Disputas por rotas de tráfico internacional, expansão do crime organizado sobre serviços essenciais e picos de letalidade policial mantêm dez estados das regiões Norte e Nordeste no topo dos índices nacionais de homicídios intencionais.
A radiografia da criminalidade no Brasil expõe uma profunda assimetria regional e confirma a consolidação de um fenômeno estrutural: o deslocamento do eixo da violência letal em direção ao Norte e Nordeste do País. Segundo os dados da 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), sete dos dez estados mais violentos do Brasil estão situados no Nordeste, enquanto os outros três pertencem à Região Norte.
A métrica central utilizada pela publicação analisa a taxa de Mortes Violentas Intencionais (MVI) por cada 100 mil habitantes — indicador consolidado que engloba homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais (em serviço ou fora dele).
While a média nacional registrou 19,1 vítimas por 100 mil habitantes, a Região Nordeste encerrou o período com uma taxa média de 31,6, seguida de perto pela Região Norte, com 25,3. Em contraste, as demais regiões do País registraram índices consideravelmente menores: Centro-Oeste (17,3), Sudeste (12,6) e Sul (11,9).
Ranking dos 10 Estados Mais Violentos do Brasil (Taxa de MVI / 100 mil hab.)
Amapá (Norte) — 42,5
Bahia (Nordeste) — 36,8
Ceará (Nordeste) — 34,7
Alagoas (Nordeste) — 33,1
Pernambuco (Nordeste) — 33,0
Maranhão (Nordeste) — 29,7
Rio Grande do Norte (Nordeste) — 29,1
Pará (Norte) — 28,4
Rondônia (Norte) — 28,1
Paraíba (Nordeste) — 24,6
Amapá e as Rotas Transnacionais do Tráfico
No topo do ranking nacional figura o Amapá, que atingiu a alarmante marca de 42,5 mortes violentas intencionais para cada 100 mil habitantes. A posição crítica do estado é explicada por fatores geográficos e logísticos estratégicos. Posicionado na fronteira com a Guiana Francesa e entrecortado por uma densa malha fluvial, o território amapaense converteu-se em um cobiçado corredor de passagem para o tráfico internacional de entorpecentes e armas de fogo.
A complexidade de fiscalização nessas calhas de rios e regiões de fronteira favoreceu o acirramento do confronto entre facções criminosas de alcance nacional e gangues locais. Adicionalmente, especialistas apontam que o quadro no Amapá é agravado por uma das taxas de letalidade policial mais elevadas do País, criando um espiral de violência contínua em áreas urbanas e ribeirinhas.
Bahia e Ceará: Interiorização da Violência e Monopólio de Serviços
Segunda colocada no ranking geral com taxa de 36,8 mortes por 100 mil habitantes, a Bahia vivencia um processo severo de interiorização da violência. O estado abriga cinco das dez cidades mais violentas do Brasil, com destaque para municípios como Eunápolis, na região sul, além da faixa metropolitana de Salvador. Os conflitos, anteriormente restritos às grandes capitais, transbordaram para o interior baiano em razão da disputa de territórios entre facções rivais.
A violência na Bahia é impulsionada pela combinação de baixos índices de elucidação de homicídios, profundas desigualdades socioeconômicas e episódios emblemáticos de confrontos armados de alta intensidade. Em março de 2025, por exemplo, uma operação militar no bairro de Fazenda Coutos, periferia de Salvador, resultou em 12 suspeitos mortos após a invasão do local por uma organização rival — evento que reacendeu debates sobre as táticas de enfrentamento policial e letalidade no estado.
Já no Ceará (3º lugar, com 34,7 mortes por 100 mil hab.), o conflito está centrado no controle das rotas marítimas de escoamento de drogas e nos territórios habitacionais da Região Metropolitana de Fortaleza. O fenômeno recente no estado revela uma tática de expansão das facções para além do narcotráfico: a cooptação e exploração de serviços essenciais. Ataques coordenados contra provedores locais de internet demonstraram a tentativa do crime organizado de estabelecer monopólios sobre infraestruturas urbanas por meio de extorsão e destruição física de equipamentos.
Avanço do Crime Organizado e Mudanças de Tendência
A análise detalhada dos dados revela movimentos atípicos em outras unidades federativas. O Rio Grande do Norte registrou um dos piores retrocessos no período, apresentando um salto de 19,6% nas mortes violentas. O crescimento foi puxado pela alta nos homicídios dolosos, que saltaram de 655 para 843 vítimas em um único ano.
"O que está acontecendo ali, como em vários outros Estados, tem a ver com o crime organizado. Lá é o conflito entre o PCC e o Sindicato do Crime (SDC). Isso tem gerado muitas disputas territoriais e um volume expressivo de mortes." — Samira Bueno, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Em Rondônia, por sua vez, a alteração na tendência de segurança pública decorreu de um aumento drástico na intervenção policial: as mortes provocadas por agentes de segurança subiram de 8 para 47 casos entre 2024 e 2025. Embora representem menos de 10% do total de MVI do estado, o incremento significativo influenciou diretamente a curva estatística estadual.
O Peso da Letalidade Policial: O Exemplo do Rio de Janeiro
Fora do grupo das dez unidades federativas mais violentas, o estado do Rio de Janeiro destaca-se como um estudo de caso emblemático sobre a proporção da ação estatal nas estatísticas de mortalidade. Em 2025, uma em cada cinco mortes violentas intencionais (20%) registradas em solo fluminense derivou de intervenção policial direta.
O ápice desse cenário ocorreu durante a chamada Operação Contenção, deflagrada nos Complexos do Alemão e da Penha. A ação militar resultou em 122 mortos (117 civis e 5 agentes da ordem), tornando-se historicamente a operação policial de maior letalidade já documentada no estado do Rio de Janeiro, evidenciando os dilemas da política de segurança baseada em confrontos de grande escala.
Contraponto Oficial: Posicionamento do Governo da Bahia
Em resposta aos indicadores apresentados no relatório, a Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) informou ter deflagrado mais de 500 operações policiais ostensivas e de inteligência, resultando em uma redução de 20% nos assassinatos durante o primeiro semestre de 2026. A pasta destacou ainda um incremento de 10% nas prisões executadas e de 5% no volume de armas de fogo apreendidas.
Em relação à letalidade policial, o governo baiano sustenta que as mortes por intervenção legal de agentes do Estado apresentaram queda de 12% em 2026. Para a região de Porto Seguro e Eunápolis, foram implementadas ações estruturantes, tais como:
Criação do Comando de Policiamento da Região Extremo Sul da Polícia Militar;
Instalação da Diretoria Regional da Polícia Civil e da Base de Inteligência Integrada (Forças Estaduais e Federais);
Aporte financeiro de R$ 1,3 bilhão em infraestrutura, viaturas, armamento e equipamentos de inteligência;
Contratação de 11 mil novos servidores entre policiais, peritos e bombeiros militares.
FONTE: 20ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (Fórum Brasileiro de Segurança Pública - FBSP)
