A esquerda brasileira encara uma encruzilhada prática e precisa de uma reflexão crítica sobre seus erros e o seu afastamento em relação ao povo. O discurso focado na defesa da democracia e no apoio internacional esbarra na vida real. O conceito abstrato é fundamental, mas a democracia sozinha não paga o aluguel no fim do mês. A classe média percebe esse descompasso e, como costuma decidir o rumo das eleições, sente que foi abandonada.
Distanciamento
Houve um distanciamento claro das bases populares. O campo progressista deixou as ruas e foi dar palestras em auditórios universitários. A comunicação virou um problema central. De um lado, lideranças recomendam leituras de livros e teses profundas. Do outro, o campo oposto grava vídeos curtos de vinte segundos. A tática digital pode ser simplista e até mentirosa, mas politicamente funciona. A extrema direita pegou o terreno pronto e soube crescer usando frases de efeito, medo, fé instrumentalizada, desinformação e algoritmos.
Cobrança
Outro ponto de desgaste forte é a armadilha da gratidão. Uma parcela da esquerda acha que metade do país é fascista e acredita que o eleitor de baixa renda mudou de lado por pura ignorância. Existe a cobrança silenciosa de que a pessoa que melhorou de vida deve gratidão. O fato é que política pública não é favor. O cidadão que precisa de um programa social necessita daquela ajuda, mas muitas vezes sente vergonha por precisar, e não gratidão por receber. As lideranças mandaram as pessoas estudarem, mas esqueceram que vivemos em uma sociedade de consumo e de informação fugaz.
Esquerda Caviar
A prática política também cobra o seu preço na imagem pública. Existe o hábito de bater nos poderosos durante o discurso, mas sentar com eles à mesa na hora de governar. O campo progressista se apaixonou pelo perfume e pelo vinho caro dos poderosos. Acreditar que dormir com o Centrão para vencer não cobraria um preço alto foi um erro estratégico. Somado a isso, muitos ainda apostam as fichas no apoio de artistas e acham normal fugir de debates quando a situação aperta.
Foi...
Luiz Inácio Lula da Silva foi o maior líder político da história recente do país. Ele conseguiu mudar o patamar de vida das pessoas mais pobres. Faltou, no entanto, o segundo passo vital. As estruturas não foram mudadas e a base não preparou sucessores. Sem o atual presidente, a polarização como conhecemos perde força e não há um substituto à altura.
Diante de todos esses fatores, culpar o eleitor deixou de ser uma saída inteligente. Talvez o povo tenha entendido perfeitamente o cenário. Talvez seja justamente esse o grande problema.

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