Às vésperas de mais um embate eleitoral, o desespero por popularidade faz com que o governo federal ultrapasse a linha do populismo e mergulhe no mais puro cinismo. A nova promessa de Luiz Inácio Lula da Silva — a distribuição "gratuita" de canetas emagrecedoras de semaglutida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) — é uma cortina de fumaça cruel. Trata-se de uma manobra eleitoreira duplamente perversa: enquanto o presidente joga para a plateia uma promessa vaga e carregada de preconceito, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), sob a batuta de seus indicados, atua implacavelmente para criminalizar o acesso a um medicamento superior e mais barato, protegendo os lucros astronômicos da farmacêutica americana Eli Lilly.
O Escárnio Presidencial e a Culpabilização do Doente
Para entender a farsa, é preciso primeiro olhar para a forma como a promessa foi feita. Ao anunciar a suposta distribuição, Lula não apresentou prazos, orçamentos ou garantias de que o projeto verá a luz do dia neste mandato — ou mesmo em um hipotético quarto mandato. Pior: ao condicionar o acesso a protocolos irreais, o presidente destilou um profundo desconhecimento científico e um escárnio inaceitável contra pessoas que sofrem de obesidade.
Ao afirmar há poucos meses que o remédio não seria "presente para relaxado" e que as pessoas precisam "comprar pão a pé" e "namorar a pé", Lula reduz uma doença crônica, complexa e multifatorial a uma mera questão de preguiça. É a culpabilização da vítima em rede nacional. Na prática, as amarras burocráticas anunciadas pelo presidente servirão apenas para tornar o acesso ao medicamento pelo SUS quase impossível, restringindo-o a uma minoria absoluta e transformando o anúncio em mera peça de propaganda enganosa.
O Verdadeiro Projeto: Blindar o Monopólio da Eli Lilly
A hipocrisia atinge seu ápice quando confrontamos a promessa da caneta de semaglutida (uma tecnologia de geração anterior) com o que o governo Lula tem feito na prática com a tirzepatida, o princípio ativo mais moderno e eficaz do mercado.
Enquanto discursa sobre saúde pública, a Anvisa — cuja tão alardeada independência não esconde o alinhamento com a caneta presidencial — proibiu sumariamente a importação legal por pessoa física de medicamentos à base de tirzepatida fabricados no Paraguai. A justificativa oficial? Uma suposta "falta de regulamentação" e riscos à saúde. A realidade? A agência atua como despachante e "leão de chácara" da Eli Lilly, garantindo o monopólio do caríssimo Mounjaro, um medicamento que custa milhares de reais e é inacessível para 90% dos brasileiros.
A Ciência Desmascara a Burocracia
A narrativa da Anvisa de que os medicamentos dos países vizinhos do Mercosul seriam "arriscados" ou "falsificados" foi implodida pela ciência dura. Um laudo incontestável do Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Unicamp escancarou a verdade que Brasília tenta ocultar.
Utilizando o que há de mais avançado em tecnologia laboratorial no mundo — cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC-DAD), espectrometria de massas de alta resolução (LC-HRMS) e dicroísmo circular —, os pesquisadores paulistas provaram que medicamentos paraguaios como Tirzedral, TG, Lipoless, Tirzec e Gluconex (além da T36) possuem exatamente a mesma estrutura molecular do Mounjaro. Contêm, inquestionavelmente, a tirzepatida.
Em um governo minimamente comprometido com os mais pobres, um laudo dessa magnitude seria o estopim para acelerar a regularização e baratear o tratamento no Brasil. No governo Lula, porém, a ciência é ignorada quando atrapalha os interesses do grande capital farmacêutico.
A Criminalização da Pobreza e o Preço nas Urnas
O resultado dessa equação é desastroso. Cidadãos de baixa e média renda, desesperados por um tratamento eficaz contra a obesidade, são empurrados para a marginalidade. Ao tentarem buscar a cura a preços justos em um país vizinho, correm o risco de serem tratados como contrabandistas, enquanto os mais ricos compram o medicamento da Eli Lilly sem serem incomodados.
O governo que se elegeu sob o manto da defesa dos pobres agora assina embaixo de uma política elitista que decreta: no Brasil, apenas quem tem muito dinheiro tem o direito de emagrecer com saúde e eficácia.
A promessa vazia das canetas de semaglutida no SUS não será suficiente para apagar o sadismo burocrático da Anvisa. A população percebe a dissonância entre o discurso de palanque, carregado de preconceito contra os obesos, e as canetadas do Diário Oficial que favorecem conglomerados internacionais. Ao brincar com a saúde e a esperança de milhões de brasileiros para fins eleitorais, o governo não apenas fornece munição contra si mesmo, mas crava, de forma contundente, um prego enferrujado em seu próprio projeto de poder. A fatura dessa crueldade institucionalizada, sem dúvida, será cobrada nas urnas.

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