VERGONHA - Como a Fuga de Lula, Flávio e as Canetadas do Judiciário Enterraram o Debate Público - Jornalismo de Opinião

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02/10/26

VERGONHA - Como a Fuga de Lula, Flávio e as Canetadas do Judiciário Enterraram o Debate Público

 

A eleição presidencial de 2026 chega aos últimos dias antes do primeiro turno mergulhada em uma combinação politicamente explosiva: disputa apertada, eleitorado ainda sujeito a mudanças, forte rejeição aos dois principais candidatos e uma sucessão de decisões judiciais que terminou por retirar do eleitor justamente um dos últimos espaços de confronto direto entre os concorrentes.

A nova pesquisa Datafolha, realizada entre 28 de setembro e 1º de outubro com 2.506 eleitores, mostra Lula (PT) com 45% dos votos válidos contra 40% de Flávio Bolsonaro (PL). No cenário de segundo turno, Lula aparece com 48% e Flávio com 45%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

O dado mais importante talvez esteja justamente naquilo que ainda não está consolidado.

A pesquisa mostra que Lula e Flávio concentram a maior parte da preferência eleitoral, mas também apresentam 45% de rejeição cada. Isso significa que a polarização não eliminou a possibilidade de deslocamentos na reta final. Ao contrário, transformou cada segmento ainda disponível em objeto de intensa disputa política.

A situação é especialmente relevante porque os números não autorizam tratar a pesquisa como resultado antecipado. Pesquisa mede o estado da opinião pública no momento da coleta. Não substitui a urna e não prevê, por si só, o resultado eleitoral.

É justamente nesse ambiente de incerteza que as campanhas passaram a operar em velocidade máxima.

O debate que não aconteceu

O episódio mais emblemático ocorreu na noite de 1º de outubro.

O debate presidencial que seria realizado pela TV Globo acabou cancelado depois que Lula e, posteriormente, Flávio Bolsonaro decidiram não participar. Lula havia optado por não comparecer e participou, no mesmo horário, de entrevista no Flow Podcast. Flávio desistiu horas antes do programa, depois de decisões judiciais alterarem as condições originalmente previstas para o encontro.

A primeira decisão determinou que a emissora não exibisse o púlpito vazio reservado a Lula e também impôs restrições à forma como os candidatos presentes poderiam abordar a ausência do presidente. A justificativa apresentada foi a necessidade de preservar equilíbrio e evitar que a ausência de um candidato se transformasse em elemento de exposição negativa dentro do programa.

Em seguida, uma decisão do ministro Gilmar Mendes autorizou a participação de Renan Santos, candidato do Missão, no debate.

O conjunto das decisões alterou substancialmente o formato que havia sido organizado pela emissora e pelas campanhas. Diante desse novo cenário, Flávio Bolsonaro retirou sua participação. A Globo, posteriormente, cancelou o encontro.

O resultado concreto foi simples e politicamente grave: o eleitor deixou de assistir ao último confronto televisionado entre os candidatos antes do primeiro turno.

Isso não significa, por si só, que uma decisão judicial tenha sido tomada para favorecer determinado candidato. Essa é uma interpretação política sustentada por setores das campanhas e por comentaristas, mas não pode ser confundida com uma conclusão comprovada.

O problema institucional está em outro ponto: quando regras previamente estabelecidas para um debate eleitoral são alteradas a poucas horas da transmissão, a previsibilidade do processo fica inevitavelmente sob questionamento.

A Justiça entrou no centro da disputa

Flávio Bolsonaro transformou o episódio em instrumento de campanha.

Em uma transmissão realizada durante o horário originalmente reservado ao debate, o candidato classificou as decisões como censura e convocou seus apoiadores a transformar o episódio em voto de protesto. A estratégia apresentada pelo PL foi utilizar o conflito para tentar concentrar em sua candidatura eleitores de outros nomes da direita.

Essa reação precisa ser compreendida dentro da lógica eleitoral.

Flávio não precisava necessariamente convencer todos os eleitores indecisos. Uma das estratégias possíveis na reta final era reduzir a dispersão do voto entre candidatos que apareciam atrás na pesquisa e apresentar sua candidatura como alternativa para quem desejasse impedir a continuidade de Lula.

A lógica do chamado voto útil já vinha aparecendo nas pesquisas anteriores.

No levantamento Datafolha de 24 de setembro, Lula tinha 40% e Flávio 36% no primeiro turno. Augusto Cury aparecia com 5%, Ronaldo Caiado com 4% e Renan Santos com 3%. O quadro já alimentava a pressão das duas principais campanhas sobre os eleitores dos candidatos menores.

O debate cancelado, portanto, não surgiu isoladamente. Ele ocorreu exatamente quando as campanhas tentavam consolidar seus votos e impedir que eleitores migrassem para alternativas concorrentes.

Lula também ficou fora do confronto

Seria incompleto atribuir a ausência do debate apenas à decisão de Flávio.

Lula já havia decidido não participar.

A escolha do presidente também foi alvo de críticas por adversários e comentaristas, que argumentaram que um candidato à reeleição deveria enfrentar seus concorrentes em um confronto direto. A campanha de Lula apresentou outra justificativa e avaliou que o formato não ofereceria um debate produtivo.

Independentemente da justificativa política, o efeito eleitoral foi objetivo: o eleitor ficou sem o confronto que permitiria colocar frente a frente propostas, respostas e contradições dos principais candidatos.

A Reuters também registrou que Lula havia evitado os debates ao longo do ciclo eleitoral e que Flávio, por sua vez, condicionava sua participação à presença do presidente.

A combinação produziu um paradoxo difícil de ignorar.

Os dois líderes das pesquisas tinham interesse político em controlar o ambiente de exposição. Um não compareceu. O outro desistiu diante das novas condições impostas ao programa. E os demais candidatos acabaram privados de uma oportunidade importante de confronto.

A pesquisa mostra uma disputa cristalizada

Os números do Datafolha ajudam a explicar por que cada movimento passou a ser tratado como decisivo.

Lula e Flávio não apenas lideram a corrida. Eles também são os candidatos mais rejeitados. Os dois registram 45% de eleitores que afirmam não votar neles de maneira alguma.

É uma fotografia de uma eleição altamente polarizada.

Ao mesmo tempo, o levantamento mostra que ainda existe espaço para movimentação. A pesquisa anterior registrava 18% de indecisos na pergunta espontânea, enquanto o novo levantamento mantém a disputa concentrada nos dois principais nomes e mostra uma parcela relevante do eleitorado ainda suscetível às últimas semanas de campanha.

Esse cenário explica a intensidade da propaganda, dos ataques e da tentativa de transformar acontecimentos institucionais em argumentos eleitorais.

A eleição passou a ser disputada também fora dos tradicionais temas econômicos e sociais.

Judiciário, segurança, religião, redes sociais, investigações, corrupção, costumes e acusações contra adversários ocupam espaço central na comunicação das campanhas.

O problema é que quanto maior a concentração da disputa nesses temas, menor tende a ser o espaço disponível para uma discussão comparativa sobre políticas públicas concretas.

O eleitor perdeu novamente uma oportunidade de comparação

Debates eleitorais possuem uma característica que propaganda eleitoral dificilmente reproduz: obrigam o candidato a responder ao adversário.

Um vídeo produzido pela própria campanha pode apresentar somente a pergunta escolhida, a resposta escolhida e a imagem escolhida. Um debate impõe reação imediata.

É exatamente por isso que o cancelamento do encontro da Globo produz uma consequência que ultrapassa Lula e Flávio.

Candidatos como Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos também foram afetados. Eles perderam o espaço em que poderiam apresentar suas propostas diante de uma audiência nacional concentrada nos últimos dias antes da votação.

A Reuters classificou o cancelamento como um episódio que reduz uma das tradicionais ferramentas de confronto político no processo eleitoral brasileiro.

A discussão, portanto, não deveria ficar limitada à pergunta sobre quem ganhou ou perdeu politicamente com o cancelamento.

A questão mais importante é outra:

até onde decisões judiciais tomadas na reta final podem modificar as regras de um debate eleitoral previamente organizado sem produzir insegurança sobre o próprio formato da disputa?

Essa é uma questão institucional que permanecerá depois da eleição.

O voto útil entra em cena

Com Lula e Flávio concentrando a maior parte das intenções de voto, a reta final passou a ser marcada pela tentativa de convencer o eleitor de que votar em outros candidatos poderia significar desperdiçar a oportunidade de influenciar diretamente o resultado do primeiro turno.

Flávio passou a explorar abertamente essa narrativa.

A campanha tenta apresentar sua candidatura como instrumento de reação ao governo Lula e, simultaneamente, como mecanismo de enfrentamento ao que seus apoiadores consideram interferência excessiva do Judiciário.

Essa leitura pertence ao discurso político da própria candidatura.

Da mesma forma, a campanha de Lula procura consolidar seus eleitores e ampliar sua vantagem, explorando temas que considera favoráveis e ataques aos adversários.

Nenhuma dessas estratégias, porém, elimina uma realidade simples: a decisão final continua pertencendo ao eleitor.

O verdadeiro fator desconhecido

Existe ainda um elemento que pesquisa alguma consegue medir integralmente: quem efetivamente comparecerá às urnas.

A abstenção pode modificar a composição do eleitorado que participa da votação. O efeito não é automaticamente favorável a nenhum candidato, porque depende de quais grupos comparecem ou deixam de comparecer.

Esse ponto é especialmente relevante quando uma disputa envolve diferenças de comportamento eleitoral entre regiões, faixas de renda, idade, escolaridade e grupos religiosos.

O Datafolha identificou diferenças importantes entre segmentos do eleitorado. Lula mantém vantagem entre eleitores de menor renda e no Nordeste, enquanto Flávio apresenta desempenho superior entre evangélicos, eleitores de determinadas faixas de renda e no Sul.

Isso ajuda a compreender por que as campanhas passaram a concentrar esforços em públicos muito específicos.

Não existe mais espaço para uma campanha genérica.

Cada ponto percentual pode depender de uma região, de um grupo social ou de uma mudança de comportamento ocorrida nos últimos dias.

A crise maior é de confiança

O episódio da Globo deixa uma questão que vai além da disputa entre Lula e Flávio.

Quando uma eleição chega aos últimos dias cercada por decisões judiciais sucessivas, acusações de interferência, respostas agressivas das campanhas e alterações de regras em cima da hora, a confiança do eleitor passa a ser um ativo tão importante quanto o voto.

As instituições precisam demonstrar não apenas autoridade para decidir, mas previsibilidade, fundamentação e coerência.

As campanhas, por sua vez, precisam apresentar como alegação aquilo que é alegação e como fato aquilo que efetivamente está comprovado.

Misturar os dois transforma a eleição em uma disputa permanente de narrativas.

E o eleitor acaba tendo de separar sozinho o que foi decidido judicialmente, o que foi alegado por uma campanha, o que foi comprovado por documentos e o que simplesmente virou propaganda.

É exatamente nesse ponto que a eleição de 2026 chega ao primeiro turno.

Lula aparece numericamente à frente no Datafolha, mas a diferença não elimina a possibilidade de segundo turno. Flávio está suficientemente próximo para manter a disputa concentrada entre os dois. E os demais candidatos tentam preservar espaço em uma eleição na qual o voto útil se tornou uma das principais armas da reta final.

O debate que poderia oferecer ao eleitor uma última comparação direta não aconteceu.

Os dois principais candidatos ficaram fora.

A Justiça modificou as condições originalmente previstas.

A emissora cancelou o programa.

E as campanhas transformaram o episódio em munição eleitoral.

Agora, resta a urna.

Não há pesquisa, live, decisão judicial ou discurso de campanha capaz de substituir aquilo que efetivamente definirá o primeiro turno: o voto depositado pelos eleitores em 4 de outubro.

Até lá, qualquer narrativa de resultado garantido continua sendo apenas narrativa.

O que os dados permitem afirmar é que a eleição chega à reta final sob forte polarização, com os dois principais candidatos tecnicamente próximos em um eventual segundo turno, rejeição elevada dos dois lados e uma disputa ainda aberta para os eleitores que permanecem fora dos polos principais.

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