Pesquisa Datafolha aponta virada inédita desde 2014; guinada à direita é sustentada por endurecimento em temas comportamentais, segurança e forte apelo do segmento evangélico, enquanto esquerda resiste na pauta econômica.
A configuração ideológica do eleitorado brasileiro registrou um movimento de inflexão histórica. Após anos de predominância de pautas progressistas ou de centro, a identificação dos brasileiros com o campo da direita voltou a superar a esquerda na matriz ideológica calculada pelo instituto Datafolha. O novo levantamento aponta que 44% dos brasileiros com 16 anos ou mais alinham-se atualmente à direita ou centro-direita, enquanto 39% situam-se à esquerda ou centro-esquerda. Outros 17% se posicionam exatamente no centro do espectro político.
A vantagem de cinco pontos percentuais da direita coloca o cenário fora da margem de erro geral da pesquisa, que é de dois pontos para mais ou para menos. O diagnóstico atual reverte o panorama observado em 2022, ano da eleição presidencial que consagrou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. Naquela ocasião, sob o governo de Jair Bolsonaro, o sentimento geral pendia para o lado oposto: a esquerda somava 49% e a direita, 34%.
Esta é a primeira vez em doze anos que a direita lidera isolada a série histórica do instituto. O último registro de liderança desse bloco ocorreu em 2014, durante a gestão de Dilma Rousseff, quando o pensamento de direita reunia 45% dos cidadãos contra 35% da esquerda. Nos anos subsequentes, marcados por forte polarização, o país registrou empates técnicos expressivos, como em 2013 (39% à direita e 41% à esquerda) e em 2017 (40% e 41%, respectivamente).
Raio-X da Divisão Ideológica Atual
Quando o espectro é fragmentado em cinco posições distintas, a distribuição do eleitorado se desenha da seguinte forma:
Direita pura: 15% (eram 9% em 2022)
Centro-direita: 29% (eram 24% em 2022)
Centro: 17% (estável em relação a 2022)
Centro-esquerda: 26% (eram 32% em 2022)
Esquerda pura: 13% (eram 17% em 2022)
Como o brasileiro pensa: A metodologia por trás dos rótulos
Para mapear a ideologia nacional, o Datafolha não faz uma pergunta direta ao entrevistado sobre como ele se autodefine. Em vez disso, o instituto adota um método educativo e empírico, cruzando as respostas de 16 perguntas sobre valores sociais, culturais, políticos e econômicos.
A matriz final é composta por dois grandes eixos com pesos iguais: o Eixo de Comportamento (com 10 perguntas envolvendo segurança, religião, criminalidade e costumes) e o Eixo de Economia (com 6 perguntas sobre tributação, mercado de trabalho e o papel do Estado).
O motor da virada: O fator comportamental
A grande transformação do eleitorado de 2022 para cá não ocorreu na economia, mas sim nos costumes. No eixo estritamente comportamental, a direita disparou para 52%, ante apenas 29% da esquerda e 20% de centro. Há quatro anos, as duas principais forças estavam tecnicamente empatadas neste quesito (39% de direita e 42% de esquerda).
O endurecimento das opiniões se reflete de forma nítida em indicadores específicos:
Visão sobre a pobreza: A parcela de brasileiros que associa a pobreza à "preguiça de pessoas que não querem trabalhar" saltou de 22% para 40%. A visão majoritária ainda é a de que falta igualdade de oportunidades, mas este índice recuou de 76% para 58%.
Armamento: O apoio ao direito de possuir uma arma legalizada cresceu de 35% para 41%, enquanto a defesa da proibição da posse caiu de 63% para 55%.
Segurança Pública: 70% dos entrevistados passam a defender que adolescentes que cometem crimes recebam punições semelhantes às de adultos, contra 65% na rodada anterior.
Diversidade: A aceitação social da homossexualidade flutuou para baixo, passando de 79% para 72%.
Economia estendida: O paradoxo do estatismo e da livre iniciativa
Se no comportamento a guinada à direita é acentuada, no bolso o brasileiro continua flertando com premissas historicamente ligadas à esquerda. No eixo econômico, as bandeiras de esquerda ainda lideram com 46% de apoio, contra 28% da direita e 26% do centro. No entanto, o eleitor demonstra uma postura híbrida e pragmática.
Por um lado, o desejo por autonomia fiscal atingiu níveis recordes: 65% afirmam que depender menos do governo melhora a vida do cidadão, e 50% preferem pagar menos impostos em troca de poder contratar serviços privados de saúde e educação (contra 44% que aceitariam mais tributos por serviços públicos gratuitos).
Por outro lado, o coração do modelo desenvolvimentista segue forte: 71% defendem que o governo deve ser o principal indutor do crescimento e investimentos do país. Além disso, as leis trabalhistas (CLT) são vistas como um escudo protetor por 56% da população, que rejeita a ideia de que elas apenas atrapalham as empresas e pede a ampliação de benefícios.
Clivagens de gênero e fé: Evangélicos na vanguarda conservadora
O estudo detalha que o pensamento político brasileiro é fortemente influenciado pelo gênero e pela religião. O eleitorado masculino é majoritariamente de direita (50% a 33%), ao passo que o público feminino mantém a esquerda na liderança (44% a 37%).
No recorte religioso, a diferença de blocos ganha contornos ainda mais nítidos:
| Segmento Religioso | Identificação com a Direita / Centro-Direita | Identificação com a Esquerda / Centro-Esquerda | Centro |
| Evangélicos | 52% | 30% | 18% |
| Católicos | 43% | 39% | 18% |
Entre os católicos, há um empate técnico se considerada a margem de erro específica de três pontos para o segmento. Já entre os evangélicos, o domínio conservador é amplo, impulsionado pelo comportamento: 61% dos evangélicos alinham-se à direita nas pautas de costumes, contra apenas 18% à esquerda. No campo econômico, esse público se divide e apresenta empate técnico (39% de pensamento de esquerda e 33% de direita, sob margem de erro de cinco pontos para o estrato).
Dados da Pesquisa
A pesquisa Datafolha foi realizada de forma presencial entre os dias 17 e 18 de junho de 2026. Foram entrevistados 2.004 eleitores de 16 anos ou mais, distribuídos por 139 municípios de todas as regiões do país. O nível de confiança do levantamento é de 95%, com margem de erro máxima geral de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. As margens de erro para os recortes populacionais (como gênero e religião) são ligeiramente maiores devido ao tamanho reduzido das subamostras.
Registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), número BR-09956/2026.
