Lulinha e a Rede de Influência no Governo - PF Mapeia Ações do Careca do INSS com ANVISA e DATAPREV - Jornalismo de Opinião

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04/08/26

Lulinha e a Rede de Influência no Governo - PF Mapeia Ações do Careca do INSS com ANVISA e DATAPREV

 

Mensagens inéditas obtidas pelos investigadores revelam tratativas para emplacar negócios na Saúde, Anvisa e Dataprev, servindo de base para novos inquéritos sobre o entorno do governo federal.

Relatórios sigilosos produzidos pela Polícia Federal no final do ano passado revelam uma teia complexa de articulações e bastidores políticos voltada à expansão de negócios privados dentro de órgãos estratégicos do governo federal. As mensagens obtidas após a quebra do sigilo telemático da lobista Roberta Luchsinger detalham conversas diretas com o empresário Antônio Camilo Antunes, conhecido como o "Careca do INSS" — investigado sob a suspeita de liderar um esquema de desvios em aposentadorias e pensões.

Os diálogos interceptados funcionaram como peça-chave para fundamentar a abertura de dois novos inquéritos pela Polícia Federal, autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O foco das apurações se concentra no eventual crime de tráfico de influência envolvendo o filho do presidente da República, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, de quem Roberta Luchsinger é amiga próxima. As investigações buscam esclarecer se a proximidade e o trânsito político do grupo foram utilizados para intermediar interesses comerciais no Ministério da Saúde e na Dataprev.

A Anatomia dos Projetos: Cannabis, Saúde e Tecnologia

As tratativas registradas nos relatórios tiveram início contínuo a partir de maio de 2025, momento posterior à deflagração da Operação Sem Desconto, na qual Antônio Camilo Antunes foi alvo principal. A ostensividade das ações policiais levou o empresário a desenhar uma estratégia defensiva para blindar suas operações comerciais, propondo a transferência formal de seus projetos para nomes de sua confiança.

Em uma extensa mensagem enviada em 8 de maio de 2025, Antunes sintetizou a Roberta Luchsinger o portfólio de empreendimentos em andamento. O plano incluía:

  • Cannabis Medicinal: Projeto para regulamentação e implantação comercial do insumo no mercado brasileiro.

  • Insumos para Saúde Pública: Atuação em favor de um laboratório químico de Goiás (Iquego) para prospecção no Ministério da Saúde, visando à venda de kits para diagnóstico de dengue e suplementos alimentares infantis.

  • Educação Financeira: Projeto voltado ao governo federal cuja gestão seria repassada ao empresário Cléber Ribas, do setor de tecnologia, para ocultar o nome de Antunes.

  • Tecnologia (Dataprev): Proposta de divisão de fatias financeiras e participação nos ativos da empresa pública de tecnologia da informação.

"Na análise das conversações entre ANTONIO CAMILO ANTUNES e ROBERTA LUCHSINGER, descortinou-se que ambos estão associados 'de fato' em diversos negócios junto ao Poder Público [...], sendo a interlocutora responsável por 'abrir portas' em órgãos públicos."

Trecho do relatório sigiloso de análise da Polícia Federal

Encontros Reservados e Intermediações Indiretas

Após o alinhamento das propostas, os diálogos mostram uma busca constante por encontros presenciais em ambientes neutros. Em 12 de maio de 2025, Roberta aceptou o convite do empresário para reuniões fora do ambiente corporativo regular. Dias depois, ao solicitar apresentações formais do projeto de educação financeira, a lobista sinalizou a interlocução com terceiros ao afirmar: "Meu amigo gostou da solução".

À medida que as apurações avançavam, o tom das comunicações mudou. Roberta passou a evitar o detalhamento dos negócios por mensagens de texto. Contudo, em 5 de setembro de 2025, Antunes voltou a detalhar avanços na área sanitária, mencionando tentativas de aproximação com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e articulações junto a diretores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A Polícia Federal identificou ainda que Roberta Luchsinger frequentou órgãos federais mais de 40 vezes entre 2023 e 2025 sem o devido registro público nas agendas oficiais. O histórico inclui reuniões na Secretaria das Relações Institucionais e entradas no Ministério da Saúde acompanhada do próprio "Careca do INSS".

Desdobramentos na Anvisa e Citações Autoridades

Nos registros, o empresário citou acesso ao ex-diretor da Anvisa Rômison Mota — que proferiu voto favorável em consulta pública sobre cannabis — e a Leandro Safatle, aprovado para a presidência da agência em agosto de 2025. Registros fotográficos apreendidos indicam reuniões no Senado no gabinete do senador Weverton Rocha (PDT-MA), embora os envolvidos neguem qualquer irregularidade ou concessão de vantagens indevidas.

Contraditórios e Posicionamentos Oficiais

Parte CitadaPosição Oficial / Manifestação
Defesa de Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha)Afirma que ele não tem relação direta ou indireta com os negócios de Roberta. Classificou a investigação como "pesca probatória" e destacou que a abertura de frentes paralelas prova a ausência de vínculo com desvios no INSS. Confirmou viagem a Portugal em 2024 bancada por Antunes para conhecer projeto de cannabis, mas negou negócios ou recebimento de valores.
Ministério da Saúde / Alexandre PadilhaDeclarou que o ministro jamais recebeu Roberta no Ministério após assumir a pasta em março de 2025. Esclareceu que não possui contratos com a World Cannabis e que a proposta da Iquego foi reprovada em processo público de 2024/2025.
Presidência da Anvisa (Leandro Safatle)Informou que nunca teve compromisso social ou profissional com Antunes. Afirmou que as reuniões com senadores tiveram caráter exclusivamente institucional de sabatina e que as regras de cannabis cumprem decisões do STJ.
Cléber Ribas & 3Structure ITConfirmou amizade pessoal com Lulinha e Roberta, mas negou qualquer contrato com o governo ou com Antunes. Informou que foi procurado para o projeto de educação financeira, mas a proposta não avançou.
Defesa de Antunes e RobertaA advogada Danyelle Galvão informou que não teve acesso ao conteúdo do celular de Antunes nem aos autos, abstendo-se de manifestação. A defesa de Roberta não se pronunciou.

As investigações prosseguem sob sigilo no Supremo Tribunal Federal, que avalia o alcance dos relatórios e a distribuição das novas frentes apuratórias instauradas pela Polícia Federal.