor

Os desdobramentos do fenômeno ultrapassam as fronteiras das lavouras e alcançam diretamente as cadeias de proteína animal. O El Niño altera o padrão de renovação das pastagens em diferentes regiões do país. Diante de pastos empobrecidos pelo estresse climático, o pecuarista é obrigado a recorrer de forma intensiva à suplementação no cocho através de rações concentradas.

É neste ponto que o nó estratégico se aperta: os insumos base da ração animal são justamente o milho e o farelo de soja. Caso as quebras agrícolas se concretizem nas lavouras, os custos de insumos disparam. Segundo Francisco Queiroz, do Itaú BBA, problemas na colheita do milho geram uma reação em cadeia que eleva o preço de proteínas como a carne de frango. "O aumento de custos de produção acaba sendo repassado para o consumidor final", explica.

A pressão inflacionária também se propaga rapidamente através dos produtos de ciclo curto, como as hortaliças e itens de hortifruti. Por possuírem ciclos de produção rápidos, esses alimentos respondem de maneira quase instantânea a choques de oferta e oscilações de temperatura, pesando de imediato no bolso do consumidor urbano. Diante deste cenário, economistas já revisam para cima as previsões para a inflação de alimentos.

Prudência vs. Alarmismo

Embora o cenário exija atenção máxima, especialistas recomendam cautela nas projeções de longo prazo. O agrometeorologista Marco Antonio dos Santos, sócio da consultoria Rural Clima, pondera que, apesar de o El Niño "preocupar muito", ainda é muito prematuro falar em uma catástrofe consolidada para a safra de grãos. Ele indica que o regime de chuvas pode começar cedo no Brasil, auxiliando o plantio da soja entre setembro e outubro, embora admita o risco de veranicos e escassez hídrica em áreas de Cerrado durante os meses de novembro e dezembro.

Essa visão menos pessimista é compartilhada por lideranças do setor. Lucas Costa Beber, presidente da Aprosoja Mato Grosso e presidente interino da Aprosoja Brasil, destaca que as flutuações nas previsões climáticas são comuns e pede foco no manejo técnico. "O clima sempre é uma preocupação. A única coisa é que o alarmismo começou cedo. Já teve outros anos em que se falava em aumento de chuva, outros em diminuição, e às vezes isso muda. O produtor tem que ter boas práticas independentemente do clima, fazer primeiro a parte que ele pode fazer", conclui, sem deixar de monitorar o risco de atraso na janela da safra.