No começo do ano, a estrela KIC 8462852 deixou muito astrônomo coçando a cabeça. Ninguém sabia explicar suas súbitas quedas de iluminação – o que geralmente indica algo passando em frente, como um planeta. Mas as dela eram muito irregulares e potentes para serem explicadas assim. Os planetas conseguem obscurecer uma estrela em até 1%. A (se permite a intimidade) KIC perde até 22% de sua luz seja lá para o que diabos está passando em frente dela. Diante dessa relevante anomalia, não faltou gente – séria, inclusive – para sugerir serem…
Agora acharam sua parceira: a EPIC 204278916,
cujo nome parece senha do Facebook de metaleiro, mas é uma estrela que
também experimenta as quedas malucas de iluminação – no caso, até de
65%, botando uma baita inveja aos ETs da KIC.
A “hipótese alien” é que haja uma superestrutura construída em volta da estrela para capturar sua energia – um anel ou esfera de Dyson,
conceito que vem de antes da Apollo 11, quando o matemático Freeman
Dyson propôs que civilizações superavançadas precisariam desse tipo de
geringonça para operar suas torradeiras superavançadas.
A gente podia parar por aqui, mas vamos
prosseguir com o gélido balde de água da razão científica. Quando o
enigma da KIC surgiu, duas hipóteses mais mundanas foram levantadas: que
uma nuvem de cometas estivesse passando em frente a ela ou que ela fosse de fato uma estrela oblóide,
com formato de bola de futebol americano, distorcida por uma rotação
muito rápida. Ambas acabaram contestadas. A primeira porque ela não
parece rodar tão rápido assim. A segunda, porque seriam precisos 648 mil cometas de 200 quilômetros de diâmetro para tapar uma estrela desse jeito.
Mas uma terceira hipótese foi lançada pelos próprios cientistas
que descobriram a EPIC. Que se trata simplesmente de um anel
protoplanetário – um monte colossal de poeira que acompanha estrelas
novinhas e um dia formará planetas. Se visto pelo ângulo certo, pode
muito bem obscurecer uma estrela – e parar de obscurecer quando sua
órbita faz com que seja visto por outro ângulo.
A EPIC é um bebê: tem no máximo 11
milhões de anos, comparados a 4,5 bilhões do Sol. A KIC havia sido
estimada em algumas centenas de milhões, o que excluiria o disco
planetário, mas há quem diga que esse número possa estar errado.
E, com isso, continuamos (oficialmente)
sem super-aliens. Pelo menos já é algo saber que existe em algum lugar
uma estrela chamada EPIC 204278916. Um riff de guitarra nervoso passa na
minha cabeça cada vez que leio seu nome.
Fábio Marton
super
