20 Anos Depois - Como O Twitter Sobreviveu À Metamorfose Radical de Elon Musk - Jornalismo e Cultura

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16/07/26

20 Anos Depois - Como O Twitter Sobreviveu À Metamorfose Radical de Elon Musk

 

Vinte anos após o envio do primeiro "tweet", a plataforma que outrora funcionou como a "praça pública global" transformou-se em uma arena altamente imprevisível e sem mediação tradicional. A aquisição de Elon Musk em 2022 por US$ 44 bilhões redefiniu completamente os rumos da rede social X, inaugurando uma era de desregulamentação intencional, erosão de filtros éticos e ampliação de audiência sob a lógica da polarização lucrativa.

A substituição do icônico pássaro azul pela frieza geométrica da marca "X" foi apenas a fachada estética de uma revolução muito mais profunda e agressiva. Ao assumir o controle, o bilionário Elon Musk flexibilizou as normas de moderação, anistiou milhares de contas previamente banidas por discurso de ódio ou desinformação, e demitiu metade do quadro global de funcionários — incluindo as equipes críticas de segurança e triagem de conteúdo.

Para substituir o crivo humano de moderação profissional, Musk implementou as "Notas da Comunidade", um sistema de autogestão colaborativa pelos próprios usuários para apontar distorções ou mentiras. Na prática corrente, contudo, esse mecanismo tem se mostrado insuficiente para conter a torrente diária de falsidades, boatos hiperrealistas e conteúdos severamente abusivos, transformando o ecossistema digital no que analistas chamam de uma autêntica "selva de dados descontrolada".

O Negócio do Ódio e a Engenharia do Caos

Sob a ótica puramente comercial de retenção e métricas, as mudanças controversas surtiram efeito. O X ostenta hoje uma base de 585 milhões de usuários únicos mensais — uma escalada considerável frente aos 370 milhões da era pré-Musk. Contudo, relatórios independentes de monitoramento de mídia apontam que o novo algoritmo foi recalibrado sistematicamente para priorizar posts que geram reações viscerais, amplificando discursos polarizados e palcos para a extrema-direita global.

A rede se tornou, em grande medida, o megafone particular de seu proprietário. Musk utiliza sua conta pessoal para endossar teorias conspiratórias, influenciar corridas eleitorais cruciais — como o retorno de Donald Trump à Casa Branca — e atacar adversários ideológicos e judiciais pelo mundo. A única retratação pública expressiva do magnata ocorreu no início deste ano, quando a ferramenta de Inteligência Artificial generativa do X, o Grok, foi configurada para barrar a criação de montagens pornográficas hiperrealistas (deepfakes) de figuras públicas, após uma indignação global que ameaçou boicotes massivos de publicidade.

"O X transformou a polarização em uma nova categoria de entretenimento. É uma espécie de saloon do Velho Oeste americano, onde o usuário pode escolher tomar silenciosamente seu uísque atrás do pianista ou quebrar uma cadeira nas costas de alguém e entrar de cabeça na briga."

Carmela Ríos, jornalista e especialista em desinformação e mídias digitais.

Por que a Audiência se Recusa a Abandonar o X?

Diante de um cenário de crescente toxicidade, resta a pergunta de por que centenas de milhões de pessoas permanecem na rede. O primeiro grande fator é a pura inércia demográfica: a rede detém o monopólio da relevância política. Governos, diplomatas, intelectuais, corporações e partidos políticos continuam mantendo seus perfis oficiais ativos por entenderem que ali ainda se formam as narrativas dominantes da opinião pública nacional e internacional.

Em segundo lugar, a concorrência falhou em criar um ecossistema com o mesmo dinamismo jornalístico e imediatismo:

  • Threads (Meta): Embora apoiado na gigante infraestrutura de Mark Zuckerberg (com o Facebook e o Instagram beirando 3 bilhões de usuários ativos cada), o Threads optou deliberadamente por desidratar o debate político e de notícias quentes em seu algoritmo para evitar crises reputacionais.

  • Bluesky: Apesar de ter absorvido picos de exilados digitais do X, a plataforma alternativa estabilizou-se em torno de 40 milhões de usuários — um número 14 vezes menor que o gigante de Musk — enfrentando barreiras severas de escala e monetização da atenção.

A Dualidade entre a Nostalgia e a Janela para a Liberdade

Economistas de tecnologia sugerem que parte da frustração atual com a rede decorre de uma idealização utópica do passado da internet. Conforme argumenta Ekaitz Cancela, economista do grupo Tecnopolítica da Universitat Oberta de Catalunya, o antigo Twitter nunca foi um paraíso inteiramente democrático: já convivia com o assédio, a aceleração psicológica e baseava seu modelo de negócios na monetização de dados privados dos usuários. O que resta hoje, em suas palavras, é "uma grande dose de nostalgia".

Por outro lado, o próprio afrouxamento regulatório do X gera um subproduto inesperado e positivo em regimes autoritários. Em regiões com severa repressão estatal ou controle governamental estrito sobre a imprensa tradicional, o X permanece como uma das poucas portas abertas de comunicação não filtrada. Acadêmicos, ativistas e civis em cenários de conflitos bélicos extremos continuam utilizando a plataforma para escoar relatos em tempo real e documentar violações de direitos humanos que seriam imediatamente censuradas em outros canais controlados.

No fim, o X consolida-se em seu vigésimo aniversário como uma ferramenta híbrida e profundamente contraditória: ao mesmo tempo em que se sustenta como uma máquina de fabricação de boatos e palco para polemistas profissionais, preserva o DNA insubstituível do jornalismo em tempo real e a infraestrutura indispensável da conversação política mundial.