Documentos recém liberados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) lançaram luz sobre os bastidores financeiros de "Dark Horse", projeto cinematográfico sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. A quebra de sigilo, determinada pelo ministro Edson Fachin a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), revelou uma engrenagem orçamentária que tem causado perplexidade tanto na Polícia Federal quanto em especialistas do mercado audiovisual. No centro da trama, estão cifras dignas de grandes estúdios de Hollywood, promessas de bilheteria fora da realidade brasileira e uma forte pressão política por repasses milionários.
O relatório da Polícia Federal aponta para um grave descompasso entre os valores apresentados na planilha do filme e a realidade do mercado de cinema. O projeto pedia um financiamento total de US$ 24 milhões (cerca de R$ 123 milhões) ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Desse montante, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou que pelo menos US$ 12,3 milhões (R$ 63 milhões) foram efetivamente repassados. A disparidade acendeu um alerta para os investigadores, que ressaltaram a necessidade de aprofundar a apuração sobre a real destinação desses recursos.
O Cachê de Ouro: Um Paralelo com Hollywood
Um dos pontos mais contundentes do inquérito é o cachê destinado ao protagonista da obra. O ator americano Jim Caviezel — conhecido por interpretar Jesus em "A Paixão de Cristo" (2004) e estrela recente do nicho conservador com "O Som da Liberdade" (2023) — receberia US$ 4 milhões (cerca de R$ 20,48 milhões) para dar vida a Jair Bolsonaro. Na planilha, os pagamentos foram camuflados sob as rubricas de "talento principal parte 1" e "parte 2".
Para fins educativos e de compreensão de mercado, o valor é considerado exorbitante por especialistas da indústria cinematográfica. Uma cifra de US$ 4 milhões é exatamente o que Robert Downey Jr., um dos rostos mais rentáveis do mundo, recebeu para coestrelar "Oppenheimer", um sucesso global que beirou a marca de US$ 1 bilhão em bilheteria. Joaquin Phoenix, para viver o protagonista em "Coringa" (2019), recebeu US$ 4,5 milhões. A diferença é que personagens como o criador da bomba atômica ou o vilão do Batman possuem apelo mundial histórico, enquanto a figura do ex-presidente brasileiro tem um interesse de mercado quase que estritamente local.
Projeções de Bilheteria Fora da Realidade
A falta de lastro com a realidade se estende ao plano de negócios apresentado ao banqueiro Vorcaro. Os produtores projetaram uma bilheteria que variava de US$ 45 milhões, no cenário pessimista, a US$ 100 milhões, no panorama otimista.
Os dados chocam quando colocados em perspectiva. O maior sucesso da história do cinema brasileiro, a comédia "Minha Mãe É uma Peça 3", arrecadou cerca de US$ 35 milhões na cotação atual. Ou seja, mesmo no pior cenário projetado por "Dark Horse", o filme de Bolsonaro teria que superar, com folga, o recorde absoluto do cinema nacional.
No cenário otimista de US$ 100 milhões, o filme precisaria ter um desempenho global semelhante ao de "Rivais" (2024), estrelado por Zendaya, uma das atrizes mais populares do mundo na atualidade, e distribuído por um dos maiores estúdios de Hollywood. A título de comparação direta com o universo político, o filme "O Aprendiz", cinebiografia recente sobre a ascensão de Donald Trump, custou US$ 16 milhões e arrecadou apenas US$ 17,3 milhões mundialmente.
Orçamento Invertido e a Defesa do Diretor
A divisão dos custos de produção também foge à regra de qualquer manual básico de cinema. Profissionais da área destacam que, em média, 50% do orçamento de um longa-metragem vai para as filmagens. Na planilha de "Dark Horse", apenas 13,9% foi destinado às gravações. Em contrapartida, 34,7% foi alocado para a pós-produção — uma distorção grave para uma obra biográfica que não exige efeitos visuais de ficção científica.
O diretor do filme, Cyrus Nowrasteh, tentou justificar os números alegando que os custos incluíam campanhas de marketing, diferentemente dos orçamentos de produção divulgados nos EUA. A Polícia Federal, no entanto, foi elucidativa ao constatar o contrário: na planilha entregue a Vorcaro, não existe absolutamente nenhuma menção a despesas de distribuição e marketing, rubrica que, via de regra, consumiria pelo menos 30% de um orçamento real.
A Engrenagem Política por Trás das Câmeras
Para além da contabilidade questionável, o inquérito escancara a articulação política nos bastidores do financiamento. Áudios interceptados pela Polícia Federal mostram o senador Flávio Bolsonaro (PL) cobrando incisivamente o banqueiro Daniel Vorcaro pelos pagamentos em setembro e outubro de 2025.
Nas mensagens, Flávio demonstrava urgência, afirmando que a produção estava "no limite" e temendo a inadimplência com o ator Jim Caviezel e com o diretor. O senador chegou a convidar o banqueiro para um jantar com os artistas, demonstrando envolvimento direto na captação dos recursos que agora estão sob o escrutínio da mais alta corte do país.
O caso de "Dark Horse" deixa de ser apenas sobre cinema e se torna um caso de polícia. A ausência de viabilidade econômica atestada por dados mercadológicos reforça a tese da investigação de que a obra pode ter sido utilizada para encobrir operações financeiras cujos verdadeiros propósitos o STF e a Polícia Federal agora buscam elucidar.

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