A Política que Perdeu o Rumo - Entre a Polarização, o Escândalo e um Eleitor Cansado de Ser Tratado Como Torcida - Jornalismo de Opinião

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01/10/26

A Política que Perdeu o Rumo - Entre a Polarização, o Escândalo e um Eleitor Cansado de Ser Tratado Como Torcida

 

A quatro dias do primeiro turno das eleições de 2026, o Brasil chega às urnas com uma combinação incômoda: participação política intensa, polarização elevada e um debate público cada vez mais ocupado por ataques, acusações, guerras culturais e disputas em torno de personagens.

O eleitor não desapareceu. Pelo contrário. Ele continua acompanhando pesquisas, redes sociais, debates, escândalos, decisões judiciais e discursos de campanha. O problema é outro: cresce a distância entre a dimensão dos problemas nacionais e a qualidade do debate oferecido por parte da política.

Enquanto o país precisa discutir contas públicas, juros, produtividade, segurança, saúde, educação, envelhecimento populacional, transformação tecnológica e mudanças no mercado de trabalho, a campanha frequentemente é puxada para outro terreno. O adversário passa a ocupar mais espaço que o programa. A provocação substitui a explicação. A identidade política passa a valer mais que a proposta.

A pesquisa Meio/Ideia divulgada nesta quarta-feira, 30 de setembro, ajuda a dimensionar o tamanho da disputa. Lula aparece com 39,4% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro registra 38,4%. A diferença de um ponto percentual está dentro da margem de erro de 2,2 pontos. O levantamento ouviu 2.000 eleitores por telefone entre 25 e 28 de setembro e tem nível de confiança de 95%.

O dado mais importante talvez esteja justamente aí: a eleição chegou à reta final sem produzir uma fotografia de tranquilidade para nenhum dos dois principais campos.

Na pesquisa espontânea, quando os nomes dos candidatos não são apresentados, Lula aparece com 31,5% e Flávio com 30,5%. Outros candidatos ficam bem atrás, enquanto 17,5% dos entrevistados dizem não saber em quem votar. Brancos, nulos e aqueles que afirmam não votar em nenhum candidato somam 7,5%.

Ou seja, ainda existe uma parcela relevante do eleitorado que não está cristalizada em uma escolha.

E é justamente esse eleitor que a política deveria tentar convencer com argumentos.

O problema é que o debate público ficou menor que o Brasil

A campanha de 2026 incorporou temas importantes. Segurança pública, corrupção, apostas eletrônicas, Previdência, economia, religião, Supremo Tribunal Federal, relações internacionais e tecnologia apareceram com frequência.

Mas a forma como esses assuntos são tratados muitas vezes transforma questões complexas em slogans.

A discussão sobre segurança, por exemplo, passa facilmente da análise de políticas públicas para a disputa ideológica sobre modelos estrangeiros. A discussão sobre apostas vira guerra moral. A corrupção passa a ser utilizada como arma seletiva contra o adversário. A religião entra na arena eleitoral como instrumento de identificação política.

Até Nossa Senhora Aparecida foi arrastada para a disputa.

Nos últimos dias, circulou nas redes uma falsa informação segundo a qual Flávio Bolsonaro pretendia retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira do Brasil. O próprio senador classificou a afirmação como fake news, enquanto representantes da Igreja Católica negaram envolvimento na disseminação da narrativa.

É um exemplo perfeito de como uma eleição pode abandonar o terreno da política pública e entrar no território da guerra cultural.

O problema é que uma democracia não pode funcionar permanentemente como um estádio dividido entre duas torcidas.

Enquanto isso, as contas continuam chegando

O país não votará apenas em discursos. Votará em pessoas que terão de administrar um Estado pressionado por despesas obrigatórias, demandas sociais crescentes, juros, dívida pública e necessidade de investimento.

A pergunta que deveria dominar parte considerável da campanha é simples: como financiar as promessas?

Outra é ainda mais difícil: o que será priorizado quando não houver dinheiro para tudo?

O pacto social construído a partir da Constituição de 1988 ampliou direitos e consolidou políticas públicas fundamentais. SUS, assistência social, previdência e programas de transferência de renda mudaram a relação entre Estado e população.

Mas o sucesso dessas políticas também produziu uma sociedade que passou a exigir mais qualidade dos serviços públicos.

O cidadão que conseguiu acesso a determinado benefício agora quer atendimento melhor. Quem entrou na universidade quer emprego qualificado. Quem conquistou renda quer segurança. Quem passou a ter acesso à internet quer serviços públicos digitais. Quem trabalha por aplicativos ou como autônomo precisa de proteção social compatível com uma economia que já não se organiza exclusivamente dentro de fábricas, escritórios e sindicatos.

É aí que a velha divisão entre esquerda e direita começa a ficar insuficiente.

O trabalhador contemporâneo pode não se enxergar como trabalhador no sentido tradicional. Pode ser motorista de aplicativo, entregador, profissional autônomo, microempreendedor ou prestador de serviços.

Isso não significa que tenha deixado de possuir interesses econômicos.

Ele continua preocupado com renda, aposentadoria, segurança, impostos, saúde, transporte e custo de vida.

A política precisa reencontrar esse cidadão antes que ele seja transformado apenas em consumidor de conteúdo político.

O caso Banco Master agravou a crise de confiança

A deterioração da confiança institucional ganhou um elemento adicional em 2026 com as investigações envolvendo o Banco Master e o ex-controlador Daniel Vorcaro.

O material apreendido pela Polícia Federal trouxe à tona mensagens, contratos e relações envolvendo empresários, advogados, magistrados e pessoas próximas a integrantes do Judiciário.

Um dos casos mais comentados envolve contrato de R$ 131 milhões entre o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, e o Banco Master. Reportagem da Folha informou que Moraes participou de edições do contrato antes da assinatura. O escritório apresentou explicações e o caso permanece no campo das apurações.

Outro episódio envolve um contrato que poderia chegar a R$ 427 milhões em honorários para o escritório da advogada Camilla Ramos, esposa do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. As mensagens analisadas pela PF relacionam pessoas próximas ao grupo à expressão “Turma do KN”, referência atribuída a Kassio Nunes Marques. O ministro negou envolvimento irregular.

É importante fazer uma distinção que desaparece facilmente nas redes sociais: existência de contrato, mensagem, relação pessoal ou indício investigado não equivale, por si só, à comprovação de crime.

Mas também seria um erro tratar essas informações como irrelevantes.

Instituições que exercem enorme poder precisam estar submetidas a padrões elevados de transparência. Quanto maior o poder, maior deve ser a capacidade de explicar relações, decisões e eventuais conflitos de interesse.

A crise de confiança nasce justamente quando o cidadão olha para as instituições e percebe uma distância enorme entre o discurso de autoridade moral e os fatos que estão sendo investigados.

O eleitor vê o espetáculo, mas continua pagando a conta

Outro componente dessa crise é a sensação de que o sistema político se tornou especialista em produzir conflito, mas pouco eficiente em produzir soluções.

O eleitor acompanha uma sucessão de CPIs, operações policiais, decisões judiciais, acusações, desmentidos e guerras nas redes sociais.

Enquanto isso, problemas concretos permanecem.

O preço dos alimentos precisa ser pago.

A conta de energia chega.

O aluguel vence.

O trabalhador precisa encontrar emprego.

O empresário precisa produzir.

O aposentado precisa receber.

A família precisa conseguir atendimento médico.

A criança precisa aprender.

O país precisa crescer sem destruir sua capacidade fiscal.

E a economia brasileira precisa decidir se pretende ocupar espaço relevante na nova economia tecnológica ou permanecer excessivamente dependente da exportação de commodities.

Essa última questão talvez seja uma das mais importantes e menos exploradas eleitoralmente.

O Brasil possui petróleo, minério, alimentos, biodiversidade, energia e terras raras. Mas possuir recursos naturais não significa automaticamente produzir desenvolvimento tecnológico.

O desafio é transformar riqueza natural em conhecimento, indústria, produtividade e renda.

Isso exige educação, pesquisa, infraestrutura, segurança jurídica, capital e planejamento de longo prazo.

Nenhum slogan resolve isso.

A eleição também é uma disputa sobre o futuro da democracia

A eleição de 2026 ocorre em um momento particularmente delicado da democracia brasileira.

O país ainda carrega as consequências da polarização que ganhou força nos últimos anos. A relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário permanece marcada por conflitos. O debate sobre os limites de atuação do Supremo tornou-se permanente. E as redes sociais transformaram cada disputa institucional em uma batalha instantânea.

Nesse ambiente, qualquer investigação contra um político é imediatamente interpretada por parte de seus adversários como prova definitiva de culpa.

E qualquer investigação contra alguém do próprio campo passa a ser tratada como perseguição.

Essa lógica destrói uma regra elementar: instituições devem investigar independentemente de quem esteja sendo investigado.

Se há suspeita contra um integrante da esquerda, deve haver investigação.

Se há suspeita contra alguém da direita, também.

Se a suspeita atingir um ministro do Supremo, a resposta institucional precisa obedecer ao devido processo e às mesmas exigências de transparência.

O problema começa quando a régua muda conforme o personagem.

A velha política está diante de uma transição geracional

A eleição de 2026 também marca uma transformação geracional.

Lula continua sendo a principal referência eleitoral do campo que lidera o PT e uma parcela expressiva da centro-esquerda. Do outro lado, a família Bolsonaro permanece central na mobilização de grande parte da direita brasileira.

A questão que emerge é inevitável: o que acontece quando esses personagens deixarem de ocupar o centro da disputa?

Não existe liderança política eterna.

O sistema precisará produzir novas figuras, novas ideias e novas formas de organização.

E isso vale para todos os campos.

A esquerda precisará responder a problemas que não estavam no centro do debate de décadas passadas. A direita precisará apresentar propostas que ultrapassem a oposição ao PT e ao lulismo.

Nenhum projeto nacional pode sobreviver indefinidamente baseado apenas na rejeição ao adversário.

Dizer que será “tudo diferente” é uma frase eleitoral. A pergunta relevante vem depois: diferente em quê?

Qual será a política econômica?

Qual será a relação com o Congresso?

Como será tratado o Supremo?

Como serão financiadas as políticas sociais?

Qual será a estratégia para segurança pública?

Como o país enfrentará a inteligência artificial?

Como será a política ambiental?

Qual será o papel do Brasil no mundo?

Quanto custará cada promessa?

É nesse ponto que o debate deveria começar.

O eleitor não precisa de uma guerra permanente

O primeiro turno acontece em 4 de outubro. O segundo, se necessário, está marcado para 25 de outubro. Segundo o TSE, 158.765.543 eleitoras e eleitores estão aptos a votar nas eleições gerais de 2026.

É gente demais para ser tratada como uma massa homogênea.

Há brasileiros que votarão movidos por convicções ideológicas. Outros priorizarão economia. Alguns votarão pensando em segurança. Outros em programas sociais. Haverá quem escolha pela rejeição a determinado candidato. E haverá quem ainda esteja decidindo.

Todos fazem parte do processo democrático.

O que não deveria ser normal é exigir que o eleitor escolha entre duas versões simplificadas do país.

O Brasil é maior que Lula.

É maior que Bolsonaro.

É maior que o PT.

É maior que o PL.

É maior que o STF.

É maior que qualquer candidato.

O país tem 158 milhões de eleitores aptos, milhões de trabalhadores, milhares de municípios e uma economia complexa. Tem crianças que ainda nem votam e que viverão com as consequências das decisões tomadas agora.

A política deveria estar discutindo esse futuro.

Em vez disso, boa parte do debate continua presa ao passado, às acusações e às guerras de identidade.

A pesquisa Meio/Ideia mostra uma eleição apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro, com 39,4% e 38,4%, respectivamente, no primeiro turno, e 48,5% contra 48% no cenário de segundo turno.

Esses números não dizem quem vencerá.

Dizem outra coisa: a disputa está aberta o suficiente para que cada voto tenha peso e para que o eleitorado ainda seja objeto de intensa disputa política.

A questão é saber se os candidatos utilizarão esses últimos dias para explicar o que pretendem fazer com o país ou continuarão alimentando a máquina de conflito.

Porque, depois que as urnas forem fechadas, os problemas reais continuarão esperando.

A dívida não desaparecerá.

A violência não desaparecerá.

A desigualdade não desaparecerá.

O déficit público não desaparecerá.

As dúvidas sobre o Supremo não desaparecerão.

A transformação tecnológica não desaparecerá.

E a desconfiança do eleitor também não desaparecerá simplesmente porque uma eleição terminou.

A democracia brasileira precisa de disputa. Precisa de oposição. Precisa de imprensa crítica. Precisa de investigação. Precisa de fiscalização.

Mas precisa também de alguma coisa que parece cada vez mais rara: política capaz de responder à pergunta mais básica de todas.

Depois de vencer a eleição, o que exatamente será feito com o país?

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