Como 'A Revolução dos Bichos' Sobreviveu à Censura e à Espionagem para Virar um Clássico Mundial - Jornalismo de Opinião

Breaking

13/08/26

Como 'A Revolução dos Bichos' Sobreviveu à Censura e à Espionagem para Virar um Clássico Mundial

 

Em 20 de maio de 1937, às cinco da manhã, no front de Aragão, o escritor britânico George Orwell levou um tiro no pescoço enquanto lutava ao lado das milícias espanholas contra o fascismo de Francisco Franco. A bala raspou sua artéria e reduziu sua voz a um fio. Orwell descreveu a sensação como estar no centro de uma explosão. No entanto, o verdadeiro pesadelo político e ideológico ainda estava por vir.

Poucas semanas após sobreviver ao ferimento, a milícia na qual servia — o POUM (Partido Operário de Unificação Marxista) — foi declarada ilegal por ordens vindas diretamente de Moscou. Seus líderes foram perseguidos e executados; entre eles, Andreu Nin, torturado até a morte, e Bob Smillie, amigo de Orwell de apenas 22 anos, morto na prisão sob relatos de ter sido espancado até a morte. Caçado pelo próprio grupo que fora defender, Orwell e sua esposa, Eileen O'Shaughnessy, viram-se obrigados a dormir em ruínas e esconder-se por dias. Em 23 de junho de 1937, o casal conseguiu cruzar a fronteira para a França com mandados de prisão emitidos sob a acusação de "trotskismo".

A experiência revelou a Orwell a engrenagem da pós-verdade: ele fora à Espanha combater a extrema-direita e voltava fugindo da violência e das purgas da extrema-esquerda, lendo nos jornais britânicos narrativas inteiramente distorcidas e opostas à realidade que presenciara com os próprios olhos. Essa ferida profunda tornou-se o berço conceitual de sua obra-prima.

A Inspiração da Aldeia e o Dactiloscrito Salvo das Cinzas

Anos mais tarde, morando em uma pequena aldeia, Orwell presenciou uma cena marcante que acendeu a ideia central de sua fábula: viu um menino de cerca de dez anos guiando um gigantesco cavalo de carroça por uma trilha estreita, chicoteando o animal sempre que este tentava desviar. O escritor refletiu: se aquele cavalo soubesse da força e do tamanho que tem, o garoto não teria a menor chance. Ali nascia o ponto de vista de A Revolução dos Bichos (Animal Farm).

Entre novembro de 1943 e fevereiro de 1944, Orwell escreveu os 30 mil vocábulos do livro com o sub-título "Uma História de Fadas". Na trama, os animais expulsam o dono bêbado, tomam a fazenda e gravam no celeiro os sete mandamentos da igualdade — sendo o primeiro: "Todos os animais são iguais". O viés trágico se consolida quando os porcos aprendem a ler e percebem que "quem controla a parede controla o passado". Os mandamentos passam a ser alterados sorrateiramente durante a madrugada, e a população da fazenda, duvidando da própria memória, aceita as manipulações explicadas pelos porcos no poder. Orwell compreendeu antes de todos: a ferramenta central do totalitarismo não é apenas a violência física, mas a capacidade de fazer a população duvidar do que viu.

Contudo, publicar o manuscrito em 1944 revelou-se uma batalha épica. A União Soviética era, na época, aliada estratégica da Inglaterra contra a Alemanha de Hitler, e Josef Stalin aparecia nos jornais britânicos retratado como um "velho simpático" que ganhava a guerra. Um livro apontando que aquele regime havia traído a própria revolução era considerado politicamente inconveniente.

A jornada de rejeição foi árdua. Quatro editoras recusaram a publicação. Em 28 de junho de 1944, uma bomba voadora alemã (V-1) destruiu o apartamento de Orwell em Londres. O autor retornou aos escombros com uma pá e um carrinho de mão, vasculhando o entulho por horas até encontrar seu dactiloscrito amassado e sujo, mas com o texto intacto. Ele o entregou à editora no dia seguinte, acompanhado de um bilhete explicando o atraso.

Duas semanas depois, veio nova recusa. O influente poeta T. S. Eliot, então diretor da conceituada editora Faber & Faber, elogiou a prosa do livro, mas justificou a negação com ironia: alegou que "os porcos de Orwell eram claramente os mais inteligentes e qualificados para dirigir a fazenda, faltando talvez não menos comunismo, mas sim porcos com mais espírito público". Eliot lera uma crítica às elites e acabou concordando com a própria elite da história.

A quarta editora consultada chegou a aceitar o livro, mas recuou após consultar um funcionário do Ministério da Informação britânico (especificamente da Seção Soviética). Décadas mais tarde, arquivos desclassificados da KGB revelaram que aquele funcionário era o agente duplo soviético Peter Smollett (codinome ABO), recrutado por Kim Philby. Ou seja: uma das maiores obras contra a censura do século XX foi censurada na Inglaterra a mando de um espião a serviço de Stalin, operando dentro do próprio órgão que serviu de inspiração para o "Ministério da Verdade" no livro 1984.

Da Celebração à Manipulação dos Dois Lados

O livro finalmente chegou às livrarias em 17 de agosto de 1945 pela editora Secker & Warburg, quando a Segunda Guerra Mundial já havia terminado. Orwell escreveu um prefácio contundente sobre a autocensura dos intelectuais britânicos, intitulado "A Liberdade de Imprensa", no qual denunciava como o conformismo calava a crítica. Esse ensaio permaneceu censurado por quase três décadas, sendo publicado somente em 1972.

A saga de manipulações em torno do livro continuou mesmo após o lançamento:

  • 1947: Uma tradução para o ucraniano foi organizada por e para refugiados que fugiam do regime de Stalin. Orwell escreveu um prefácio exclusivo e financiou do próprio bolso a impressão. Porém, cerca de 1.500 exemplares foram apreendidos pelas autoridades militares americanas na Alemanha ocupada e entregues à administração soviética, que os destruiu.

  • Anos da Guerra Fria: A própria CIA financiou secretamente uma versão em animação do livro, alterando o final original para transformar a obra em ferramenta de sua própria propaganda geopolítica.

Orwell, que dedicou a vida a combater quem deforma histórias para fins políticos, teve sua obra manipulada por ambos os lados do espectro ideológico.

George Orwell faleceu de tuberculose em 1950, aos 46 anos — cinco anos após a morte de sua esposa Eileen e sem ter a dimensão de que seu texto se tornaria uma das obras mais lidas da história da humanidade.

A lição deixada por ele não envelhece: o perigo autoritário não começa quando alguém mente para a sociedade; ele se consolida quando as pessoas aceitam que a mentira tornou-se conveniente demais para ser contestada. Foi exatamente isso que as quatro editoras fizeram nos anos 1940 — e é exatamente esse o alerta eterno que ressoa nas páginas de A Revolução dos Bichos.