O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que tomar Tylenol (paracetamol) durante a gravidez pode causar autismo nos filhos. A fala foi feita em uma coletiva de imprensa, mas não tem base científica. Especialistas, médicos, a OMS e órgãos reguladores europeus já vieram a público desmentir a alegação.
Essa ideia foi reforçada também por Robert F. Kennedy Jr., atual Secretário de Saúde dos EUA. Nos últimos meses, ele e Trump vêm dizendo que querem “resolver a causa do autismo”. Além do paracetamol, os dois repetiram o velho boato de que vacinas causam autismo — uma mentira baseada em um estudo fraudado, já descartado pela ciência há décadas.
Logo após o discurso, a FDA (a “Anvisa americana”) divulgou uma nota dizendo que vai incluir um alerta na bula do paracetamol sobre uma possível ligação entre o remédio e o autismo. Mas, diferente do presidente, a agência foi bem mais cuidadosa: ressaltou que não há provas de causa e efeito e que os estudos existentes ainda são inconclusivos.
O que mostram as pesquisas
De fato, existem estudos que sugerem uma possível relação entre o uso de paracetamol na gravidez e o risco de autismo ou TDAH. Mas o cenário está longe de ser definido. Outras pesquisas, maiores e mais bem feitas, não encontram nenhuma ligação.
O problema é que esse tipo de estudo é difícil de conduzir. Como o paracetamol não precisa de receita, não há registros precisos de doses e frequência de uso. Pesquisadores acabam dependendo de questionários com as mães, que podem esquecer ou até errar as informações. Isso reduz a confiabilidade dos dados.
Um exemplo recente: um grupo da Universidade de Harvard analisou 46 estudos e encontrou que 27 mostravam algum risco maior. Esse trabalho tem sido usado pelo governo americano para sustentar suas falas. Mas o próprio estudo deixa claro: existe correlação, não comprovação. Ou seja, o remédio pode não ser o responsável. Fatores como infecções ou febres durante a gravidez podem explicar a associação.
Já pesquisas mais robustas, que consideram esses fatores, não confirmam a ligação. O maior estudo até agora foi publicado em 2024 na revista JAMA. Ele avaliou quase 2,5 milhões de crianças na Suécia e, num primeiro momento, encontrou uma diferença pequena entre filhos de mães que tomaram paracetamol e os que não tomaram. Mas, ao comparar irmãos — em que uma gestação teve uso do remédio e a outra não — a diferença desapareceu. O mesmo resultado foi observado em um estudo semelhante no Japão.
Além disso, uma revisão publicada em 2024 na revista Obstetrics & Gynecology concluiu que é improvável que o paracetamol na gravidez aumente o risco de autismo.
O que causa, então, o autismo?
O autismo não é uma doença, mas uma forma diferente de funcionamento do cérebro. Ele faz parte de um espectro, com níveis variados de características.
Décadas de pesquisas mostram que a genética tem um papel central. Isso não exclui fatores ambientais, mas nenhum estudo sério até hoje conseguiu apontar um único remédio ou substância como causa.
O aumento dos diagnósticos nas últimas décadas também tem outra explicação: mais conhecimento e melhores critérios médicos. Antes, muita gente passava a vida sem diagnóstico. Hoje, a compreensão do espectro é mais ampla — a antiga Síndrome de Asperger, por exemplo, foi incorporada ao autismo.
Resumindo
Apesar do que Trump e Kennedy dizem, não há provas de que o paracetamol cause autismo. Os principais órgãos de saúde do mundo continuam recomendando cautela, mas sem alarmismo. Pesquisas sérias seguem sendo feitas, mas por enquanto, a ciência não confirma essa ligação.















