Pesquisa coloca Flávio Bolsonaro numericamente à frente, mas margem de erro mantém disputa tecnicamente empatada. O resultado reacende uma questão incômoda para o petismo: por que o discurso de defesa dos trabalhadores não se converte em uma vantagem eleitoral confortável?
A menos de 48 horas do segundo turno das eleições presidenciais, o Partido dos Trabalhadores chega à reta final diante de um cenário que contraria as expectativas de uma campanha que busca renovar o mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. A nova pesquisa Real Time Big Data, divulgada nesta sexta-feira, 23 de outubro, aponta o senador Flávio Bolsonaro, do PL, com 52% dos votos válidos, contra 48% do atual presidente. A diferença numérica é de quatro pontos percentuais, mas, com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos, os candidatos permanecem tecnicamente empatados.
O resultado não representa uma confirmação da vitória de Flávio, tampouco permite declarar Lula derrotado antes da abertura das urnas. Ainda assim, o quadro expõe a dificuldade do presidente em transformar a força de sua trajetória política e o discurso de proteção social em uma vantagem segura no momento decisivo da campanha.
A eleição se aproxima do fim, e a margem para corrigir erros de comunicação, recuperar eleitores indecisos e convencer quem ainda rejeita os dois candidatos torna-se cada vez menor.
A pesquisa que mantém o alerta ligado no PT
O levantamento ouviu 2.000 eleitores entre os dias 19 e 22 de outubro, tem nível de confiança de 95% e margem de erro de dois pontos percentuais. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-09670/2026.
Além dos votos válidos, os números sobre o total de intenções de voto ajudam a compreender o cenário. Nesse recorte, Flávio aparece com 49%, enquanto Lula registra 45%. Votos brancos e nulos somam 5%, e 1% dos entrevistados não soube responder ou preferiu não declarar sua escolha. Na pesquisa espontânea, quando os nomes dos candidatos não são apresentados aos entrevistados, Flávio aparece com 48% e Lula com 44%.
Outro indicador merece atenção. Quando questionados sobre em qual candidato não votariam, 36% dos entrevistados apontaram Lula, diante de 33% que indicaram Flávio. Os dois resultados também devem ser interpretados considerando a margem de erro, sem transformar diferenças numéricas em certezas estatísticas.
Os dados indicam uma disputa apertada e um desafio político concreto para o presidente. Na reta final, a campanha petista ainda precisa convencer uma parcela do eleitorado que não demonstra adesão suficiente para produzir uma vantagem clara nas pesquisas.
A cautela, entretanto, é indispensável. A pesquisa é uma fotografia das intenções de voto durante o período das entrevistas, não uma previsão infalível do resultado das urnas.
Outras pesquisas impedem conclusões precipitadas
A leitura do cenário eleitoral exige observar também os levantamentos de outros institutos. Pesquisa Vox Brasil divulgada nesta sexta-feira apontou Lula com 50,6% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro com 49,4%. Já o Datafolha, em levantamento divulgado na quinta-feira, registrou empate de 50% para cada candidato nos votos válidos.
Os números mostram que não existe consenso absoluto entre as pesquisas sobre quem terminará a eleição na frente. Os levantamentos citados indicam uma disputa dentro da margem de erro, embora apresentem diferenças na posição numérica dos candidatos.
O dado politicamente relevante é que Lula, atual presidente e principal referência eleitoral do PT, chega à fase final sem apresentar uma vantagem estatisticamente consolidada nos levantamentos mencionados. Para uma campanha que procura convencer o eleitorado de que merece continuar no poder, essa situação aumenta a pressão sobre a estratégia eleitoral e sobre a capacidade de comunicação do governo.
O chamado desespero petista deve ser entendido como uma interpretação do ambiente político, e não como algo comprovado pelas estatísticas. Pesquisas medem intenções de voto, rejeição e outras respostas dos entrevistados. Elas não medem diretamente o estado emocional de dirigentes, militantes ou integrantes de uma campanha.
Isso não elimina o problema político. Uma disputa tão apertada, a dois dias da votação, obriga a campanha governista a enfrentar uma realidade que não pode ser resolvida apenas com declarações de confiança ou discursos sobre a importância histórica do partido.
A distância entre o discurso social e a vida real
Há uma questão mais profunda por trás dos números: a dificuldade de transformar uma identidade política historicamente associada aos trabalhadores em uma conexão eleitoral capaz de atravessar diferentes grupos sociais.
Durante décadas, o PT construiu parte importante de sua identidade a partir da representação sindical, das reivindicações trabalhistas e da defesa de políticas públicas voltadas à população de menor renda. Essa trajetória continua fazendo parte da história do partido. Entretanto, a origem social de uma organização política não garante, por si só, a fidelidade permanente de quem vive do próprio trabalho.
É nesse ponto que entra a discussão sobre consciência de classe.
Ter consciência de classe significa compreender as condições econômicas e sociais que influenciam a própria vida, como os salários, as relações de trabalho, o custo de moradia, o acesso a serviços públicos e a distribuição das oportunidades. Isso não obriga ninguém a votar automaticamente em um partido específico. Trabalhadores podem compartilhar dificuldades econômicas e, ainda assim, defender soluções políticas diferentes.
O equívoco de qualquer projeto político que reivindique a representação exclusiva dos mais pobres é imaginar que essa identidade histórica será suficiente para determinar o comportamento eleitoral. O trabalhador não deixa de ser trabalhador quando discorda de Lula, assim como não se torna automaticamente representante dos interesses patronais ao optar por outro candidato.
O voto também é uma avaliação concreta da vida cotidiana.
Para quem recebe um salário e precisa organizar as despesas de casa, as decisões políticas estão ligadas a questões como alimentação, aluguel, transporte, saúde, educação, endividamento e segurança. O trabalhador quer saber quanto consegue comprar, quanto sobra no fim do mês, quais oportunidades existem para seus filhos e se terá condições de planejar o futuro.
Uma campanha que apresenta indicadores econômicos positivos, programas sociais ou promessas de continuidade precisa explicar como esses elementos se refletem na experiência diária da população. Caso contrário, abre espaço para uma distância entre aquilo que o governo afirma entregar e aquilo que o cidadão percebe em sua própria realidade.
Esse é um dos pontos mais delicados para o PT. A defesa dos mais pobres constitui parte central de sua identidade, mas a identificação simbólica não substitui a necessidade de demonstrar resultados compreensíveis, enfrentar críticas e apresentar respostas convincentes para problemas concretos.
Quando a comunicação política perde força
A dificuldade de comunicação aparece quando uma campanha acredita que repetir suas principais bandeiras será suficiente para reconquistar quem demonstra hesitação ou insatisfação. Em uma eleição polarizada, falar apenas para quem já está convencido pode produzir mobilização entre os apoiadores, mas não necessariamente amplia o alcance da candidatura.
A tarefa mais difícil é conversar com o eleitor que reconhece conquistas de governos anteriores, mas cobra resultados atuais; com aquele que depende de serviços públicos, mas reclama de sua qualidade; e com quem pode concordar com determinadas políticas sociais sem aceitar todas as decisões do governo.
Essas posições não são contraditórias. Um cidadão pode defender a existência de programas de transferência de renda e, ao mesmo tempo, criticar a condução da economia. Pode reconhecer a importância do Sistema Único de Saúde e continuar insatisfeito com o atendimento recebido. Pode valorizar direitos trabalhistas e discordar da maneira como o governo se comunica.
Reduzir toda crítica a desinformação, preconceito ou manipulação de adversários seria um erro estratégico. A insatisfação também pode nascer de experiências concretas, expectativas frustradas e prioridades que não estão sendo atendidas.
A comunicação eleitoral eficaz exige reconhecer essa complexidade, responder a perguntas difíceis e apresentar propostas de maneira direta. O eleitor precisa compreender o que foi feito, quais problemas persistem, o que será alterado e de que maneira as promessas poderão ser executadas.
Quando a mensagem política não consegue estabelecer essa ligação, a campanha corre o risco de falar sobre a população sem conseguir conversar efetivamente com ela.
A reta final não permite confundir narrativa com realidade
A pressão sobre Lula também revela os limites de qualquer estratégia baseada na ideia de que sua trajetória política, sua experiência presidencial ou a memória de governos anteriores seriam suficientes para assegurar uma vitória confortável.
Esses elementos podem influenciar o voto, assim como a avaliação do governo atual, a rejeição aos candidatos, as propostas apresentadas e a disposição do eleitorado para aceitar uma mudança. Nenhum fator isolado explica a decisão de milhões de brasileiros.
Flávio Bolsonaro também enfrenta resistência de parte do eleitorado, como mostram os indicadores de rejeição divulgados pelos institutos. Por isso, o cenário não deve ser interpretado como uma transferência automática de votos em favor do senador nem como uma autorização popular antecipada para seu programa político.
O que a fotografia eleitoral demonstra é mais restrito, porém relevante: a disputa permanece aberta, e a campanha de Lula não dispõe de uma margem confortável que permita tratar a vitória como algo assegurado.
Faltando menos de dois dias para a votação, o PT enfrenta a necessidade de explicar por que seu discurso social não produziu uma vantagem mais clara nas pesquisas. A resposta não está em presumir que o trabalhador deixou de compreender seus próprios interesses, mas em reconhecer que ele tem autonomia para avaliar governos, comparar alternativas e decidir de acordo com suas prioridades.
A consciência de classe não pertence a um partido, e nenhuma legenda possui o direito de reivindicar para si a representação automática de uma categoria inteira da população.
No domingo, 25 de outubro, serão os votos efetivamente depositados e contabilizados que decidirão a Presidência da República. Até lá, pesquisas podem indicar tendências e revelar dificuldades, mas não substituem o resultado eleitoral.
A principal lição política desta reta final é que a confiança do eleitor não pode ser presumida. Precisa ser conquistada e renovada. Para o PT, o desafio vai além de mobilizar seus apoiadores tradicionais: é demonstrar, diante de uma sociedade dividida e de eleitores com prioridades distintas, por que seu projeto ainda merece governar o país.

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