Entre a arrogância de uma militância que acredita ter o monopólio da consciência política, o desgaste do governo e a dificuldade de dialogar com eleitores independentes, o petismo enfrenta uma crise eleitoral que slogans, discursos inflamados e vídeos nas redes sociais podem não conseguir reverter.
O sinal de alerta está ligado. O Partido dos Trabalhadores (PT) entrou no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 diante de uma realidade incômoda: o discurso do governo já não garante a confiança necessária para conquistar a maioria do eleitorado. E, quando a possibilidade de derrota deixa de ser uma hipótese distante e passa a ocupar o centro das preocupações de uma campanha, as contradições acumuladas ao longo de anos começam a aparecer com muito mais força.
O primeiro turno, realizado em 4 de outubro, deixou um resultado particularmente indigesto para o Palácio do Planalto. Flávio Bolsonaro, do PL, recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, obteve 45,16%. A diferença foi de aproximadamente 2,2 milhões de votos, levando os dois candidatos ao segundo turno, marcado para 25 de outubro.
As primeiras pesquisas da nova etapa eleitoral ampliaram a preocupação petista. No levantamento do Datafolha realizado entre 6 e 8 de outubro, Flávio apareceu com 52% dos votos válidos, ante 48% de Lula. Na pesquisa Atlas/Bloomberg, os percentuais foram de 52,8% para o senador e 47,2% para o presidente. São resultados que precisam ser considerados à luz das margens de erro e das condições de cada levantamento, mas que demonstram uma vantagem inicial da oposição.
Não há resultado definitivo antes da apuração. Entretanto, seria ingenuidade política tratar esses números como um simples acidente estatístico. Lula precisa conquistar eleitores que não lhe deram a liderança no primeiro turno, enquanto enfrenta um adversário que conseguiu transformar o desejo de mudança em uma força eleitoral concreta.
É nesse contexto que surge uma pergunta incômoda para a esquerda brasileira: como um partido que reivindica representar os trabalhadores, os pobres e os excluídos chegou a um momento decisivo precisando convencer parcelas tão expressivas da população de que ainda compreende suas necessidades?
A resposta passa por economia, comunicação, comportamento eleitoral e, sobretudo, pela incapacidade de determinados setores do petismo de reconhecer que o país mudou e que a população não tem obrigação de permanecer politicamente fiel a quem quer que seja.
A "esquerda de iPhone" e a "esquerda caviar": discursos sobre o povo, ouvidos fechados para o povo
Há uma contradição que parte da esquerda insiste em não enxergar. Seus integrantes falam constantemente sobre desigualdade, exploração, direitos sociais, distribuição de renda e defesa da classe trabalhadora. Entretanto, alguns parecem sentir enorme dificuldade para conversar com pessoas que não compartilham seu repertório cultural, suas referências acadêmicas ou suas convicções ideológicas.
É a contradição frequentemente associada às expressões “esquerda de iPhone” e “esquerda caviar”.
Esses rótulos são usados para criticar setores progressistas percebidos como privilegiados, distantes das dificuldades cotidianas e excessivamente confortáveis em suas próprias bolhas. Não definem toda a esquerda, muito menos autorizam concluir que alguém é hipócrita simplesmente porque possui dinheiro, estuda ou utiliza tecnologia. O problema é outro: a distância entre aquilo que se defende no discurso e a capacidade de compreender as prioridades concretas da população.
Um trabalhador não precisa conhecer Karl Marx para entender que seu salário acaba antes do fim do mês. Uma mãe não precisa dominar a teoria econômica para perceber que suas compras ficaram mais caras. Um jovem não precisa participar de um debate universitário sobre neoliberalismo para saber que procura emprego e não consegue uma oportunidade compatível com suas necessidades.
Essas pessoas possuem conhecimento produzido pela própria experiência. Conhecem os problemas porque convivem com eles, não porque alguém os apresentou em uma conferência.
O erro de uma parcela da militância é imaginar que a falta de familiaridade com determinada teoria representa falta de inteligência. Em vez de explicar, prefere corrigir. Em vez de escutar, oferece uma aula. Em vez de reconhecer a legitimidade de uma preocupação cotidiana, tenta enquadrá-la em uma interpretação ideológica previamente estabelecida.
É assim que a política deixa de ser uma conversa entre cidadãos e se transforma em uma disputa pela definição de quem está autorizado a compreender o mundo.
O PT deveria refletir seriamente sobre esse comportamento. Afinal, nenhum partido possui propriedade particular sobre os trabalhadores brasileiros, e nenhum eleitor precisa apresentar certificado de consciência política para ter o direito de discordar do governo.
O povo não é uma plateia obrigada a aplaudir a esquerda. É um conjunto de cidadãos livres para reconhecer seus méritos, rejeitar seus erros e mudar de posição quando considera necessário.
Quando a conta chega, a propaganda perde parte do seu poder
A situação econômica é um dos pontos em que o discurso governamental precisa enfrentar o teste da realidade.
Segundo os dados do IBGE divulgados em 9 de outubro, o IPCA, índice oficial de inflação, subiu 0,82% em setembro de 2026. A inflação acumulada em 12 meses alcançou 4,58%, acima do teto de 4,5% da meta. O grupo de alimentação e bebidas registrou alta de 0,83%, enquanto a energia elétrica residencial aumentou 7,98% no mês. Tomate e batata-inglesa tiveram aumentos expressivos, de 37,76% e 24,07%, respectivamente.
Esses números não significam que todos os setores econômicos estejam em situação ruim, nem que a inflação de um único mês determine o comportamento definitivo da economia. Mas mostram por que o custo de vida continua sendo uma questão política importante.
Para uma família que precisa controlar cada gasto, o debate sobre indicadores macroeconômicos tem um limite bastante objetivo: o dinheiro disponível.
Se a conta de luz aumenta, o orçamento fica mais apertado. Se a alimentação pesa mais no bolso, sobra menos dinheiro para outras despesas. Se o salário não acompanha a percepção de aumento dos custos, o cidadão pode concluir que sua situação não melhorou, mesmo quando o governo apresenta resultados positivos em outras áreas.
A comunicação política pode tentar explicar os motivos dessas variações. Isso faz parte do debate democrático. O que não funciona é tratar a preocupação das famílias como resultado de uma incapacidade de compreender a economia.
É justamente nesse ponto que a esquerda corre o risco de cometer um erro grave: confundir a divulgação de resultados favoráveis com a obrigação de o eleitor reconhecer esses resultados da maneira desejada pelo governo.
Uma família que enfrenta dificuldades não se torna ingrata por cobrar respostas. Um trabalhador insatisfeito não está necessariamente manipulado pela oposição. Um pequeno empresário preocupado com os custos do seu negócio não precisa ser convencido de que sua experiência cotidiana é menos importante do que os argumentos de um dirigente partidário.
A prestação de contas deve começar pelo reconhecimento dos problemas, continuar com explicações verificáveis e terminar com propostas que possam ser cobradas pela sociedade.
Sem isso, a propaganda transforma-se em repetição. E a repetição, quando não encontra correspondência na experiência do eleitor, pode produzir irritação em vez de confiança.
Os próprios números do governo revelam o tamanho do desafio
Uma pesquisa Datafolha divulgada em outubro oferece outro elemento importante para compreender o momento político. No levantamento, 40% dos entrevistados classificavam o governo Lula como ruim ou péssimo, enquanto 35% o avaliavam como ótimo ou bom e 24% o consideravam regular. Na avaliação pessoal do presidente, a desaprovação chegava a 49%, diante de 48% de aprovação.
A pesquisa não demonstra que todos esses eleitores votarão em Flávio Bolsonaro. Avaliação de governo e intenção de voto são medidas diferentes. Uma pessoa pode desaprovar a gestão e ainda rejeitar o candidato adversário.
Entretanto, esses resultados expõem uma dificuldade política: Lula precisa persuadir eleitores que não estão plenamente satisfeitos com sua administração e que podem enxergar a eleição como uma oportunidade de mudança.
É um desafio especialmente delicado porque a candidatura petista não dispõe de uma reserva ilimitada de confiança. Com a rejeição elevada, cada movimento precisa convencer pessoas que já têm razões para desconfiar do governo.
E é nesse cenário que a postura de determinados militantes pode se tornar contraproducente. Quando qualquer crítica é tratada como provocação da direita, qualquer insatisfação é reduzida a desinformação e qualquer divergência é interpretada como falta de consciência, a campanha fecha justamente os canais de diálogo de que mais necessita.
A oposição não precisa convencer todos os brasileiros de que suas propostas são melhores. Em uma eleição polarizada, basta conseguir reunir uma maioria entre eleitores que desejam mudança, rejeitam o governo ou não confiam na continuidade da atual administração.
O PT, por sua vez, precisa demonstrar que a continuidade oferece respostas melhores do que a alternativa. É uma tarefa muito mais complexa do que repetir que o adversário representa riscos.
O eleitor de centro não está esperando autorização para pensar
Um dos maiores equívocos estratégicos de parte da esquerda é imaginar que o eleitor de centro seja apenas um progressista ainda não convencido, alguém que retornará ao campo petista depois de ouvir os argumentos corretos.
O centro político não funciona assim.
Uma pessoa pode apoiar programas sociais, defender a educação pública e reconhecer a importância do combate à pobreza, mas discordar da condução econômica do governo. Pode defender as instituições democráticas e exigir respostas mais firmes para a criminalidade. Pode considerar indispensáveis os direitos trabalhistas e, ao mesmo tempo, preocupar-se com impostos, inflação e oportunidades de emprego.
Essas posições não são necessariamente contraditórias. São expressões de uma sociedade complexa, na qual os cidadãos precisam equilibrar diferentes preocupações.
O eleitor independente não tem obrigação de organizar todas as suas opiniões em torno de uma identidade partidária. Tampouco precisa aceitar que o governo defina quais assuntos devem ter prioridade em sua vida.
A pesquisa Datafolha sobre a avaliação da gestão já indicava que, entre os eleitores de candidatos de menor votação no primeiro turno, apenas 12% avaliavam o governo Lula como ótimo ou bom. Embora esse dado não determine a transferência dos votos para Flávio, ele mostra a dificuldade que o petismo enfrenta para ampliar sua base entre grupos que não demonstraram entusiasmo com o governo.
O caminho para o centro exige negociação, capacidade de reconhecer erros e propostas compreensíveis. Exige também abandonar a ideia de que o cidadão precisa concordar com todas as posições de uma corrente política para ser considerado um interlocutor legítimo.
Se a estratégia for simplesmente aumentar o volume dos ataques ao adversário, o resultado poderá ser o oposto do pretendido. O eleitor que já desconfia do PT pode interpretar a agressividade como confirmação de que o partido não pretende ouvir suas preocupações.
O centro não é propriedade do PT, assim como o trabalhador não é propriedade da esquerda. A confiança precisa ser conquistada, e pode ser perdida.
A direita aprendeu a disputar atenção. A esquerda ainda precisa aprender a dialogar
A comunicação política contemporânea exige mais do que produzir discursos longos e apresentar argumentos tecnicamente corretos.
As redes sociais transformaram a disputa pela atenção. Um vídeo curto, um meme, uma frase provocativa ou uma história emocional podem alcançar pessoas que jamais assistiriam a uma palestra sobre economia ou política. Isso não significa que mensagens curtas sejam necessariamente melhores, tampouco que sejam verdadeiras. Significa que a política passou a disputar espaço com inúmeras outras formas de entretenimento e informação.
A direita brasileira desenvolveu redes de comunicação capazes de combinar identidade política, humor, indignação e mensagens de fácil circulação. Parte da esquerda também domina esses instrumentos, mas setores de sua militância continuam tratando a popularidade digital como se fosse consequência automática da superioridade intelectual ou moral de suas ideias.
Esse raciocínio é perigoso.
Uma narrativa enganosa pode ser eficiente. Uma informação correta pode ser ignorada. Uma explicação verdadeira, quando mal apresentada, pode perder espaço para uma versão falsa que desperta emoções mais fortes.
Combater a desinformação continua sendo indispensável. Entretanto, apontar os erros dos adversários não dispensa a necessidade de comunicar com clareza, apresentar evidências e reconhecer as dúvidas legítimas dos eleitores.
O problema se agrava quando uma parcela da esquerda utiliza as redes sociais principalmente para ridicularizar opositores, estabelecer quem é moralmente aceitável ou reforçar a sensação de pertencimento de quem já está convencido.
Esse comportamento pode gerar aplausos dentro da bolha e, ao mesmo tempo, afastar quem está fora dela.
O cidadão que procura explicações para o aumento das despesas familiares não necessariamente deseja assistir a uma disputa interminável entre influenciadores políticos. Muitas vezes, quer respostas objetivas sobre renda, preços, segurança, emprego e serviços públicos.
A política precisa chegar a essas pessoas sem tratá-las como espectadores incapazes de compreender assuntos complexos.
Não é necessário abandonar a teoria. É necessário saber traduzi-la em argumentos claros. Não é necessário renunciar à profundidade. É necessário explicar por que determinado problema importa, quais são suas causas, quais soluções existem e quais consequências podem ser esperadas de cada escolha.
Quando um partido exige que o eleitor atravesse um labirinto de conceitos antes de compreender sua proposta, oferece ao adversário a oportunidade de ocupar esse espaço com mensagens mais simples, ainda que eventualmente distorcidas.
O desespero eleitoral não pode ser confundido com renovação política
A proximidade do segundo turno coloca a campanha petista diante de uma escolha difícil. Pode reconhecer que existe um problema de comunicação, confiança e representação, ou pode atribuir todo o desgaste a uma combinação de ataques adversários, desinformação e falta de compreensão por parte dos eleitores.
A primeira alternativa exige autocrítica. A segunda oferece um conforto momentâneo, mas corre o risco de aprofundar a crise.
Lula admitiu ter se surpreendido com o resultado do primeiro turno e avaliou negativamente a organização de sua própria campanha. A declaração ajuda a compreender o tamanho da distância entre as expectativas da candidatura e o desempenho alcançado nas urnas.
É legítimo interpretar a movimentação da campanha como sinal de pressão e preocupação. O que não seria correto é apresentar um estado psicológico como fato comprovado. O que os dados permitem afirmar é que Lula enfrenta uma disputa difícil, com rejeição expressiva e pesquisas iniciais desfavoráveis.
A derrota, portanto, não está consumada. O cenário, porém, é suficientemente preocupante para exigir mudanças concretas.
Não será a troca de um slogan que resolverá o problema. Tampouco bastará produzir mais vídeos, convocar mais militantes ou aumentar a intensidade dos ataques a Flávio Bolsonaro.
A campanha precisa explicar como pretende enfrentar o custo de vida, melhorar a renda, ampliar oportunidades, combater a criminalidade e entregar serviços públicos que atendam às necessidades da população. Precisa também reconhecer os limites dos resultados alcançados e demonstrar, com propostas verificáveis, por que merece continuar governando.
A capacidade de fazer isso será mais importante do que qualquer tentativa de transformar a eleição em um julgamento moral dos brasileiros que não pretendem votar em Lula.
O problema não é Marx. É a distância entre a teoria e a vida real
O conhecimento acadêmico tem valor. Pensadores como Marx, Gramsci e tantos outros ajudaram a desenvolver ferramentas para compreender relações econômicas, estruturas sociais, ideologias e disputas de poder. A crítica à esquerda intelectualizada não precisa, portanto, transformar o estudo em inimigo.
A questão é como esse conhecimento é utilizado.
Quando uma teoria ajuda a compreender o custo do trabalho, as desigualdades de oportunidade ou os efeitos das decisões econômicas, ela pode contribuir para uma discussão pública mais qualificada. Quando se transforma em um código de identificação entre pessoas que consideram possuir superioridade intelectual, deixa de cumprir parte importante de sua função.
A mesma crítica vale para qualquer corrente política. A direita também pode cair na simplificação, no culto a líderes e na disseminação de explicações falsas. Nenhum campo está imune à tentação de substituir argumentos por lealdades.
O diferencial está na capacidade de reconhecer erros e apresentar respostas que resistam ao confronto com os fatos.
A esquerda que deseja representar os trabalhadores precisa compreender que eles não existem para validar suas teorias. As teorias é que devem ajudar a compreender a realidade dessas pessoas.
É uma diferença fundamental.
O trabalhador não precisa ser convencido de que sua experiência é legítima. Precisa encontrar representação política capaz de transformar suas necessidades em propostas, políticas públicas e resultados que possam ser avaliados.
A mãe que enfrenta dificuldades financeiras não precisa receber uma aula sobre a estrutura do capitalismo antes de ter sua preocupação reconhecida. O pequeno empreendedor não precisa abandonar suas dúvidas sobre impostos para ser ouvido por um partido progressista. O eleitor de centro não precisa assumir uma identidade ideológica para participar do debate público.
Quando a política se esquece disso, o conhecimento vira fronteira, a militância vira clube e a representação popular corre o risco de se tornar apenas uma palavra repetida em discursos.
A pergunta que o PT precisa responder antes das urnas
Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, a disputa permanece aberta. Novos levantamentos, acontecimentos de campanha e a capacidade dos candidatos de conquistar eleitores indecisos poderão alterar o cenário. A vantagem inicial de Flávio Bolsonaro não significa vitória garantida, assim como a experiência eleitoral de Lula não oferece proteção automática contra uma derrota.
Mas existe uma questão que ultrapassa a pesquisa da semana e continuará relevante independentemente do resultado.
Como um partido que afirma conhecer tão profundamente as necessidades populares chegou ao ponto de enfrentar tantas dificuldades para convencer parcelas expressivas do eleitorado de que compreende suas preocupações?
A resposta não pode ser encontrada apenas nos algoritmos, na propaganda adversária ou na suposta falta de consciência política dos brasileiros. Ela precisa incluir a responsabilidade do próprio PT, a qualidade de seu governo, suas prioridades, sua comunicação e a postura de seus representantes.
A chamada esquerda de iPhone e esquerda caviar deveria entender que possuir repertório intelectual não garante sensibilidade social, assim como repetir discursos sobre o povo não equivale a construir uma relação de confiança com ele.
O eleitor quer saber o que será feito com sua realidade, não apenas o que deveria pensar sobre ela.
Quer respostas sobre o dinheiro que falta, a oportunidade que não aparece, o serviço público que não funciona e a insegurança que interfere na vida da família. Pode concordar ou discordar das soluções apresentadas, mas precisa ter a possibilidade de comparar propostas sem ser tratado como alguém incapaz de compreender a própria situação.
Se o PT insistir em interpretar a insatisfação como ignorância, poderá ampliar a distância entre o partido e os cidadãos que pretende representar. Se a militância confundir discordância com desinformação e crítica com hostilidade, fechará portas que a campanha eleitoral precisa manter abertas.
A democracia não concede a nenhum partido o direito de permanecer no poder por merecimento histórico. Cada eleição renova a oportunidade de convencer a sociedade, e cada resultado expressa a decisão soberana dos eleitores, dentro das regras eleitorais.
É por isso que o risco de derrota deve ser encarado com seriedade. Ele pode representar muito mais do que um revés circunstancial para uma candidatura. Pode expor os limites de um modelo de comunicação e militância que, em determinados setores, passou a valorizar o aplauso interno mais do que a capacidade de dialogar com quem pensa diferente.
A esquerda brasileira não precisa ser menos inteligente, nem abandonar sua história ou suas convicções. Precisa demonstrar que consegue compreender uma sociedade que não cabe em suas bolhas, nem aceita ser reduzida a categorias ideológicas.
O PT pode tentar reconstruir essa confiança. Mas o tempo é curto, a disputa é real e o eleitor não tem obrigação de conceder uma segunda chance simplesmente porque o partido acredita merecê-la.
O maior sinal de alerta para o petismo não é apenas ver Flávio Bolsonaro à frente nas primeiras pesquisas do segundo turno. É perceber que, depois de tantos anos afirmando falar em nome do povo, precisa agora provar que ainda sabe ouvi-lo.
E talvez a pergunta mais incômoda para a esquerda seja justamente esta: de que adianta conhecer tantas teorias sobre o poder se, na hora de disputar o voto, parte de sua militância parece ter perdido a capacidade de conversar com as pessoas que pretende representar?
As urnas darão a resposta eleitoral. A responsabilidade por compreender o que levou até ela continuará sendo do próprio PT.

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