Lula e PT, PT e Lula – O fim está próximo?

 

A história do Partido dos Trabalhadores se confunde com a de Luiz Inácio Lula da Silva, mas essa simbiose, que já foi seu maior trunfo, começa a revelar fragilidades estruturais difíceis de ignorar. Ao longo de mais de quatro décadas, o partido construiu capital político relevante, especialmente a partir dos governos iniciados em 2003. No entanto, os dados mais recentes do cenário político brasileiro indicam que essa força já não se traduz automaticamente em hegemonia eleitoral.

Um dos sinais mais evidentes dessa mudança está no Congresso Nacional. Nas eleições de 2022, o PT elegeu 68 deputados federais, enquanto o Partido Liberal, legenda associada a Jair Bolsonaro, alcançou 99 cadeiras — a maior bancada da Câmara. Em um sistema político altamente fragmentado, esse dado não é apenas numérico: ele traduz capacidade de influência, controle de agenda e poder de barganha.

Além disso, o bloco de partidos de centro e direita — incluindo siglas como União Brasil, PP, Republicanos, PSD e MDB — forma uma maioria consistente no Legislativo. Isso impõe limites concretos à ação de qualquer governo petista e expõe uma dificuldade recorrente: a incapacidade de converter vitórias presidenciais em maioria parlamentar estável.

Outro ponto crítico está na erosão da base social tradicional do partido. Pesquisas de opinião recentes, como as realizadas por AtlasIntel e Datafolha ao longo de 2024 e 2025, mostram um cenário de empate técnico — ou até inversão — na preferência partidária entre PT e PL. Historicamente dominante nesse indicador, o partido de Lula passou a disputar espaço em condições muito mais equilibradas.

Essa mudança não é trivial. Ela reflete uma transformação no comportamento do eleitorado, especialmente entre os mais jovens e nas camadas de menor renda — segmentos que, por décadas, foram considerados o núcleo duro do petismo. O avanço da direita nesses grupos está associado a fatores como a expansão das redes sociais, o crescimento das igrejas evangélicas e a disseminação de discursos antipolítica e antissistema.

O fenômeno não ocorre no vazio. Desde a Operação Lava Jato, passando pelo impeachment de Dilma Rousseff, até a polarização acentuada a partir de 2018, o PT deixou de ser visto por parte expressiva da população como agente exclusivo de mudança social e passou a ser associado também às falhas do sistema político que ajudou a governar.

Internamente, o partido também mudou — e nem sempre para melhor. A estrutura que antes privilegiava debate ideológico e participação das bases deu lugar a um modelo mais centralizado, pragmático e dependente de decisões de cúpula. A influência direta de Lula segue determinante, mas essa centralidade cobra um preço: a dificuldade de renovação de lideranças com densidade eleitoral própria.

A indicação de Fernando Haddad em 2018 e sua performance nas urnas evidenciaram esse problema. Embora tenha chegado ao segundo turno, Haddad não conseguiu replicar o desempenho histórico de Lula, sendo derrotado por Bolsonaro com cerca de 55% dos votos válidos contra 45%, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral.

Olhando para 2026, o cenário é ainda mais desafiador. Lula, já em idade avançada para os padrões da política, pode não repetir o mesmo nível de competitividade — seja por desgaste natural, seja por limitações físicas ou estratégicas. E, sem ele como candidato, o PT enfrenta uma pergunta incômoda: quem tem capacidade real de manter o partido competitivo em uma eleição presidencial altamente polarizada?

A possibilidade de derrota não é apenas teórica. Ela se apoia em fatores objetivos: um Congresso adverso, uma base social menos fiel, concorrentes fortalecidos e um ambiente político em que a rejeição ao partido permanece elevada em parcelas significativas do eleitorado.

Isso não significa um colapso imediato do PT, mas aponta para um risco concreto de retração. Sem uma estratégia clara de renovação, reconexão com suas bases e adaptação ao novo ecossistema político e digital, o partido pode entrar em um ciclo de perda gradual de relevância.

A eleição de 2026, portanto, tende a ser mais do que uma disputa pelo poder. Será um teste decisivo sobre a capacidade do PT de existir para além de Lula — e de provar que ainda consegue dialogar com um Brasil que mudou profundamente nas últimas duas décadas.


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