O Ladrão de Páginas do Império - Como o Manuscrito mais Valioso da Conquista da América foi Despedaçado e Parou na Califórnia - Jornalismo e Cultura

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15/07/26

O Ladrão de Páginas do Império - Como o Manuscrito mais Valioso da Conquista da América foi Despedaçado e Parou na Califórnia

 

Há exatamente um século, as salas da prestigiada Real Academia de História (RAH), em Madri, testemunharam um crime silencioso que desfalcaria para sempre o patrimônio cultural hispânico. Alguém com livre acesso às galerias e munido de uma lâmina afiada mutilou um dos maiores tesouros bibliográficos do Ocidente: o manuscrito original da “Historia general y natural de las Indias”. Mais de 150 páginas foram cirurgicamente arrancadas, enviadas em segredo para um antiquário em Londres e, por fim, adquiridas a peso de ouro pelo magnata ferroviário norte-americano Henry E. Huntington (1850-1927). O crime histórico, ocultado pelo tempo, veio à tona após uma minuciosa investigação do jornalista e historiador Ramón Jiménez Fraile, publicada no boletim da Sociedade Geográfica Espanhola (SGE).

O autor da obra ultrajada não era um cronista comum. Gonzalo Fernández de Oviedo (1478-1557) foi nomeado pelo imperador Carlos V, em 1532, como o primeiro cronista oficial das Índias. Testemunha ocular de eventos fundamentais da história mundial — como a rendição muçulmana de Granada diante dos Reis Católicos e o retorno triunfal de Cristóvão Colombo após sua primeira viagem transoceânica —, Oviedo viveu uma trajetória fascinante. Em 1514, cruzou o Atlântico pela primeira vez, transformando-se no primeiro europeu a catalogar, com profundo afã científico e realismo, a fauna, a flora e a organização social do Novo Continente. “Irão nus os meus versos de abundância de palavras artificiais [...], mas serão muito copiosos de verdade”, escreveu o cronista.

A Obsessão Botânica de um Magnata

As motivações por trás do roubo bilionário apontam diretamente para o poder financeiro sem limites da era industrial norte-americana. Henry E. Huntington — primo de Archer M. Huntington, o célebre fundador da Hispanic Society de Nova York — não buscava apenas a exclusividade de um manuscrito raro. Sua verdadeira fixação residia na botânica. Dono de uma fortuna colossal oriunda da expansão das ferrovias e dos bondes nos Estados Unidos, Huntington construía em Pasadena, na Califórnia, um monumental jardim botânico privado, que hoje se estende por quase 500 mil metros quadrados.

Para o bilionário, o valor da crônica de Oviedo estava nas descrições pioneiras feitas pelo naturalista espanhol, que séculos mais tarde seriam elogiadas pelo ilustre cientista Alexander von Humboldt. Oviedo encantou-se pela natureza americana, registrando de próprio punho ilustrações detalhadas de plantas medicinais, árvores majestosas e frutos tropicais até então desconhecidos no Velho Mundo, como a piña (abacaxi), que ele imortalizou como "a melhor fruta do mundo". O desejo de possuir fisicamente esses primeiros registros botânicos da América foi a força motriz que selou o destino do códice madrilenho.

Impasse Jurídico e o Silêncio da Instituição

A Real Academia de História de Madri, guardiã original da relíquia — doada à instituição em 1850 pelo cronista Luis de Salazar y Castro —, admitiu oficialmente o desfalque, embora o mistério sobre a identidade do executor permaneça. “A Academia é consciente do que aconteceu. Sabe-se perfeitamente que alguém arrancou as folhas”, confirmaram fontes internas da instituição espanhola. As mesmas fontes revelam que a suspeita histórica recai sobre algum funcionário interno do próprio palácio da Academia na época, e não sobre os acadêmicos. Embora a RAH tenha cogitado, em diferentes ocasiões, abrir processos de litígio internacional para reaver as folhas roubadas, os custos astronômicos de uma batalha jurídica contra uma das fundações mais ricas dos Estados Unidos inviabilizaram qualquer tentativa.

O rastro documental do crime revela as engrenagens do comércio de antiguidades do início do século XX. O lote espoliado foi registrado como comprado pela Biblioteca Huntington em 25 de fevereiro de 1926, junto à famosa casa de antiquários Maggs, em Londres — conhecida no mercado por transações bizarras, como a revenda do pênis de Napoleão, e por atender clientes como o rei Alfonso XIII. Confrontada pela investigação recente, a atual administração da Maggs afirmou não encontrar o registro específico em seus catálogos de 1925 e 1926, levantando a forte hipótese de que a venda tenha sido feita por canais diretos e confidenciais ao magnata.

O Mistério da Nau Victoria: A Pista Casual

A descoberta do roubo centenário ocorreu por puro acaso científico. Jiménez Fraile investigava o paradeiro da nao Victoria, a única embarcação que sobreviveu à lendária primeira circum-navegação da Terra (1519-1522), iniciada por Fernão de Magalhães e concluída por Juan Sebastián Elcano. Na tese canônica da história naval, baseada na edição impressa da obra de Oviedo feita no século XIX por José Amador de los Ríos, a Victoria havia naufragado após retornar ao serviço ativo.

No entanto, uma anotação anônima marginal na cópia preservada indicava que, em 1580, a mítica embarcação encontrava-se, na verdade, despedaçada e encalhada nos estaleiros (atarazanas) de Sevilha. Ao tentar consultar o manuscrito original na RAH para analisar a caligrafia e a tinta daquela anotação com os próprios olhos, o investigador recebeu uma resposta desoladora por e-mail: “Ditos manuscritos estão mais que dizimados e boa parte deles não está sequer em nossos fundos”. A própria Academia espanhola reconheceu que utiliza uma cópia em microfilme fornecida pela Biblioteca Huntington da Califórnia, detentora dos originais roubados.

Duas Visões do Novo Mundo

A obra de Oviedo não é apenas um monumento à biologia, mas um espelho das contradições éticas do Império Espanhol. Diferente das edições modernas — como a publicada em 2023 pela Fundação José Antonio de Castro, que se baseia no exemplar impresso de 1535 da Biblioteca Nacional da Espanha —, o manuscrito original dilacerado contém anotações que revelam a evolução ideológica do cronista. Conhecido por sua ferrenha e pública rivalidade com Frei Bartolomé de las Casas (o grande defensor dos povos originários, que chegou a rotular Oviedo de “temerário, falso, desumano e hipócrita”), o cronista começou sua carreira descrevendo os indígenas sob a ótica da demonização imperial. Contudo, com o passar dos anos na colônia, seus escritos tardios mostram remorso ao lamentar abertamente o extermínio dos nativos na ilha de La Española (atual República Dominicana e Haiti), embora poupasse a Coroa de culpa direta.

Hoje, as páginas que contam essa transformação e que guardam o brilho azul-celeste dos peixes-voadores descritos pelo cronista permanecem trancadas em Pasadena. A direção da Biblioteca Huntington confirmou que o acesso aos fragmentos do códice de Oviedo é restrito exclusivamente a pesquisadores com título de doutorado, mantendo o tesouro sob uma redoma acadêmica e geográfica, longe do solo onde foi escrito e da instituição de onde foi arrancado ilegalmente em uma época de "vale-tudo" para o espolio internacional.

Ficha Técnica da Relíquia Espoliada

  • Obra: Historia general y natural de las Indias (Manuscrito Original)

  • Autor: Gonzalo Fernández de Oviedo (Primeiro Cronista Oficial de Índias)

  • Data da Doação à RAH: 1850, por Luis de Salazar y Castro

  • Período Estimado do Roubo: Entre 1855 (Edição de Amador de los Ríos) e 1925

  • Volume do Saque: Mais de 150 páginas com ilustrações botânicas coloridas à mão

  • Localização Atual: Huntington Library, Pasadena, Califórnia (Adquirido formalmente em 25/02/1926)