A perigosa combinação de inflação persistente de alimentos, juros elevados de 14% e endividamento recorde estrangula o orçamento e escancara a fragilidade do tecido social do país.
Nunca o orçamento das famílias brasileiras esteve tão estrangulado. De cada R$ 100 que entram nos lares do país, sobram pouco mais de R$ 20 para consumo livre, cultura ou poupança. A maior parte da renda é consumida antes mesmo de o mês terminar, engolida por uma engrenagem perversa: a inflação resistente dos itens mais básicos e o custo exorbitante para honrar dívidas passadas.
Segundo levantamento histórico da consultoria Tendências — realizado desde 2011 —, a margem livre das famílias ficou em 21,7% (R$ 21,70 a cada R$ 100) no dado mais recente de maio. O número flerta com o fundo do poço atingido no início do ano (janeiro e fevereiro), quando a margem despencou para 21%, o resultado mais baixo de toda a série histórica.
Quando se excluem os pagamentos de empréstimos e financiamentos, a renda disponível para despesas essenciais (como alimentação, moradia, transporte e remédios) atinge 41,64%. Na prática, o pagamento do serviço das dívidas consome quase a metade do que restaria após a sobrevivência básica.
Choques Internacionais, Frete e Clima
O cenário econômico sofreu uma forte deterioração geopolítica e climática. A alta expressiva do petróleo no mercado internacional reverberou nos custos logísticos, elevando o preço dos fretes, dos combustíveis e dos bens industriais em geral. Como consequência, as projeções do mercado financeiro para a inflação oficial (IPCA) subiram drasticamente: o que começou o ano estimado em 4,31% na Pesquisa Focus saltou para 5,03%.
Para piorar a trajetória dos preços, o fator climático desponta como uma nova ameaça concreta sobre o campo. A perspectiva de um fenômeno El Niño de forte intensidade deve castigar safras e lavouras cruciais, sobretudo na Região Sul do país.
"O El Niño vai afetar a produção de alguns alimentos e culturas importantes. Isso pressionará os preços tanto no encerramento deste ano quanto no início do próximo. Qualquer variação de 0,1 ponto percentual na renda disponível acaba afetando profundamente a dinâmica do orçamento familiar"
— Isabela Tavares, analista da consultoria Tendências.
O Terror do Supermercado: Comida Consome Renda Vital
O local onde a perda do poder de compra se manifesta de forma mais dolorosa e visível é a prateleira do supermercado. Pesquisa recente da empresa de ciência de dados Dunnhumby, realizada com 10 mil consumidores, revela que o brasileiro desembolsa, em média, R$ 1.073,98 por mês no supermercado.
Para o economista Alexandre Bertoncello, consultor financeiro da Bella Investimentos, é no supermercado que a perda do poder aquisitivo machuca psicologicamente, por focar nos itens vitais do cotidiano.
Contudo, a verdadeira gravidade do número reside no seu impacto relativo:
Classes de Alta Renda (Classe A): Quem recebe mais de 10 salários mínimos administra o custo fixo de R$ 1.000 sem comprometer a estabilidade financeira.
Média Geral dos Trabalhadores: Com uma renda média nacional que não ultrapassa R$ 3.000, o supermercado consome mais de um terço do salário.
Base da Pirâmide Socioeconômica: Retirando-se a Classe A do cálculo, a renda per capita do brasileiro cai para cerca de R$ 2.400. Nesses lares, alimentar a família consome mais de 40% de toda a renda mensal.
O quadro é agravado pelo fato de a inflação de alimentos e bebidas crescer acima da média geral dos preços (enquanto o IPCA-15 registrava 3,51%, o grupo de alimentos avançava 4,37%). Como a alimentação é inadiável, a população é forçada a cortar gastos ou se endividar.
A Armadilha do Cartão e a Taxa Selic em 14%
Sem espaço no orçamento, milhares de brasileiros recorreram a uma prática altamente arriscada: o parcelamento de compras de supermercado no cartão de crédito. Economistas alertam que utilizar crédito rotativo ou parcelado para custear despesas correntes de subsistência cria uma bola de neve incontrolável.
Com a taxa básica de juros (Selic) mantida no elevado patamar de 14% ao ano — mesmo com acenos de pequenos cortes pelo Comitê de Política Monetária (Copom) para 13,75% —, os juros do cartão atinge níveis extorsivos. As dívidas acumuladas retiram ainda mais renda futura, anulando qualquer capacidade de consumo de bens duráveis ou investimento. Não por acaso, a Intenção de Consumo das Famílias (ICF), apurada pela FecomercioSP, acumula sucessivas quedas.
Inadimplência Recorde e Medidas de Curto Prazo
O reflexo dessa crise combinada traduz-se em números estarrecedores levantados pela Serasa: o Brasil atingiu a marca recorde de 83,7 milhões de inadimplentes, somando um montante de R$ 579 bilhões em dívidas atrasadas. A maior parcela dessas pendências está concentrada em bancos e cartões de crédito (27,3%), seguida de perto por contas básicas do dia a dia, como água e luz (21,3%).
"Supermercado e contas recorrentes já concentram 57% do orçamento mensal das famílias brasileiras. Quando as despesas essenciais ocupam mais da metade do salário, sobra pouca ou nenhuma margem para absorver imprevistos"
— Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira.
No campo político e social, a vulnerabilidade financeira das famílias virou a grande pauta eleitoral. Para tentar aliviar o aperto, o governo prorrogou o programa Desenrola, que já contabiliza 3,6 milhões de operações destinadas às famílias.
Apesar do alívio pontual, especialistas apontam que essas medidas tratam os sintomas, mas não a causa. "O Desenrola tem um impacto de curto prazo. Ele alivia, mas não resolve o problema estrutural de endividamento e inadimplência" ressalta Anna Carolina Gouveia, economista do FGV Ibre.
Quem Apresenta Melhora?
Segundo os dados do FGV Ibre, por ora apenas as famílias na base da pirâmide (renda até R$ 2,1 mil) apresentaram melhora no índice de situação financeira, que avançou 13,1 pontos para 91,5 pontos desde o fim do ano passado. Essa evolução é explicada pela resiliência do mercado de trabalho, reajuste do salário mínimo, ampliação da isenção do Imposto de Renda e efeito direto das renegociações de dívidas. Para as demais faixas de renda, o indicador segue estagnado em níveis baixos (entre 60 e 70 pontos).
Em suma, a perda de poder aquisitivo do brasileiro resulta do choque simultâneo da inflação de itens básicos com os juros altos que sugam a renda. O descompasso entre custos fixos e salários escancara a crescente fragilidade do tecido socioeconômico brasileiro.
