O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, depois de permanecer algum tempo submerso para distanciar-se do seu pupilo Aécio Neves que enfrenta problemas com a Justiça, reapareceu expondo toda a sua enorme dor-de-cotovelo com a liderança de Lula que, apesar do massacre midiático e da perseguição da Lava-Jato, cresce na preferência do eleitorado para voltar à Presidência da República em 2018, conforme atestam as pesquisas de intenção de votos.
Em artigo publicado no
domingo, sob o título de “Quais os rumos do país?”, FHC começa afirmando
que “quando ainda estava na Presidência, eu dizia que o Brasil
precisava ter rumos e tratava de apontá-los”. Apenas apontá-los? Ora,
com oito anos à frente dos destinos do país ele teve tempo e poderes
suficientes não apenas para apontar rumos, mas para conduzir a Nação na
direção que entendia ser a melhor. E o fez: levou o Brasil para os
braços do Tio Sam, a quem entregou algumas das nossas mais importantes
estatais, como a Vale do Rio Doce, além de nossas riquezas minerais. E
só não entregou a Petrobras e o pré-sal porque não conseguiu, apesar das
tentativas que incluíram até a mudança do nome da nossa estatal do
petróleo. O guru tucano, na verdade, foi uma espécie de marionete do
governo dos Estados Unidos, que era quem realmente governava o nosso
país através do secretário do Tesouro, Robert Rubin, e do Fundo
Monetário Internacional. Esse foi o rumo que ele apontou e imprimiu ao
Brasil.
Mais adiante diz FHC em
seu artigo que “a confusão política, o descrédito de lideranças e
partidos, se expressa na falta de rumos”. Parece piada de quem foi um
dos principais responsáveis pelo golpe que destituiu a Presidenta Dilma
Roussef e colocou Michel Temer no poder. A confusão política e o
descrédito de lideranças (inclusive a sua) e de partidos (inclusive o
seu, o PSDB) são frutos desse golpe, que vem destruindo o país e levando
o que sobra de volta para os braços de Tio Sam, de onde havia sido
retirado por Lula.
Referindo-se à política
internacional, o ex-presidente tucano afirma em seu artigo que “há
oportunidades para exercermos um papel político e há caminhos econômicos
que se abrem”. Isso é verdade, mas as oportunidades, aproveitadas por
Lula em seu governo, estreitando as relações com a Russia, a China, a
India e a África do Sul, através do BRICS, além de abrir caminhos para a
expansão dos negócios brasileiros no Continente Africano, foram
abandonadas pelo governo Temer, que ele, FHC, apoia. Ainda sobre o mesmo
tema, ele diz mais adiante que “podemos pesar no mundo sem arrogância,
reforçando as relações políticas e econômicas com nossos vizinhos e
demais parceiros latino-americanos”. Lula também fez isso, mas os
chanceleres tucanos do governo golpista, José Serra e Aloysio Nunes, com
a nova “diplomacia do porrete”, conseguiram distanciar o Brasil dos
seus vizinhos sul-americanos e, inclusive, abrir mão da liderança
natural que o nosso país sempre exerceu no Continente. Ou seja, os
correligionários de FHC fizeram exatamente o contrário do que ele agora
prega.
Ao examinar o atual
panorama eleitoral do país, o tucano-mor diz, em seu artigo, que “a
crer nas pesquisas de opinião, os políticos mais cotados para vencer as
eleições em 2018 mais parecem um repeteco do que inovação, embora haja
entre alguns que estão na rabeira das pesquisas quem possa ter posições
mais condizentes com o momento”. A sua dor-de-cotovelo é tão grande que
ele, insinuando dúvidas quanto à lisura das pesquisas, prefere não
citar o nome de Lula como líder na preferência do eleitorado, dizendo
que o ex-torneiro mecânico parece mais um “repeteco” do que uma
inovação. É óbvio que Lula pretende repetir o sucesso do seu governo,
que melhorou todos os índices e fez com que o povo o escolhesse como o
melhor Presidente que este país já teve, conforme as pesquisas. FHC,
porém, com o cotovelo latejando, diz que “alguns dos que estão à frente
ainda insistem em suas glórias passadas para que nos esqueçamos de seus
tormentos recentes”. O “alguns dos que estão à frente”, segundo a sua
expressão, é Lula e os “tormentos recentes” certamente são os processos
contra ele na Lava-Jato, que todo mundo, dentro e fora do Brasil, sabe
ser uma armação para torná-lo inelegível.
O mais surpreendente é o
fecho do artigo. Nele o ex-presidente tucano diz que “se não
organizarmos rapidamente um polo democrático (contra a direita política,
que mostra suas garras), que não insista em “utopias regressivas” (como
faz boa parte das esquerdas), que entenda que o mundo contemporâneo tem
base técnico-científica em crescimento exponencial e exige, portanto,
educação de qualidade, que seja popular, e não populista, que fale de
forma simples e direta dos assuntos da vida cotidiana das pessoas,
corremos o risco de ver no poder quem dele não sabe fazer uso ou o faz
para proveito próprio”. Dá pena ver o desespero de FHC diante do
possível retorno de Lula ao Palácio do Planalto. Falar em direita, que
“mostra as suas garras”, é falar dele próprio, que fez parte da
conspiração contra Dilma e embarcou na canoa de Temer. Ao lembrar de
quem “fale de forma simples e direta dos assuntos da vida cotidiana” ele
está justamente se referindo a Lula, que é o líder que fala a
linguagem do povo. Finalmente, ao alertar para “o risco de ver no poder
quem dele não sabe fazer uso ou o faz para proveito próprio”, FHC
debocha da inteligência do povo, que sabe exatamente o que ele fez e,
também, o que Lula fez, o que facilita a comparação. O povo, afinal,
sabe que Lula não tem fazenda, nem apartamentos em Paris, Nova York e
na capital paulista.
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Ribamar Fonseca
Brasil 247
