Entre a Retórica e o Prejuízo - A Aposta Arriscada de Lula no Embate Comercial com os EUA - Jornalismo de Opinião

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22/09/26

Entre a Retórica e o Prejuízo - A Aposta Arriscada de Lula no Embate Comercial com os EUA


A retórica de confronto adotada pelo governo brasileiro diante da ofensiva comercial dos Estados Unidos revela mais sobre as urgências do calendário eleitoral doméstico do que sobre a eficácia da diplomacia de Brasília. Ao classificar Donald Trump como um "imperador" e ameaçar acionar a Lei da Reciprocidade durante entrevista à CNN, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva opta pelo engajamento político em detrimento de uma solução pragmática para as empresas afetadas.

 

Nó Econômico 

A crise atual não se resolve com adjetivos. O nó econômico é denso e imediato. Desde julho, produtos brasileiros enfrentam uma sobretaxa acumulada de 37,5% no mercado norte-americano. O impacto atinge em cheio setores estratégicos da indústria e do agronegócio, como o de máquinas e equipamentos, madeira, calçados e móveis. A barreira imposta por Washington combina duas frentes: uma tarifa de 25% motivada por investigações da Seção 301 — que miram desde o sistema Pix até políticas ambientais — e uma taxa de 12,5% sob alegação de falhas no combate ao trabalho forçado.

 

OMC 

Em resposta, o discurso oficial oscila entre a promessa de retaliar e a tentativa de minimizar o estrago ao sugerir a busca por "novos parceiros". Na prática, substituir o mercado consumidor norte-americano para produtos manufaturados de alto valor agregado não é tarefa que se execute por decreto ou em curto prazo. Além disso, a iniciativa de acionar a Organização Mundial do Comércio (OMC) tem alcance limitado. Embora sirva como demarcação de posição no plano diplomático, o recurso à entidade enfrenta um gargalo estrutural: o Órgão de Apelação da OMC permanece paralisado desde 2019, o que reduz drasticamente a capacidade de impor sanções ou reverter as medidas de forma célere.

 

Setor Produtivo 

Ao mesmo tempo em que eleva o tom em Nova York, o Palácio do Planalto mantém canais de negociação abertos. Missões ministeriais tentam costurar diálogos diretos com o Representante Comercial dos EUA (USTR) na expectativa de mitigar as tarifas. Esse contraste entre o pragmatismo das reuniões técnicas e a contundência das declarações públicas evidencia o uso da política externa como combustível para a disputa eleitoral de 2026.

Transformar a fricção comercial com os Estados Unidos em uma vitrine de resistência soberana pode render dividendos junto à base partidária, mas deixa desprotegidos os setores produtivos diretamente atingidos pelas barreiras impostas por Washington. Sem uma estratégia clara que vá além das contestações formais em organismos com pouca capacidade de arbitragem, a economia brasileira corre o risco de pagar a conta do impasse diplomático.

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