Levantamento inédito do Datafolha revela que as sobretaxas comerciais aplicadas por Washington dividem o eleitorado, reacendem a disputa de narrativas e impõem desafios estratégicos tanto ao Palácio do Planalto quanto à oposição.
A sobretaxa comercial imposta pelo governo de Donald Trump às exportações brasileiras ultrapassou os limites da diplomacia econômica e se consolida como um dos vetores centrais do debate político eleitoral no Brasil. Segundo pesquisa do instituto Datafolha registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o código BR-01166/2026, 52% do eleitorado brasileiro acredita que o "tarifaço" norte-americano tem como finalidade auxiliar a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.
No levantamento, 37% dos entrevistados descartam a tese de socorro político vindo de Washington, enquanto 11% dizem não saber avaliar.
A percepção sobre o papel do governo republicano varia acentuadamente de acordo com o espectro político do eleitor:
Entre os eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a convicção de que a medida visa favorecer o adversário atinge 73%.
Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro (PL), 29% admitem crer na hipótese de favorecimento norte-americano, enquanto a maioria rejeita essa leitura.
Ao todo, 63% dos ouvidos afirmam estar familiarizados com o tema, dos quais 25% se dizem muito bem informados e 34% razoavelmente informados. O levantamento foi realizado nos dias 22 e 23 deste mês, com 2.004 pessoas de mais de 16 anos em todo o país. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Disputa de Narrativas e Atribuição de Responsabilidade
O tarifaço reacendeu o embate de visões sobre a imagem internacional e a soberania do país. Diante dos discursos conflitantes apresentados pelos líderes políticos:
34% dos eleitores consideram que Lula está correto ao afirmar que a culpa pelas sanções é do rival e de sua articulação nos EUA.
26% avaliam que Flávio Bolsonaro acerta ao argumentar que a punição decorre de falhas e incompetência do governo brasileiro.
24% declaram que nenhum dos dois está certo.
11% entendem que ambos têm razão parcial.
6% não souberam responder.
Quando a questão recai diretamente sobre a responsabilidade principal pelas sanções comerciais:
35% apontam o presidente Lula como o principal responsável pela existência da punição.
28% atribuem a culpa ao presidente dos EUA, Donald Trump.
23% somados responsabilizam a família Bolsonaro — sendo 13% direcionados a Flávio Bolsonaro e 10% ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
10% não souberam responder.
A Escalada das Alíquotas e o Rótulo "Tariflávio"
O histórico das sanções revela um intrincado jogo de pressões políticas e comerciais:
A primeira rodada de sanções (50%): Foi articulada nos EUA por Eduardo Bolsonaro (PL-SP), deputado cassado e refugiado no país norte-americano. Na ocasião, Trump citou abertamente a iminente prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro — condenado a 27 anos e 3 meses de reclusão por tentativa de golpe de Estado — para justificar a sobretaxa e as sanções contra autoridades brasileiras. Aquela primeira etapa acabou revertida após o governo Lula lançar uma ofensiva diplomática e de apelo à soberania nacional.
A nova sobretaxa (25%): Aplicada no último dia 15, com lista de exceções, sob a justificativa de apurar supostas "práticas comerciais desleais" do Brasil — incluindo questionamentos norte-americanos ao sistema instantâneo de pagamentos Pix.
O acréscimo recente (+12,5%): Anunciado na última quarta-feira (22), sob a alegação de apuração de abusos trabalhistas em setores produtivos nacionais.
Diante do surgimento do apelido depreciativo "Tariflávio" nas redes sociais e do temor de desgaste político com o setor produtivo, o senador Flávio Bolsonaro tentou se desvincular do atual tarifaço. O pré-candidato do PL chegou a comparecer a uma audiência sobre o tema nos EUA e enviou uma carta oficial ao governo americano argumentando que as sanções beneficiavam o discurso de Lula. Contudo, a movimentação foi considerada contraproducente por analistas, já que o pleito não foi atendido e as tarifas foram mantidas.
Pragmatismo Econômico: 74% do Eleitorado Rejeita Retaliação
Apesar da forte polarização que marca a política nacional, os dados do Datafolha apontam que a maioria da população prefere uma saída moderada e negociada para o conflito comercial:
74% defendem que o Brasil deve negociar uma solução com os EUA, rejeitando contra-ataques comerciais.
17% acreditam que o país deve retaliar item por item — medida que já foi descartada pelo vice-presidente e principal negociador do governo, Geraldo Alckmin.
2% avaliam que o país deve aceitar passivamente o tarifaço.
Em relação ao desempenho da gestão federal no gerenciamento da crise:
51% avaliam que Lula fez menos do que poderia para resolver o problema.
29% sustentam que o presidente agiu corretamente.
12% consideram que ele fez mais do que devia.
O Cenário Eleitoral para a Presidência
Mesmo em meio ao conturbado ambiente econômico e diplomático, a pesquisa mostra estabilidade no quadro de intenções de voto para a eleição presidencial:
Primeiro Turno: Lula lidera a disputa com 40% das intenções de voto, contra 32% de Flávio Bolsonaro.
Segundo Turno: Na projeção de confronto direto, Lula vence por 48% a 43%.
Ficha Técnica da Pesquisa
Instituto responsável: Datafolha
Período de campo: 22 e 23 de julho de 2026
Amostra: 2.004 entrevistas com brasileiros de 16 anos ou mais
Margem de erro: 2 pontos percentuais para mais ou para menos
Registro no TSE: BR-01166/2026
