Com uma mulher assassinada a cada quatro horas em 2025, o país atinge a marca de 1.571 vítimas fatais. Falhas estatais na fiscalização de medidas protetivas e a inoperância do sistema de segurança agravam a crise de gênero.
O Brasil vive um contraste estarrecedor em seus indicadores de segurança pública. Enquanto o número total de mortes violentas intencionais caiu para o patamar mais baixo dos últimos 13 anos, a violência letal contra as mulheres caminha na direção oposta. Em 2025, o país bateu um novo e triste recorde histórico: 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio — um aumento de 4% em relação ao ano anterior —, o que consolida uma média estarrecedora de uma mulher assassinada a cada quatro horas por razões ligadas ao seu gênero.
Os dados pertencem ao relatório anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e revelam a maior cifra desde a sanção da Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015), que há uma década qualificou criminalmente os assassinatos cometidos contra mulheres em contexto de violência doméstica ou menosprezo à condição feminina.
A Ponta do Iceberg de uma Violência Contínua
Os feminicídios representam apenas a fração fatal de um ciclo permanente de agressões. De acordo com o balanço do FBSP, além das mortes consumadas, 4.189 mulheres sobreviveram a tentativas de feminicídio em 2025, o que representa uma alta de 6% em comparação a 2024. Na prática, para cada mulher morta, pelo menos outras três escaparam por pouco de perder a vida para a violência de gênero.
A tese de que a alta dos casos decorra apenas da diminuição da subnotificação ou da melhoria dos registros policiais é rebatida por especialistas. Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do FBSP, explica que, se o fenômeno fosse puramente um ajuste metodológico de dados, o indicador teria atingido uma fase de estabilização.
"Temos que colocar essa lente com muita centralidade nos feminicídios porque, mesmo com políticas públicas e 20 anos da Lei Maria da Penha em vigor, esses crimes não diminuíram", destacou a especialista em entrevista ao portal UOL, ressaltando que a tendência de subida se mantém clara e constante.
Perfil das Vítimas e o Rompimento do Silêncio
O levantamento traça um perfil estatístico nítido da violência no país:
Faixa Etária e Raça: A maioria das vítimas é composta por mulheres jovens (entre 25 e 29 anos) e 65% são mulheres negras.
Autoria dos Crimes: Em quase 80% dos casos, os autores dos assassinatos são os próprios parceiros ou ex-companheiros das vítimas.
Paralelamente ao avanço dos crimes letais, nota-se um crescimento vertiginoso nas denúncias de agressões físicas, violência psicológica, perseguição (stalking) e descumprimento de medidas protetivas de urgência. Esse movimento sugere que as mulheres brasileiras vêm quebrando gradativamente a barreira do silêncio. O gargalo, no entanto, recai sobre o Estado, que recebe os alertas desse escalonamento da violência, mas falha em intervir a tempo de evitar as tragédias.
Falha Estatal na Proteção de Vítimas
A ineficácia das respostas públicas é evidenciada no descumprimento das ordens de afastamento. Em 2025, foram registradas 132.000 violações de medidas protetivas de urgência — um salto de 17% na comparação anual.
O resultado da falta de fiscalização adequada é fatal: ao menos 70 mulheres foram assassinadas enquanto estavam formalmente sob a proteção da justiça. Especialistas alertam que o número real é significativamente maior, dado que estados altamente populosos omitiram ou não consolidaram suas informações a esse respeito.
Respostas Políticas: Das Medidas Simbólicas ao Pacto Nacional
A escalada do problema tem mobilizado o meio político, gerando propostas de diferentes matizes:
No âmbito estadual: Na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), avança um projeto de lei singular que pretende obrigar agressores de mulheres a utilizarem uma tornozeleira eletrônica na cor rosa, com o objetivo de identificá-los publicamente.
No âmbito federal: O Governo Federal lançou o Pacto Nacional contra o Feminicídio, visando integrar a atuação dos Três Poderes e dos entes federativos. Entre os primeiros resultados divulgados nos três primeiros meses do plano, destacam-se a criação de um registro nacional unificado de agressores e a redução do tempo médio de análise dos pedidos de medidas protetivas urgentes de 16 para 3 dias.
Indicadores Gerais de Segurança e o Debate Eleitoral
O agravamento do feminicídio contrasta diretamente com a tendência geral da criminalidade no Brasil. Em 2025, o país contabilizou 40.775 mortes violentas intencionais, representando uma redução de 8% em relação ao ano anterior e registrando o menor patamar de homicídios dos últimos 13 anos. A curva de violência urbana geral mantém trajetória de queda desde o ápice registrado em 2017 (quando ultrapassou 67 mil mortes).
Apesar disso, índices específicos continuam em patamares alarmantes, tais como o feminicídio e a letalidade policial — as forças policiais brasileiras mataram 6.602 pessoas em 2025, atingindo um novo recorde. Como a segurança pública permanece no topo das preocupações da população, esses indicadores contraditórios tendem a ser o divisor de águas e o tema central do próximo debate eleitoral.
Quadro Resumo dos Dados (2025 vs. 2024)
| Indicador Analisado | Registro em 2025 | Variação Anual | Situação do Indicador |
| Feminicídios Consumados | 1.571 vítimas | + 4,0% | Recorde histórico desde a criação da lei |
| Tentativas de Feminicídio | 4.189 sobreviventes | + 6,0% | Tendência contínua de alta |
| Descumprimento de Medidas Protetivas | 132.000 ocorrências | + 17,0% | Crescimento alarmante e falha na rede |
| Perfil Predominante das Vítimas | Jovens / 65% Negras | — | Vulnerabilidade racial e etária acentuada |
| Autoria dos Crimes (Companheiros/Ex) | ~80% dos casos | — | Violência doméstica e familiar |
| Mortes Violentas Totais no Brasil | 40.775 homicídios | - 8,0% | Menor nível em 13 anos |
| Letalidade Policial | 6.602 mortes | Alta | Recorde de mortes por intervenção policia |
