A Fatura do Populismo de Ocasião de Lula - O Governo Troca Reformas Estruturais por Atalhos Eleitorais - Jornalismo de Opinião

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22/09/26

A Fatura do Populismo de Ocasião de Lula - O Governo Troca Reformas Estruturais por Atalhos Eleitorais

 

Três movimentos do Palácio do Planalto expõem um padrão inquietante na gestão federal. Quando um tema exige diálogo institucional maduro, construção de pontes ou reformas estruturais, a resposta padrão costuma ser o isolamento ou o remendo de última hora. Do relacionamento com o público evangélico às políticas de transferência de renda e renegociação de crédito, a lógica do ganho imediato atropela o planejamento de longo prazo.

O isolamento religioso e a entrega de terreno

A relação com a comunidade evangélica ilustra bem essa miopia. Durante anos, a liderança governista preferiu a comodidade da própria bolha. Em vez de sentar com grandes lideranças evangélicas para ouvir demandas reais e desarmar resistências histórico-ideológicas, o partido optou por dialogar apenas com pastores já alinhados às suas pautas progressistas.

Esse recuo estratégico cobrou um preço alto. O campo religioso acabou dominado por grupos bolsonaristas, que hoje controlam a narrativa e exercem patrulhamento severo sobre suas comunidades. Quem ousa discordar enfrenta uma espécie de morte social no meio, perdendo púlpitos e espaço profissional. Tentar reverter essa perda de terreno com acenos de última hora, como tentar limitar os estragos das apostas esportivas, atinge apenas a margem do eleitorado. A oportunidade de construir uma convivência republicana e duradoura ficou pelo caminho.

O atalho do Bolsa Família no calendário de votação

No campo social, a urgência eleitoral volta a se sobrepor à eficiência orçamentária. O reajuste de 15,04% no Bolsa Família, elevando o benefício mínimo para R$ 691, foi anunciado a apenas 17 dias do primeiro turno. O custo da medida é estimado em R$ 22,7 bilhões por ano para os cofres públicos.

A recomposição da inflação para famílias vulneráveis é uma necessidade irrefutável. O problema está no timing da decisão: após quase quatro anos de mandato sem corrigir gargalos conhecidos do programa, a gestão optou por uma canetada linear em plena campanha.

A análise dos números escancara a distorção dessa prioridade:

  • Dados com base na Pnad de 2023 mostram que R$ 76 bilhões seriam suficientes para erradicar a pobreza com uma focalização perfeita.

  • O orçamento atual do programa ultrapassa R$ 167 bilhões.

  • Aumentar o repasse sem fortalecer a busca ativa nos Cras ou sem criar mecanismos suaves de transição para quem consegue renda no mercado de trabalho não resolve a armadilha da dependência.

O benefício cumpre papel vital de alívio imediato, mas o salto de desenvolvimento viria do acompanhamento familiar e da integração com serviços públicos, e não de um reajuste calculado para surtir efeito nas urnas.

A ilusão do Desenrola e o risco moral no crédito

Na economia popular, a tentativa de maquiar problemas estruturais se repete na gestão do endividamento. O programa Novo Desenrola já mostra sinais claros de esgotamento. Três em cada dez renegociações feitas via Fundo Garantidor de Operações (FGO) entre maio e agosto já apresentam parcelas em atraso.

Limpar o nome do consumidor sem enfrentar as causas do superendividamento é enxugar gelo. O trabalhador de baixa renda ou informal vive um ciclo em que assume dívidas novas para quitar débitos antigos, sufocado pelo alto custo de vida e pela facilidade de obter crédito caro por aplicativos de celular.

Para piorar a distorção, o governo estuda usar recursos do Tesouro ou de estatais para comprar dívidas antigas da pandemia com até 97% de desconto. Essa proposta embute dois efeitos colaterais perigosos:

  • Alivia os balanços das instituições financeiras, retirando de suas carteiras os débitos de baixíssima recuperação.

  • Cria um incentivo perverso para o consumidor, que passa a esperar socorros estatais periódicos em vez de reorganizar sua vida financeira.

Governar com responsabilidade exige coragem para enfrentar problemas complexos com soluções definitivas. Trocar políticas públicas consistentes por conveniências do momento custa caro ao contribuinte, gera resultados questionáveis e deixa as feridas sociais exatamente como estavam.

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