Você já parou para pensar quanto tempo passa sentado? Durante as
refeições, no trabalho, na escola, no cinema, no cabeleireiro, tomando
sol na praia, jogando cartas com os amigos... As cadeiras (e seus
descendentes fofinhos, os sofás) estão em praticamente todas as
situações do dia a dia. É impossível imaginar o mundo sem elas. Mas esse
móvel já foi considerado um item de luxo.É impossível saber exatamente quando a primeira cadeira foi criada,
mas os exemplares mais antigos são do século 7 a.C. e estão expostos em
museus do Egito - onde, acredita-se, a peça tenha sido inventada. As
primeiras cadeiras eram feitas de ébano ou marfim e pertenciam às
classes mais abastadas. Foi assim durante toda a Antiguidade. Em Roma,
por exemplo, elas costumavam ser feitas de mármore e custavam muito
caro. As classes mais baixas tinham de se contentar com banquinhos sem
encosto. Durante a Idade Média, a cadeira continuou carregando certa
mística. Mesmo nas famílias mais ricas, só o dono da casa podia se
sentar nelas. Nem os filhos do rei francês Luís XIV tinham permissão
para usar cadeiras - na presença do pai, eles só podiam se sentar em
banquinhos. Foi só depois da Revolução Industrial, no final do século
18, que esse cenário se transformou definitivamente. Surgiram novas
ferramentas e técnicas para tratar a madeira, as cadeiras deixaram de
ser feitas a mão e passaram a ser produzidas em larga escala. Ficaram
muito mais baratas, ao alcance de qualquer pessoa. Além de abaixar os preços, a tecnologia mudou o próprio formato das
cadeiras. No século 19, o austríaco Michael Thonet inventou um jeito de
entortar madeira usando vapor quente, o que permitiu a elaboração de
móveis mais delicados. "Até então, para desenhar uma curva, era preciso
usar uma serra. Além de ser mais difícil, gerava muito desperdício de
madeira", conta a desenhista industrial Teresa Ricetti, professora da
Universidade Mackenzie. Na técnica bolada por Thonet, a madeira é
deixada sobre vapor quente e amolece, o que permite mudar seu formato. O
austríaco criou modelos icônicos, que são populares até hoje. Sabe
aquela cadeira de balanço da vovó, com assento e encosto de palha? Foi
Thonet quem desenhou. Também é bem provável que você já tenha visto - ou
tenha na sua casa - o modelo nº 14, outro clássico com assento de palha
e encosto formado por apenas duas tiras de madeira arredondadas. Quem projetava uma cadeira pensava principalmente na estética e não
dava muita bola para o conforto. Ele só começou a ser levado em conta no
final do século 19, quando surgiram os primeiros modelos desenhados
para melhorar o posicionamento da coluna, evitando dores nas costas. É
nessa época que aparecem as cadeiras especialmente projetadas para uso
profissional, como acadeira de dentista, a de cabeleireiro, a de
costureira e a de escritório - que foi criada em 1896 pelo americano
Herbert Andrews e permitia ajustar a altura do assento e do encosto para
que pessoas de vários tamanhos pudessem se sentar corretamente em
frente a uma máquina de escrever. As cadeiras de escritório que usamos
hoje são descendentes diretas dela. Mas também foram muito influenciadas
por pesquisas feitas na década de 1970. Uma das primeiras cadeiras
ergonômicas foi a Ergon Chair, lançada em 1976 pela empresa americana
Herman Miller. Ela trazia uma novidade, que virou equipamento de série
em todas as cadeiras de trabalho - um compartimento de gás comprimido,
que funciona como amortecedor e ajuda na hora de regular a altura do
assento (coloque a mão embaixo da sua cadeira de trabalho, e você irá
encontrar uma alavanca que controla esse sistema). Mas, nessa mesma
época, a história de amor da humanidade com as cadeiras começou a dar os
primeiros sinais de desgaste.
Ai, minhas costas
Na década de 1970, o médico Alf Nachemson, da Universidade de
Gotëborg, na Suécia, revolucionou os estudos sobre cadeiras. Ele avaliou
nove voluntários em 26 situações diferentes (sentados, deitados,
tossindo, pulando etc.) e mediu a pressão sobre os discos da região
lombar, na parte de baixo das costas. Nachemson constatou que, quando a
pessoa está sentada, sua coluna recebe 40% mais pressão do que quando
está de pé. Ele descobriu algo que hoje parece óbvio, mas na época foi
muito surpreendente: sentar faz mal para a coluna. Quando você está de
pé, pés e pernas sustentam o peso do corpo. Mas, quando você está
sentado, a coluna e a bacia têm de fazer esse trabalho sozinhas - pois
não recebem a ajuda das pernas e dos pés, que estão relaxados. E isso
gera uma sobrecarga inevitável. Mesmo se você se sentar na melhor
cadeira do mundo e mantiver uma postura perfeita, suas costas vão
sofrer. Sem contar que é muito difícil ficar perfeitamente ereto, certinho, o
tempo todo. "As áreas mais afetadas são as regiões lombar e dorsal (das
costelas), além do pescoço", explica o ortopedista Roberto Guarniero,
do Hospital Santa Catarina, em São Paulo. Depois de algum tempo sentado,
a pessoa quase sempre adota posturas erradas sem perceber. Quem
trabalha muito tempo no computador, por exemplo, tende a jogar o corpo
para a frente e se aproximar da tela. Isso aumenta a pressão sobre os
discos vertebrais e sobrecarrega ainda mais a parte posterior da coluna,
que fará força para tentar puxar o corpo para trás e impedir que você
caia de cara na mesa. "Pode provocar dor na lombar, no pescoço e entre
as escápulas", explica o ortopedista Ivan Rocha, do Hospital das
Clínicas. As costas não são a única vítima. Uma pesquisa feita com 220 mil
pessoas pela Universidade de Sydney, na Austrália, constatou que quem
passa 11 horas por dia sentado tem 40% mais chance de morrer
(independentemente da causa) nos próximos três anos, comparado a quem
fica apenas quatro horas por dia sentado. O pior é que esse risco
aumenta mesmo se a pessoa estiver em forma e praticar atividade física.
Ou seja: em tese, não adianta ficar prostrado e depois ir à academia, ou
correr um pouquinho no parque, para compensar. Como todo estudo que
mede risco, a pesquisa australiana trabalha com probabilidades - e o
mais provável é que não aconteça nada, ou seja, você não morra nos
próximos três anos, mesmo se ficar sentado um tempão. Mas outro
levantamento, também feito por cientistas australianos, sugere que isso
pode cobrar a conta mais tarde, na velhice. Eles compararam os hábitos
de 11 mil pessoas e descobriram que quem passa 3 horas por dia sentado
vive 2 anos a menos, em média. E, se você acrescentar mais 2 horinhas no
sofá vendo TV, pior ainda: sua expectativa de vida cai mais 1,4 ano. Se você está lendo esta reportagem sentado, já deve ter começado a
sentir uma dorzinha nas costas. Aconteceu comigo depois de todas as
horas sentada, dias a fio, que passei pesquisando, fazendo entrevistas e
redigindo este texto. E minha cadeira de trabalho é terrível: tem
encosto mole e um apoio para os braços que não regula. Então decidi me
levantar e ir até as lojas procurar as melhores cadeiras à venda no
Brasil. Experimentei várias. A de que mais gostei foi a Sayl, da marca
Herman Miller. No dia em que virar chefe, vou querer uma. É
superconfortável e tem um visual descolado e moderninho, mas também
impondo certa autoridade. Adorei. Pena que eu tenha mesmo de esperar
virar chefe para ter essa oportunidade. A cadeirados meus sonhos custa a
bagatela de R$ 2.900. E, por melhor que uma cadeira seja, só poderá atenuar (nunca
eliminar) os prejuízos à saúde de ficar muito tempo sentado. Talvez a
saída seja aderir às standing desks, ou seja, em que se trabalha de pé.
Elas existem desde o século 18, mas têm ganho adeptos nos últimos anos. É
que, além de supostamente evitar os malefícios de ficar sentado,
emagrece: a cada hora trabalhando em pé, queimam-se de 20 a 50 calorias a
mais. Mas fazer isso o dia inteiro cansa e também tem seu lado ruim:
problemas circulatórios e dores nas costas. O ideal, segundo
especialistas, é mesclar as duas coisas. Se você trabalha sentado,
levante e ande um pouco a cada hora. Faz bem para o corpo - e para a
cabeça também.
Muito além da coluna
Ficar muito tempo sentado afeta as costas - mas não só
1. CORAÇÃO: Os músculos queimam menos gordura e o sangue circula mais
devagar quando sentamos. Por isso, a chance de ter pressão e colesterol
altos é maior.
2. PÂNCREAS: Nos sedentários, as células demoram mais para absorver
glicose e produzir energia. Isso força o pâncreas, que é obrigado a
produzir mais insulina, e pode levar ao desenvolvimento de diabetes. 3. PERNAS: Sofrem uma piora na circulação sanguínea. A consequência são tornozelos inchados e formação de varizes. 4. CÉREBRO: O movimento dos músculos faz com que o sangue circule,
levando oxigênio ao cérebro. Quando sentados, as funções cerebrais
diminuem. 5. COLUNA / PESCOÇO: Risco de hérnia de disco na lombar. A
musculatura na região fica tensionada, afetando o posicionamento dos
discos vertebrais. Depois de várias horas sentado, você se inclina para a
frente - causando dores no pescoço.
A postura correta
Sentar direito afasta dores e lesões por esforço repetitivo
1. COSTAS: O encosto da cadeira deve chegar até o meio da coluna. Assim,
é possível manter o desenho natural das costas e apoiá-las
corretamente.
2. BRAÇOS: É importante que a cadeira tenha um apoio para eles. Se
não tiver, apoie os antebraços e punhos na mesa. Evite digitar com os
braços "voando". 3. JOELHOS: Deixe-os paralelos, para a frente, e flexionados - o ângulo entre coxa e panturrilha deve ser de 70 a 90 graus. 4. PERNAS: Devem ficar totalmente apoiadas no assento. Para que isso
aconteça, pode ser necessário ajustar a distância do encosto. 5. PÉS: Devem ficar inteiramente apoiados no chão (não só as pontas).
Isso ajuda a redistribuir parte do peso do corpo, reduzindo a pressão
sobre a coluna.
FonteFifty chairs that changed the world. The Design Museum, Editora Conran, 2009.
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