A partir deste fim de semana, a programação do rádio e da televisão aberta no Brasil volta a ser sequestrada pela obrigatoriedade do horário eleitoral. São 35 dias de exibições impostas que prometem vender ilusões em horário nobre. Vendido historicamente sob a bandeira de "instrumento democrático de informação", o modelo atual se consolidou como uma oligarquização do espaço público: um circo bilionário custeado pelo contribuinte, desenhado sob medida para blindar caciques partidários e anestesiar o eleitorado.
Para além do desgastado debate sobre se o eleitor ainda assiste à TV ou se migrou em definitivo para as redes sociais, o problema central do horário eleitoral é a sua natureza monopolista e antidemocrática. O termo "gratuito" é uma das maiores falácias do sistema político brasileiro. A Lei Eleitoral não exige o espaço por benevolência das emissoras; a cessão ocorre em troca de pesadas abatimentos fiscais no Imposto de Renda das concessionárias de radiodifusão. Em termos práticos, é o pagador de impostos quem financia a infraestrutura técnica e o tempo de exibição para que políticos veiculem peças publicitárias ultraproduzidas, focadas no marketing de ataque e no apelo emocional.
A distribuição do tempo de tela expõe a rigidez do sistema. Em 2026, com regras de cláusula de desempenho e proporcionalidade partidária, a disputa pela presidência na TV se transforma em um oligopólio. O atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva detém cerca de 44% de todo o tempo do bloco (5 minutos e 31 segundos), graças às articulações e coligações da esquerda com o Centrão. Do outro lado, Flávio Bolsonaro abocanha 4 minutos e 20 segundos. Juntos, os dois polos absorvem quase 80% de toda a propaganda em bloco, deixando migalhas insignificantes para qualquer alternativa competitiva.
Candidatos e projetos de governadores bem avaliados no cenário nacional terminam sumariamente limados da televisão por não atingirem os cálculos matemáticos exigidos pela lei. O sistema pune a oxigenação política e premia a manutenção de feudos partidários. Quem não faz acordos com as cúpulas partidárias tradicionais é banido da tela do cidadão.
Tempo de TV e Rejeição Exposta
| Candidato / Campo | Tempo por Bloco | Estratégia / Situação Central |
| Lula (PT) | 5min 31s (44%) | Foco em alianças com o Centrão; exploração da rejeição adversária. |
| Flávio Bolsonaro (PL) | 4min 20s (34%) | Base consolidada; contra-ataque direcionado às denúncias do entorno governista. |
| Ronaldo Caiado (PSD) | 2min 02s (16%) | Espaço reduzido para romper a barreira da polarização nacional. |
| Augusto Cury (Avante) | 35 segundos (5%) | Tempo residual e figurativo na programação. |
| Excluídos da TV | 0 segundos (0%) | Candidatos sem cláusula de desempenho (ex: Romeu Zema, Renan Santos). |
Pesquisas recentes reforçam a ineficácia desse modelo custoso. Dados do Datafolha apontam que mais de 70% dos eleitores já declaram seu voto como definitivo — número que passa dos 80% na base dos líderes das pesquisas. Em paralelo, levantamentos do instituto Genial/Quaest mostram que a grande maioria dos brasileiros consolida sua escolha muito antes do início do período de propaganda.
Diante de um eleitorado cristalizado e com índices de rejeição à classe política na casa dos 45%, o horário eleitoral deixou de ser um fórum de debates programáticos para se transformar em um ringue de acusações mútuas. A propaganda não busca apresentar propostas para a saúde, educação ou segurança; seu propósito prático passou a ser a destruição da imagem do adversário, explorando escândalos e gerando rejeição.
O Brasil insiste em manter uma estrutura custosa, engessada e burocrática enquanto o mundo debate comunicação digital, transparência e cortes de privilégios. A obrigatoriedade do horário eleitoral na radiodifusão aberta é o símbolo de um sistema político endogâmico, projetado para perpetuar quem já está no poder às custas dos cofres públicos.

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