A Eleição do Cansaço - Entre a Mobilização de Lula, o Voto Útil de Flávio e uma Campanha Cada Vez Mais Pobre em Propostas - Jornalismo de Opinião

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01/10/26

A Eleição do Cansaço - Entre a Mobilização de Lula, o Voto Útil de Flávio e uma Campanha Cada Vez Mais Pobre em Propostas

 

A poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026, marcado para 4 de outubro, a disputa presidencial brasileira chega ao momento decisivo sob uma característica que deveria preocupar qualquer democracia: os dois principais candidatos parecem depender mais da rejeição ao adversário do que da capacidade de apresentar um projeto capaz de despertar entusiasmo no eleitor.

De um lado está o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à continuidade. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL), principal nome da oposição. Entre eles, uma parcela expressiva do eleitorado demonstra uma combinação de preferência, rejeição, dúvida e cansaço.

O retrato das pesquisas recentes ajuda a entender a dimensão dessa disputa. A Quaest divulgada em 28 de setembro registrou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio com 34%. No segundo turno hipotético, os dois apareceram empatados em 42%. A pesquisa entrevistou 2.004 pessoas entre 24 e 27 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais.

O Datafolha, por sua vez, encontrou 40% para Lula e 36% para Flávio no primeiro turno. Em uma simulação de segundo turno, o placar foi de 47% a 45%, também dentro da margem de erro. O levantamento ouviu 2.002 eleitores entre 22 e 23 de setembro.

Esses números não autorizam decretar vencedor antecipado. Mostram outra coisa: a eleição permanece aberta à movimentação dos últimos dias e, principalmente, ao comportamento de eleitores que ainda podem alterar sua decisão.

O voto que não acontece também pesa

É nesse ponto que a abstenção ganhou importância estratégica.

O Brasil terá 158.765.543 eleitores aptos em 2026, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. O eleitorado com 60 anos ou mais cresceu significativamente desde 2022: passou de 32,89 milhões para 37,46 milhões, representando 23,6% do eleitorado nacional.

Entre os maiores de 70 anos, entretanto, o voto é facultativo. O próprio TSE destaca que esse grupo representa parcela relevante do eleitorado e possui direito de participar das eleições sem a obrigatoriedade imposta às demais faixas etárias.

A experiência de 2022 mostra por que esse segmento desperta atenção das campanhas. No primeiro turno daquele ano, 32.770.982 eleitores não compareceram às urnas, equivalente a 20,95% do eleitorado apto.

É importante, porém, não transformar esse dado histórico em uma previsão automática para 2026. Abstenção não possui ideologia própria. Um eleitor pode faltar por idade, doença, deslocamento, desinteresse, dificuldade logística ou simplesmente por decisão pessoal. Não é possível converter automaticamente ausência em voto potencial para qualquer candidato.

Ainda assim, para uma eleição apertada, milhões de eleitores que deixam de comparecer podem alterar a composição efetiva dos votos válidos.

É justamente por isso que a campanha de Lula passou a dar atenção especial aos eleitores mais velhos e à mobilização de grupos que tradicionalmente apresentam menor comparecimento.

A estratégia é eleitoralmente compreensível. Também revela uma contradição incômoda: em vez de uma disputa centrada exclusivamente em convencer o eleitor sobre propostas para o país, parte importante da reta final passou a ser uma batalha para fazer determinados segmentos simplesmente aparecerem para votar.

Lula tenta transformar comparecimento em estratégia eleitoral

Lula tem apelado publicamente à participação dos eleitores idosos. O raciocínio da campanha é baseado em uma combinação de dois fatores: o crescimento do peso demográfico das faixas mais velhas e o desempenho do candidato nesses segmentos.

O Datafolha registrou vantagem de Lula entre eleitores de menor renda, pessoas com menor escolaridade, moradores do Nordeste e católicos. Entre beneficiários diretos ou indiretos do Bolsa Família, o levantamento apontou 52% para Lula contra 27% para Flávio.

Mas transformar essa vantagem declarada em votos efetivamente depositados na urna depende do comparecimento.

Essa é uma diferença fundamental entre intenção de voto e resultado eleitoral.

Pesquisa mede uma fotografia. Eleição mede quem efetivamente aparece, vota e tem seu voto contabilizado como válido.

É nesse espaço entre a intenção e a urna que as campanhas estão tentando atuar.

Flávio aposta na transferência do voto da direita

No campo oposicionista, a estratégia é diferente.

A campanha de Flávio Bolsonaro tenta consolidar o chamado voto útil, buscando atrair eleitores de outros candidatos de direita. A lógica é simples: diante da proximidade do primeiro turno, o eleitor que deseja impedir a continuidade de Lula seria estimulado a concentrar seu voto no candidato oposicionista com maior percentual nas pesquisas.

Os dados da Quaest mostram por que essa estratégia ganhou força. Na rodada de 28 de setembro, Augusto Cury e Ronaldo Caiado apareciam com 4% cada, Renan Santos com 3% e Romeu Zema com 1%. Os indecisos somavam 5%.

O número de indecisos havia caído em relação à rodada anterior, enquanto os dois principais candidatos concentravam a maior parte das intenções.

É justamente esse movimento que transforma os últimos dias em uma guerra pelo eleitor que ainda não fechou questão.

O problema é que o voto útil pode funcionar simultaneamente como instrumento de transferência de votos e como mecanismo de redução da pluralidade da disputa. Candidaturas menores passam a ser pressionadas a justificar sua existência, enquanto os eleitores são convidados a abandonar preferências próprias em nome de uma estratégia de segundo turno.

Isso não é ilegal nem necessariamente irregular. É parte conhecida da dinâmica eleitoral. Mas revela como o sistema de dois turnos pode produzir, nos últimos dias do primeiro turno, uma disputa muito menos sobre projetos e muito mais sobre quem possui condições de sobreviver politicamente.

O debate da Globo virou uma oportunidade para um candidato e um problema para outro

A decisão de Lula de não participar do debate da Globo previsto para a reta final provocou outro capítulo dessa disputa.

Flávio Bolsonaro e outros candidatos confirmaram presença. Com Lula ausente, o presidente deixa de enfrentar diretamente os adversários em um dos momentos de maior exposição pública da campanha.

Do ponto de vista estratégico, a ausência pode evitar que Lula se transforme no alvo simultâneo dos demais candidatos.

Mas existe um custo político evidente: o eleitor perde uma oportunidade de colocar frente a frente os principais postulantes à Presidência.

Em uma eleição marcada por forte polarização, fugir do confronto pode ser uma escolha estratégica de campanha. Não deixa de ser, entretanto, uma perda para o eleitor que gostaria de comparar respostas, números, propostas e compromissos diretamente.

Flávio, por sua vez, tem no debate uma oportunidade de ampliar sua exposição e atacar a administração petista.

Isso também tem limite.

Debate não substitui programa de governo. Ataque ao adversário não responde como será administrada a economia. Uma frase de efeito não explica como reduzir despesas, financiar políticas públicas, enfrentar a criminalidade ou lidar com o endividamento das famílias.

A política econômica desapareceu atrás da guerra eleitoral

Talvez esse seja o aspecto mais preocupante da atual campanha.

O Brasil possui problemas concretos que não desaparecerão depois da eleição.

Custo de vida, endividamento das famílias, contas públicas, juros, produtividade, segurança, saúde, educação, infraestrutura, reforma administrativa, previdência e políticas sociais continuarão sobre a mesa independentemente de quem vencer.

Ainda assim, boa parte da campanha presidencial foi consumida por conflitos simbólicos, ataques pessoais, polarização ideológica e disputas nas redes sociais.

A consequência é conhecida.

Quanto mais espaço ocupa a rejeição ao adversário, menos espaço sobra para explicar o próprio projeto.

Isso vale para os dois campos.

A candidatura governista precisa explicar como pretende lidar com as pressões fiscais e com a expansão de despesas sem produzir desequilíbrios que recaiam posteriormente sobre a população.

A oposição precisa explicar de maneira igualmente concreta quais gastos pretende cortar, quais políticas pretende preservar, quanto custariam suas promessas e quem arcaria com os custos das mudanças.

Prometer ajuste fiscal sem explicar sacrifícios é tão insuficiente quanto anunciar novos benefícios sem apresentar fonte permanente de financiamento.

O eleitor não precisa apenas ouvir que determinado candidato será responsável pelas contas públicas. Precisa saber como isso será feito.

A religião virou munição eleitoral

A controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida expõe outro problema da campanha de 2026: a transformação da religião em instrumento de disputa política.

Circulou nas redes uma alegação falsa de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Flávio negou a acusação e afirmou ser vítima de desinformação. A Igreja Católica também entrou no debate, enquanto diferentes versões da história passaram a circular nas redes sociais.

Outro conteúdo falso associou apoiadores de Flávio ao incêndio de uma imagem de Nossa Senhora. A checagem mostrou que o episódio havia ocorrido em julho, antes do período eleitoral, e que a Polícia Civil apontou como causa o fogo provocado acidentalmente por velas.

O episódio é revelador porque mostra até onde pode chegar uma campanha quando símbolos religiosos passam a funcionar como armas eleitorais.

Não é necessário acreditar em uma determinada religião para perceber o problema.

Quando uma eleição presidencial transforma santos, igrejas, padres, pastores e símbolos religiosos em peças de propaganda, o debate sobre políticas públicas fica ainda menor.

A religião deixa de ser tratada como dimensão pessoal e cultural da sociedade e passa a ser utilizada como mecanismo de mobilização eleitoral.

E isso não é exclusividade de um lado.

A própria disputa em torno da desinformação mostra como diferentes grupos políticos tentam atribuir ao adversário a responsabilidade pela deterioração do debate público.

A política brasileira entrou na lógica do vale-tudo?

Há uma diferença importante entre campanha agressiva e degradação institucional.

Ataques políticos fazem parte de eleições competitivas. O problema começa quando fatos deixam de ser necessários para sustentar uma acusação, quando rumores passam a substituir evidências e quando instituições públicas são arrastadas para a disputa partidária.

O caso da desinformação religiosa é apenas um exemplo.

A campanha de 2026 também ocorre sob o impacto da crise de confiança envolvendo o Supremo Tribunal Federal, das disputas entre Poderes e das acusações relacionadas à atuação política de diferentes grupos.

Nesse ambiente, cada decisão institucional passa a ser interpretada imediatamente pela lente da polarização.

O resultado é perigoso para qualquer democracia: uma parcela dos cidadãos passa a avaliar instituições não pelo que elas fazem, mas pelo fato de beneficiar ou prejudicar o grupo político com o qual simpatizam.

O TSE, o STF, o Congresso, o governo federal e os partidos passam a ser julgados como se fossem jogadores de uma partida.

Instituições democráticas não deveriam funcionar dessa maneira.

O problema que continuará existindo depois da urna

A grande ironia desta reta final é que o eleitor pode passar semanas discutindo quem atacou quem, qual candidato participou de determinado debate, qual rumor viralizou ou qual grupo religioso foi utilizado na propaganda e, no dia seguinte à eleição, descobrir que os problemas estruturais continuam exatamente onde estavam.

A dívida continuará existindo.

O orçamento continuará limitado.

O custo da máquina pública continuará sendo cobrado.

A segurança pública continuará dependendo de uma complexa divisão de competências entre União, estados e municípios.

O Congresso continuará tendo enorme poder sobre o orçamento e sobre a governabilidade.

O Supremo continuará exercendo suas atribuições constitucionais.

E milhões de brasileiros continuarão preocupados com uma pergunta muito mais simples do que toda a retórica eleitoral: como será possível viver melhor nos próximos quatro anos?

Essa pergunta praticamente desaparece quando a eleição vira um plebiscito permanente sobre a rejeição a Lula ou a rejeição ao bolsonarismo.

Uma eleição com pouca paixão e muita rejeição

Os próprios levantamentos recentes ajudam a explicar o ambiente.

A Quaest mostrou Lula com 39% e Flávio com 34% no primeiro turno, mas empate de 42% a 42% em um segundo turno hipotético.

O Datafolha encontrou 40% contra 36% no primeiro turno e 47% contra 45% no segundo.

A diferença entre esses números e uma vitória efetiva é enorme.

Pesquisa não vota.

Campanha não vota.

Rede social não vota.

O que decide a eleição é o voto efetivamente depositado e contabilizado.

Por isso, as próximas horas serão marcadas por uma disputa intensa pela participação, pela redução da indecisão e pela transferência de votos entre candidaturas.

Lula tenta preservar sua vantagem no primeiro turno e mobilizar segmentos nos quais possui maior apoio declarado.

Flávio tenta transformar o antipetismo em concentração de votos e reduzir o espaço dos demais candidatos da direita.

Os dois movimentos são racionalmente explicáveis dentro da lógica eleitoral.

Mas revelam algo politicamente incômodo: a eleição chegou à reta final sem que o debate de propostas tenha conseguido ocupar o centro do palco.

O eleitor ficou com a conta

Em 4 de outubro, mais de 158 milhões de brasileiros estarão aptos a participar da escolha dos próximos representantes. O TSE estabeleceu votação das 8h às 17h, pelo horário de Brasília, e o eventual segundo turno ocorrerá em 25 de outubro.

O eleitor terá diante de si uma escolha que não cabe nas redes sociais, nos ataques de campanha ou nos memes que dominaram parte do processo.

A questão essencial é saber quais propostas são financeiramente sustentáveis, quais compromissos são executáveis, quais promessas dependem do Congresso e quais discursos resistem quando confrontados com números.

O Brasil não será governado por slogans.

Não será governado por pesquisas.

Não será governado por vídeos virais.

Será governado por orçamento, leis, instituições, decisões administrativas e capacidade política de executar aquilo que foi prometido.

E esse talvez seja o aspecto mais duro desta eleição.

Depois que as urnas forem fechadas, desaparecerão os jingles, os palanques serão desmontados e as pesquisas deixarão de servir como munição.

Restará o país real.

E os problemas que os candidatos escolheram discutir ou evitar continuarão esperando pela próxima manhã.

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