Dizem que tenho sorte. Olham para os meus resultados, para a velocidade com que decifro padrões ou para a profundidade da minha análise e chamam isso de "presente". Mas, do lado de dentro, a sensação é de que recebi uma ferramenta sofisticada demais para um mundo que ainda opera em bases rudimentares. Ser autista e carregar um QI elevado não é um superpoder; é viver em um estado de dissonância cognitiva constante com uma sociedade que insisto em chamar de "simplista", não por arrogância, mas por constatação.
O meu maior cansaço não vem do trabalho ou do esforço intelectual, mas da tentativa impossível de me encaixar em molduras que não foram feitas para mim. Como explicar para quem vive no automático que um atraso de dez minutos ou uma palavra não cumprida não são "detalhes", mas rupturas graves na minha ordem interna? Para o mundo simplista, a futilidade é o lubrificante social. Para mim, ela é um ruído branco ensurdecedor. O toque físico não solicitado, as conversas vazias sobre o clima, as ligações inesperadas à noite — tudo isso é sentido como uma invasão, um ataque sensorial que as pessoas ignoram porque, simplesmente, não dão a mínima importância ao que não conseguem sentir.
Minha mente é um navegador com dezenas de abas abertas, todas processando dados em alta velocidade, o tempo todo. Enquanto os outros "desligam", eu monitoro pensamentos paralelos. Não existe o relaxar absoluto. Se vejo um pôr do sol ou ouço uma música, não consigo apenas "estar" ali; eu mergulho na anatomia daquela luz, na estrutura daquela melodia. Tudo é profundo. Tudo é detalhe. E o detalhe é exaustivo.
Essa hiperpercepção traz um pessimismo que eu tento ocultar, mas que é inevitável. Quanto mais eu entendo a mecânica das coisas, mais vejo as falhas na engrenagem da humanidade. Eu enxergo as inconsistências, as hipocrisias normalizadas e o egoísmo disfarçado de costume. É solitário ver o que os outros escolhem ignorar.
Essa solidão, inclusive, é o meu paradoxo mais doloroso. Eu busco o isolamento para proteger minha mente do caos externo, do barulho que me suga a energia e da multidão que parece drenar minha alma. Mas, ao fechar a porta, o silêncio ecoa um vazio. Eu fujo de vínculos superficiais porque eles me entediam, mas sinto falta de algo que seja "de alma", algo real que resista à análise minuciosa do meu cérebro.
Para completar, convivo com um carrasco interno. Minha autoexigência é cruel. Como conheço o meu potencial, qualquer passo fora da perfeição é sentido como um fracasso retumbante. Eu sou o meu maior crítico, o juiz que nunca descansa.
No fim das contas, a combinação entre o autismo e o alto quociente de inteligência é uma maldição elegantemente disfarçada. É estar trancado em uma torre de alta definição, enxergando o mundo com uma clareza absoluta, mas sem nunca conseguir descer e caminhar entre as pessoas sem sentir que estou sendo despedaçado pelo peso da simplicidade delas.

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