Endividamento Recorde - Nunca na História Deste país o Povo ficou Tão Sem Dinheiro - Jornalismo de Opinião

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10/08/26

Endividamento Recorde - Nunca na História Deste país o Povo ficou Tão Sem Dinheiro

 

A perigosa combinação de inflação persistente de alimentos, juros elevados de 14% e endividamento recorde estrangula o orçamento e escancara a fragilidade do tecido social do país.

Nunca o orçamento das famílias brasileiras esteve tão estrangulado. De cada R$ 100 que entram nos lares do país, sobram pouco mais de R$ 20 para consumo livre, cultura ou poupança. A maior parte da renda é consumida antes mesmo de o mês terminar, engolida por uma engrenagem perversa: a inflação resistente dos itens mais básicos e o custo exorbitante para honrar dívidas passadas.

Segundo levantamento histórico da consultoria Tendências — realizado desde 2011 —, a margem livre das famílias ficou em 21,7% (R$ 21,70 a cada R$ 100) no dado mais recente de maio. O número flerta com o fundo do poço atingido no início do ano (janeiro e fevereiro), quando a margem despencou para 21%, o resultado mais baixo de toda a série histórica.

Quando se excluem os pagamentos de empréstimos e financiamentos, a renda disponível para despesas essenciais (como alimentação, moradia, transporte e remédios) atinge 41,64%. Na prática, o pagamento do serviço das dívidas consome quase a metade do que restaria após a sobrevivência básica.

Choques Internacionais, Frete e Clima

O cenário econômico sofreu uma forte deterioração geopolítica e climática. A alta expressiva do petróleo no mercado internacional reverberou nos custos logísticos, elevando o preço dos fretes, dos combustíveis e dos bens industriais em geral. Como consequência, as projeções do mercado financeiro para a inflação oficial (IPCA) subiram drasticamente: o que começou o ano estimado em 4,31% na Pesquisa Focus saltou para 5,03%.

Para piorar a trajetória dos preços, o fator climático desponta como uma nova ameaça concreta sobre o campo. A perspectiva de um fenômeno El Niño de forte intensidade deve castigar safras e lavouras cruciais, sobretudo na Região Sul do país.

"O El Niño vai afetar a produção de alguns alimentos e culturas importantes. Isso pressionará os preços tanto no encerramento deste ano quanto no início do próximo. Qualquer variação de 0,1 ponto percentual na renda disponível acaba afetando profundamente a dinâmica do orçamento familiar"

Isabela Tavares, analista da consultoria Tendências.

O Terror do Supermercado: Comida Consome Renda Vital

O local onde a perda do poder de compra se manifesta de forma mais dolorosa e visível é a prateleira do supermercado. Pesquisa recente da empresa de ciência de dados Dunnhumby, realizada com 10 mil consumidores, revela que o brasileiro desembolsa, em média, R$ 1.073,98 por mês no supermercado.

Para o economista Alexandre Bertoncello, consultor financeiro da Bella Investimentos, é no supermercado que a perda do poder aquisitivo machuca psicologicamente, por focar nos itens vitais do cotidiano.

Contudo, a verdadeira gravidade do número reside no seu impacto relativo:

  • Classes de Alta Renda (Classe A): Quem recebe mais de 10 salários mínimos administra o custo fixo de R$ 1.000 sem comprometer a estabilidade financeira.

  • Média Geral dos Trabalhadores: Com uma renda média nacional que não ultrapassa R$ 3.000, o supermercado consome mais de um terço do salário.

  • Base da Pirâmide Socioeconômica: Retirando-se a Classe A do cálculo, a renda per capita do brasileiro cai para cerca de R$ 2.400. Nesses lares, alimentar a família consome mais de 40% de toda a renda mensal.

O quadro é agravado pelo fato de a inflação de alimentos e bebidas crescer acima da média geral dos preços (enquanto o IPCA-15 registrava 3,51%, o grupo de alimentos avançava 4,37%). Como a alimentação é inadiável, a população é forçada a cortar gastos ou se endividar.

A Armadilha do Cartão e a Taxa Selic em 14%

Sem espaço no orçamento, milhares de brasileiros recorreram a uma prática altamente arriscada: o parcelamento de compras de supermercado no cartão de crédito. Economistas alertam que utilizar crédito rotativo ou parcelado para custear despesas correntes de subsistência cria uma bola de neve incontrolável.

Com a taxa básica de juros (Selic) mantida no elevado patamar de 14% ao ano — mesmo com acenos de pequenos cortes pelo Comitê de Política Monetária (Copom) para 13,75% —, os juros do cartão atinge níveis extorsivos. As dívidas acumuladas retiram ainda mais renda futura, anulando qualquer capacidade de consumo de bens duráveis ou investimento. Não por acaso, a Intenção de Consumo das Famílias (ICF), apurada pela FecomercioSP, acumula sucessivas quedas.

Inadimplência Recorde e Medidas de Curto Prazo

O reflexo dessa crise combinada traduz-se em números estarrecedores levantados pela Serasa: o Brasil atingiu a marca recorde de 83,7 milhões de inadimplentes, somando um montante de R$ 579 bilhões em dívidas atrasadas. A maior parcela dessas pendências está concentrada em bancos e cartões de crédito (27,3%), seguida de perto por contas básicas do dia a dia, como água e luz (21,3%).

"Supermercado e contas recorrentes já concentram 57% do orçamento mensal das famílias brasileiras. Quando as despesas essenciais ocupam mais da metade do salário, sobra pouca ou nenhuma margem para absorver imprevistos"

Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira.

No campo político e social, a vulnerabilidade financeira das famílias virou a grande pauta eleitoral. Para tentar aliviar o aperto, o governo prorrogou o programa Desenrola, que já contabiliza 3,6 milhões de operações destinadas às famílias.

Apesar do alívio pontual, especialistas apontam que essas medidas tratam os sintomas, mas não a causa. "O Desenrola tem um impacto de curto prazo. Ele alivia, mas não resolve o problema estrutural de endividamento e inadimplência" ressalta Anna Carolina Gouveia, economista do FGV Ibre.

Quem Apresenta Melhora?

Segundo os dados do FGV Ibre, por ora apenas as famílias na base da pirâmide (renda até R$ 2,1 mil) apresentaram melhora no índice de situação financeira, que avançou 13,1 pontos para 91,5 pontos desde o fim do ano passado. Essa evolução é explicada pela resiliência do mercado de trabalho, reajuste do salário mínimo, ampliação da isenção do Imposto de Renda e efeito direto das renegociações de dívidas. Para as demais faixas de renda, o indicador segue estagnado em níveis baixos (entre 60 e 70 pontos).

Em suma, a perda de poder aquisitivo do brasileiro resulta do choque simultâneo da inflação de itens básicos com os juros altos que sugam a renda. O descompasso entre custos fixos e salários escancara a crescente fragilidade do tecido socioeconômico brasileiro.