Entre Filas e Soluções: Os Desafios Estruturais e os Caminhos Possíveis para Fortalecer o SUS - Jornalismo de Opinião

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14/04/26

Entre Filas e Soluções: Os Desafios Estruturais e os Caminhos Possíveis para Fortalecer o SUS

 

Quando se analisa o acesso aos serviços de saúde no Brasil, um dos problemas mais evidentes é o descompasso entre a demanda crescente da população e a capacidade de resposta do sistema. No âmbito do Sistema Único de Saúde, essa tensão é histórica e reflete tanto avanços importantes quanto limitações estruturais que ainda persistem.

A principal porta de entrada do sistema é a Atenção Primária à Saúde (APS), considerada internacionalmente como a estratégia mais eficiente para organizar o cuidado e reduzir custos. No Brasil, coexistem dois modelos distintos: a Estratégia Saúde da Família (ESF) e o modelo tradicional de atendimento ambulatorial.

A ESF, responsável por cerca de 60% da cobertura populacional segundo dados do Ministério da Saúde do Brasil, baseia-se no vínculo contínuo entre equipes multiprofissionais e a população adscrita. Esse modelo tem demonstrado melhores resultados em indicadores como redução da mortalidade infantil e internações por condições sensíveis à atenção primária, conforme estudos publicados por instituições como a Fundação Oswaldo Cruz.

Por outro lado, o modelo tradicional ainda atende cerca de 40% da população e se caracteriza por consultas rápidas, pouca continuidade do cuidado e baixa resolutividade. Nesse formato, médicos frequentemente não estabelecem vínculo com os pacientes, o que compromete o acompanhamento clínico e aumenta a necessidade de encaminhamentos para níveis mais complexos.

Esse cenário se torna ainda mais complexo quando se considera que aproximadamente 25% dos brasileiros possuem planos de saúde privados, conforme dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar. Embora essa parcela utilize menos a APS pública, há sobrecarga indireta, especialmente nos serviços de urgência e emergência.

Quando a atenção primária falha em resolver os problemas, o paciente é encaminhado para os níveis secundário e terciário. É nesse ponto que surgem gargalos ainda mais críticos. A fragmentação entre redes municipais e estaduais gera duplicidade de serviços, desperdício de recursos e falta de coordenação. Estudos apontam que o absenteísmo — faltas em consultas e exames — pode comprometer entre 30% e 40% da oferta, agravando filas e aumentando o tempo de espera.

Curiosamente, o Brasil demonstra capacidade de organizar filas em contextos específicos, como no sistema de transplantes, que é reconhecido internacionalmente. Isso evidencia que o problema não é apenas técnico, mas de gestão, governança e priorização.

Entre os principais desafios, destaca-se a baixa resolutividade da APS. A falta de escuta qualificada, protocolos bem implementados e capacitação contínua leva a encaminhamentos desnecessários, sobrecarregando serviços especializados já limitados. Além disso, há um histórico institucional de desvalorização da demanda espontânea, que remonta ao período do INAMPS, quando o foco era mais burocrático do que resolutivo.

Uma das soluções mais consistentes é a ampliação e qualificação da ESF. Isso inclui investimento em formação profissional, educação permanente, uso de protocolos clínicos e incorporação de tecnologias como a telemedicina — ferramenta que ganhou força durante a pandemia de COVID-19 e mostrou potencial para ampliar o acesso e apoiar equipes em áreas remotas.

Outro ponto central é a reestruturação da regulação do acesso. Experiências regionais em estados como Santa Catarina, Minas Gerais, Bahia e Ceará têm avançado com modelos de consórcios intermunicipais, buscando integrar a oferta de serviços especializados. Apesar dos avanços, esses modelos ainda enfrentam limitações jurídicas e administrativas, especialmente na contratação e gestão de recursos.

Além disso, é necessário repensar o modelo de financiamento. Atualmente, grande parte dos recursos federais é repassada por produção (como AIH e APAC), o que pode estimular distorções. Especialistas defendem a ampliação de modelos per capita, que incentivem a eficiência e a gestão local baseada nas necessidades reais da população.

A rede de urgência e emergência também exige revisão. A expansão das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) nos últimos anos ampliou o acesso, mas não resolveu a sobrecarga estrutural. Em muitos casos, essas unidades passaram a funcionar como porta de entrada principal, reforçando um modelo medicalizante e pouco integrado com a APS.

Politicamente, qualquer mudança nesse cenário exige articulação entre os três níveis de governo — União, estados e municípios — conforme o pacto federativo estabelecido na Constituição de 1988. Não se trata de reconstruir o sistema, mas de aperfeiçoá-lo com base em evidências, gestão eficiente e soluções regionais.

O Brasil já demonstrou capacidade de inovar em saúde pública. O desafio agora é reconhecer a demanda como elemento central do sistema e enfrentá-la com inteligência, planejamento e compromisso político. O futuro do SUS depende menos de sua reinvenção e mais da coragem de corrigir seus caminhos.


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