Imagine viver uma vida dupla. Em uma delas, você é um profissional estagnado em subempregos, solitário e invisível para o mundo. Na outra, você é um herói aclamado, um líder brilhante ou o protagonista de um romance arrebatador. Para milhões de pessoas, essa linha entre a realidade e a fantasia não é apenas tênue — ela é uma armadilha.
O fenômeno, conhecido na psicologia como Devaneio Excessivo (ou Maladaptive Daydreaming), afeta uma parcela significativa da população mundial, mas permanece amplamente negligenciado pelos manuais de diagnóstico tradicionais.
O Cinema Interno Que Não Desliga
A jornada para compreender essa condição frequentemente começa de forma lúdica. Foi o que aconteceu com João (nome fictício), um jovem que decidiu relatar sua intensa vida imaginativa ao psiquiatra e pesquisador americano Colin Ross. João descreveu sonhos acordados tão vívidos e imersivos que o faziam chorar ou rir alto no meio do quarto. Mais do que isso: ele sentia que tinha o controle de entrar e sair dessas histórias quando quisesse.
Surpreso com a capacidade de absorção e os "dons atléticos" da mente do jovem, Ross chegou a sugerir que ele considerasse uma carreira na atuação. João gostou do elogio, mas a realidade por trás desse "dom" esconde um paradoxo perigoso: o que acontece quando você perde a chave para desligar esse cinema interno?
"O problema surge quando a pessoa não domina mais a fantasia e a fantasia começa a dominar a pessoa", explica o professor emérito de psicologia clínica Eli Somer, da Universidade de Haifa, em Israel, que cunhou o termo maladaptive daydreaming e pesquisa o tema há mais de duas décadas.
Em casos extremos, indivíduos chegam a passar até 12 horas por dia imersos em narrativas paralelas. Não são pensamentos passageiros; são roteiros complexos com personagens profundos que se desenrolam e evoluem ao longo de décadas na mente do praticante.
A Anatomia do Sonho: Onde Termina a Normalidade?
Sonhar acordado, por si só, é uma atividade biológica e mental saudável. Estimativas científicas baseadas em questionários estruturados indicam que quase todo mundo passa por isso:
30% a 50% de toda a nossa atividade mental diária é gasta em pensamentos que não têm relação direta com o que estamos fazendo no momento.
Em níveis saudáveis, o devaneio auxilia na regulação emocional, empatia, criatividade e na redução do tédio.
O divisor de águas entre o saudável e o patológico é a compulsão. De acordo com o Dr. Colin Ross, o devaneio excessivo atinge entre 2% e 4% da população adulta mundial. A condição funciona de forma muito similar a um vício químico ou comportamental.
O Ciclo Vicioso do Isolamento
Cerca de 80% dos portadores incorporam gestos físicos inconscientes para manter a concentração no transe imaginativo, como balançar o corpo ou manipular objetos repetidamente.
Histórias Reais: O Custo de uma Vida de Fantasia
A experiência de Thiago Borcherds ilustra o impacto crônico da condição. Ele se lembra de criar mundos inteiros na sua cabeça desde os quatro anos de idade. O hábito intensificou-se na infância, quando mudou de escola e sofreu bullying das outras crianças por conta de seu sotaque. A mente de Thiago construiu um "lugar seguro" onde ninguém o machucava e todos o amavam.
Na idade adulta, a válvula de escape cobrou o seu preço no ambiente corporativo.
"Eu não tinha motivação", relembra Thiago. "Por que eu investiria tempo e energia para tentar ser promovido no trabalho, se podia ter o mesmo na minha imaginação, instantaneamente e sem esforço, com 95% da satisfação da realidade? Eu ainda estava fazendo trabalhos de nível básico quando tinha mais de 40 anos, porque nunca havia tentado crescer."
A psicóloga clínica Wanda Fischera, diretora de pesquisa da Sociedade Internacional de Devaneio Excessivo, valida esse raciocínio: "Imagine o seu programa de TV favorito, mas com você como protagonista. Como você consegue desistir daquilo, se a sua vida atual é menos estimulante?". As fantasias preenchem necessidades emocionais urgentes de conexão, sucesso e aceitação, mascarando dores profundas sob uma capa de heroísmo mental.
As Raízes Psicológicas e a Neurodiversidade
O devaneio excessivo raramente caminha sozinho. A ciência médica aponta fortes conexões e sobreposições com outras condições clínicas e traços de neurodiversidade:
Traumas de Infância: Negligência, abusos emocionais e problemas de apego seguro funcionam como os principais estopins. O sonho é uma estratégia de sobrevivência para evitar memórias dolorosas.
Transtorno do Espectro Autista (TEA): Em um estudo realizado com 235 adultos diagnosticados com TEA, 43% dos participantes relataram experiências severas de devaneio excessivo, correlacionadas à solidão e dificuldades de regulação emocional.
TDAH e TOC: O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade compartilha a barreira da distração (embora o devaneio excessivo seja focado em uma narrativa estruturada, e não no caos de pensamentos). Já o Transtorno Obsessivo-Compulsivo compartilha a intrusividade e a dificuldade extrema de interromper o comportamento.
Caminhos para o Diagnóstico e Tratamento
Por não estar formalmente listado no DSM (Manual Estatístico e de Diagnóstico de Transtornos Mentais) nem na CID (Classificação Internacional de Doenças), o devaneio excessivo ainda carece de um protocolo de tratamento padrão universalizado. No entanto, abordagens psicoterápicas direcionadas têm demonstrado alto índice de sucesso.
Segundo o Dr. Eli Somer, o objetivo do tratamento não é assassinar a imaginação do paciente, mas sim devolver a ele o poder de escolha, flexibilidade e controle sobre a própria mente, permitindo que a criatividade sirva à vida real, em vez de substituí-la.
Estratégias Práticas de Autocontrole
Para quem percebe que a imaginação está cruzando a linha do saudável, a recomendação da Sociedade Internacional de Devaneio Excessivo envolve técnicas de modificação comportamental:
Rastreamento de Tempo: Manter um diário rigoroso registrando os horários de início e término dos devaneios para mensurar o impacto diário.
Análise de Gatilhos: Identificar o que dispara o transe. Se a música estimula o sonho acordado, substituí-la por podcasts informativos ou audiolivros.
Ancoragem e Mindfulness: Praticar meditação de atenção plena para treinar o cérebro a permanecer no momento presente. Consumir conteúdos de formato longo (como livros físicos) ajuda a reverter a busca por picos rápidos de dopamina.
Canalização Criativa: Transformar o enredo mental em matéria-prima real. Muitos pacientes encontram a cura ou o controle ao começarem a escrever contos, roteiros ou desenhar suas fantasias.
Thiago Borcherds, hoje na casa dos 40 anos, conseguiu ressignificar sua relação com a própria mente após um período de tratamento focado na depressão. Atualmente, ele atua como moderador de uma comunidade no Reddit voltada ao tema, que recebe cerca de 18 mil visitantes semanais em busca de acolhimento.
"Ter histórias na sua cabeça não é o problema", conclui Thiago. "A questão é ficar viciado nelas. E quase ninguém consegue fazer essa distinção sozinho."
