Nas duas
últimas eleições presidenciais, o Brasil assistiu à consolidação de uma disputa
altamente polarizada entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Em 2018,
essa divisão já se desenhava, mas ainda permitiu algum fôlego para
alternativas. Ciro Gomes, então pelo PDT, conquistou 12,47% dos votos válidos e
terminou em terceiro lugar. Já em 2022, o espaço para uma “terceira via”
encolheu drasticamente: Simone Tebet obteve 4,16%, enquanto Ciro caiu para
3,04%, segundo dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral.
Esse
cenário reforça um padrão: a disputa nacional passou a ser decidida
majoritariamente por rejeição — mais do que por adesão — e isso dificulta o
surgimento de candidaturas competitivas fora dos polos dominantes.
O “eleitor invisível” e o mito da polarização
absoluta
Apesar da
aparência de divisão rígida, estudos recentes indicam uma realidade mais
complexa. Levantamentos do instituto Datafolha e análises do Instituto
Locomotiva apontam que uma parcela significativa do eleitorado não se
identifica ideologicamente com os extremos.
Dados
amplamente divulgados por analistas políticos mostram que:
- Cerca de 25% a 30% dos
eleitores se declaram desiludidos ou pouco engajados;
- Uma fatia relevante vota em
candidatos de esquerda ou direita por circunstância, não por convicção;
- O núcleo ideológico mais
fiel (esquerda e direita “raiz”) representa uma minoria ativa, mas
extremamente influente no debate público.
Isso
revela uma contradição central: embora a polarização domine o discurso político
e as redes sociais, existe um contingente expressivo de brasileiros
potencialmente aberto a uma alternativa mais moderada.
A tentativa frustrada do centro e o caso Ratinho
Júnior
Dentro
desse contexto, partidos como o PSD tentaram articular uma candidatura
competitiva de centro. Sob a liderança de Gilberto Kassab, a sigla chegou a
cogitar nomes com forte desempenho regional, como o governador do Paraná,
Ratinho Júnior.
Com alta
aprovação estadual — frequentemente apontada acima de 70% em pesquisas locais —
Ratinho Júnior era visto como um nome capaz de dialogar com setores da direita
e do centro. No entanto, fatores políticos e estratégicos levaram à sua
desistência de um projeto nacional.
Entre os
elementos que pesaram na decisão estão:
- O risco de desgaste com
temas sensíveis e disputas políticas nacionalizadas;
- A necessidade de consolidar
sua base no Paraná diante de adversários competitivos;
- O ambiente eleitoral
adverso, em que candidaturas fora da polarização têm dificuldade de ganhar
tração.
Além
disso, o cenário local se tornou mais complexo com a presença de nomes como
Sergio Moro, cuja notoriedade nacional e histórico na Operação Lava Jato
influenciam diretamente o tabuleiro político regional.
O peso das estruturas partidárias e o
enfraquecimento do centro
Outro
fator decisivo para a fragilidade da terceira via está na estrutura dos
partidos. Siglas tradicionais como o MDB e o PSDB perderam capilaridade,
quadros e identidade programática ao longo dos últimos anos.
Enquanto
isso:
- O chamado “Centrão” atua de
forma pragmática, mais voltado à governabilidade do que à construção de
projetos nacionais;
- A polarização se
retroalimenta nas redes sociais, ampliando visibilidade e engajamento;
- Temas relevantes — como
reforma tributária, segurança pública e políticas sociais — acabam
capturados por disputas ideológicas simplificadas.
As eleições e o papel decisivo dos indecisos
Pesquisas
recentes, como as do instituto Atlas em parceria com a Bloomberg, indicam que
candidatos fora do eixo principal raramente ultrapassam 5% das intenções de
voto em cenários simulados de primeiro turno. Isso confirma a dificuldade
prática de viabilizar uma alternativa competitiva.
Ainda
assim, estrategistas eleitorais apontam que a eleição tende a ser decidida por
cerca de 10 a 15 milhões de eleitores independentes — um grupo altamente
sensível a fatores como:
- Desempenho econômico;
- Escândalos de corrupção;
- Credibilidade e capacidade
de gestão.
Foi
justamente explorando esse sentimento que Jair Bolsonaro cresceu em 2018 com um
discurso “antissistema”. E é nesse mesmo terreno que uma eventual nova terceira
via poderia surgir — não como centro tradicional, mas como alternativa
disruptiva.
O desafio da moderação em tempos de radicalização
O Brasil
já viveu momentos em que a moderação política era dominante, inclusive com
diálogo entre forças como PT e PSDB em temas estruturais. Hoje, porém, o
ambiente é outro.
Figuras
como Geraldo Alckmin — que já representou o centro tradicional — acabaram
reposicionadas dentro da lógica polarizada. O mesmo ocorre com lideranças que,
mesmo moderadas, orbitam campos ideológicos mais definidos para manter
relevância eleitoral.
Um caminho estreito, mas não impossível
A
existência de um eleitorado desiludido, pragmático e pouco ideológico indica
que há, sim, espaço para uma alternativa fora da polarização. No entanto,
transformar esse potencial em votos exige mais do que um nome competitivo.
Exige:
- Clareza programática;
- Comunicação eficiente;
- Capacidade de mobilização
nacional;
- E, sobretudo, uma narrativa
que vá além da simples negação dos extremos.
O desafio
não é apenas político — é também cultural e comunicacional. Em um país onde o
conflito gera engajamento e visibilidade, a moderação precisa reaprender a ser
relevante.
No fim,
como em toda democracia, a decisão permanece nas mãos do eleitor. E ele, cada
vez mais fragmentado, pode tanto reforçar a polarização quanto surpreender —
abrindo caminho para algo novo.