A História Milenar da Homossexualidade e a Invenção Moderna da Doutrina da Anormalidade - Jornalismo de Opinião

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20/09/26

A História Milenar da Homossexualidade e a Invenção Moderna da Doutrina da Anormalidade

 

Na contemporaneidade, a afetividade e a sexualidade humanas são frequentemente enquadradas em gavetas identitárias rígidas. Termos como "heterossexual" e "homossexual" são empregados com a premissa implícita de que representam divisões universais e atemporais da experiência humana. Contudo, historiadores, sociólogos e antropólogos convergem num ponto fundamental: projetar essas definições sobre o passado pré-moderno constitui um profundo anacronismo conceitual.

A própria palavra homossexual possui uma certidão de nascimento recente: foi inventada em 1869 pelo escritor e jornalista austro-húngaro Karl-Maria Kertbeny, no âmbito dos debates jurídicos sobre o Código Penal Prussiano. Antes desse marco do século XIX, as grandes civilizações do planeta não organizavam a sociedade dividindo pessoas por sua orientação sexual. O afeto e o desejo entre pessoas do mesmo sexo existiam abertamente, integrados aos ritos religiosos, às dinâmicas militares, à literatura e à política.

1. O Registro Mais Antigo: O Egito dos Faraós

A viagem no tempo nos conduz ao Egito Antigo, por volta de 2400 a.C. (V Dinastia Faraônica). Na necrópole de Saqqara, próxima a Mênfis, a tumba dos altos oficiais palacianos Niankhkhnum e Khnumhotep revela um dos retratos afetivos mais antigos documentados pela arqueologia.

Nas paredes da câmara funerária, os dois homens aparecem abraçados, com os rostos próximos e os narizes tocando-se — o gesto icônico denominado sn-sn, reservado na iconografia egípcia para expressar a intimidade conjugal e a união em vida e no além. O sepultamento compartilhado, dotado de todas as honras de estado reservadas aos casais legítimos da elite, demonstra a naturalidade com que o vínculo era assimilado pela corte do faraó Niuserre.

2. A Grécia Clássica: Pedagogia, Filosofia e o Exército Imbatível

Na Grécia dos séculos VI a IV a.C., a afetividade homoafetiva não era apenas tolerada, mas desempenhava papéis centrais na formação cívica, militar e poética.

  • O Batalhão Sagrado de Tebas (378 a.C.): Criado pelo general Górgidas, o batalhão representava a tropa de elite da infantaria tebana. Era constituído rigorosamente por 300 soldados organizados em 150 casais. A estratégia fundamentava-se na ética do amor: nenhum guerreiro recuaria ou agiria com covardia na presença do seu companheiro, lutando com ferocidade para protegê-lo. Por quase quatro décadas, a tropa permaneceu invicta, até tombar na Batalha de Queroneia (338 a.C.) diante das forças de Filipe II da Macedônia e de seu filho, Alexandre, o Grande. Relatos históricos de Plutarco indicam que o próprio rei Filipe chorou sobre os corpos dos casais tebanos caídos lado a lado, proibindo qualquer manifestação de desrespeito à sua memória.

  • Lirismo e Mito: Na Ilha de Lesbos, a poetisa Safo (século VI a.C.) compôs versos imortais dedicados ao amor entre mulheres. Sua figura e sua terra natal imortalizaram os vocábulos "lésbica" e "sáfico". No campo filosófico, a obra O Banquete, de Platão, expõe o mito das "metades da laranja", no qual as almas humanas foram divididas pelos deuses; o texto aborda as metades compostas por dois homens ou duas mulheres com exatamente a mesma dignidade e naturalidade das metades heterossexuais.

3. A Lógica de Poder em Roma e a Delicadeza Imperial na China

No ápice da Antiguidade, dois impérios continentais administravam a afetividade sob perspectivas singulares:

  • Roma e o Imperador Adriano: Na República e no Império Romano, a moralidade não julgava o sexo do parceiro, mas a posição hierárquica. O cidadão livre (civus) preservava sua honra mantendo o papel dominante na relação. Um dos episódios mais célebres envolveu o imperador Adriano (117–138 d.C.) e o jovem grego Antínoo. Após a morte prematura de Antínoo por afogamento no Rio Nilo, Adriano o deificou, fundou a cidade de Antinoópolis em sua homenagem e espalhou estátuas do companheiro por todo o território romano — centenas das quais preservadas em museus ao redor do mundo.

  • A China da Dinastia Han e a "Manga Cortada": Do outro lado do globo, a corte chinesa cunhou uma das expressões poéticas mais elegantes para tratar o amor entre homens: duanxiu ("a paixão da manga cortada"). A narrativa retrata o imperador Ai de Han (20 a.C. – 1 a.C.) que, ao acordar e perceber que seu companheiro Dong Xian dormia sobre a manga de seu traje imperial, preferiu cortar o tecido com uma faca a interromper o sono do amado. A metáfora passou a integrar a literatura erudita chinesa como símbolo de respeito e delicadeza afetiva.

4. A Virada Dogmática e o Erro do Diagnóstico Médico

Com o declínio dos impérios antigos, a consolidação do Cristianismo no Ocidente e as reformas jurídicas do Código de Justiniano (século VI d.C.), as práticas homoafetivas foram progressivamente criminalizadas e enquadradas na categoria teológica de pecado e delito grave.

No século XIX, o avanço da medicina positivista substituiu as fogueiras da Inquisição pelo estigma clínico. A partir da criação dos termos por Kertbeny em 1869, vertentes da psiquiatria europeia passaram a encarar a atração pelo mesmo sexo como um transtorno psiquiátrico ou uma patologia neurológica passível de "cura" ou internação. Pela primeira vez na história humana, a diversidade do afeto foi reduzida a um diagnóstico de doença.

5. A Retificação Científica e o Consenso Contemporâneo

A desconstrução da tese patológica levou mais de um século e exigiu avanços científicos pautados em evidências empíricas e isentas de dogmas morais. Pesquisas desenvolvidas na segunda metade do século XX por nomes como Evelyn Hooker e Alfred Kinsey comprovaram que a orientação sexual não apresenta qualquer vínculo com psicopatologias, degeneração mental ou incapacidade cívica.

  1. 1973 — Associação Americana de Psiquiatria (APA): Removeu oficialmente a homossexualidade da lista de transtornos mentais do Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM-II).

  2. 1990 — Organização Mundial da Saúde (OMS): Em 17 de maio de 1990, a Assembleia Geral da OMS retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), ratificando formalmente que a atração pelo mesmo sexo representa uma variação natural e saudável da sexualidade humana.

Conclusão: Uma Breve Interrupção na História

Ao analisar a linha do tempo global — da pintura sepulcral de Saqqara às legiões de Tebas, dos versos de Lesbos aos palácios de Roma e Chang'an —, a historiografia revela que a marginalização e a patologização da homoafetividade constituíram um parêntese recente e exíguo de pouco mais de um século diante de milênios de convivência natural. O veredito da ciência moderna nada mais fez do que reencontrar e chancelar o que as grandes civilizações antigas já reconheciam: o amor e a busca pelo outro pertencem, em todas as suas formas, à essência da condição humana.

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