O Circo de 2026 - Entre Santas de Palanque, Escândalos Abafados e a Falência do Supremo - Jornalismo de Opinião

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30/09/26

O Circo de 2026 - Entre Santas de Palanque, Escândalos Abafados e a Falência do Supremo

 

 

A poucos dias da eleição presidencial, o Brasil assiste a um espetáculo melancólico. O debate público ignorou a saúde, a segurança e o abismo das contas públicas para focar em uma disputa sobre a padroeira do país. Flávio Bolsonaro gasta seu tempo desmentindo um boato de que tiraria o título de Nossa Senhora Aparecida. Lula, do outro lado, alimenta a incerteza dizendo não saber se a história é verdadeira. O desespero por votos transformou a religião em uma moeda de troca barata. A desonestidade eleitoral não é uma novidade das redes sociais. Ela sempre existiu. Em 1945, distorceram uma fala de Eduardo Gomes para convencer os trabalhadores a votarem em Eurico Gaspar Dutra. Hoje, a mentira viaja mais rápido, mas o princípio é o mesmo. O boato só sobrevive porque encontra terreno fértil nos medos mais profundos do eleitor.

 

Religião 

O candidato do PL colhe o que plantou. Ele abandonou a conveniência religiosa do pai e abraçou sem ressalvas o discurso das igrejas evangélicas. Prometeu entregar o Brasil a Jesus Cristo e adotou o vocabulário dos púlpitos. A aposta cobrou seu preço. Católicos enxergaram um ataque direto. Evangélicos começaram a duvidar da sinceridade da conversão. O resultado apareceu nas pesquisas. Flávio perdeu terreno nos dois grupos, enquanto Lula avançou silenciosamente. A tentativa desesperada de Flávio de erguer uma imagem da santa católica ao lado de Tarcísio de Freitas soou artificial. Para os católicos, foi tarde demais. Para os evangélicos, cheirou a puro oportunismo político.

 

Marco Rubio 

Longe das discussões sobre fé, um projeto radical de poder toma forma. A equipe de Flávio desenha uma reestruturação agressiva no Itamaraty. O plano é copiar o modelo de desmonte aplicado pelo senador americano Marco Rubio. Isso significa focar as relações em apenas 35 países aliados, exigir metas comerciais dos diplomatas e acabar com as promoções por tempo de serviço. A diplomacia brasileira corre o risco de virar um braço ideológico, priorizando nações do Ocidente e governos de direita. Há até a possibilidade de Eduardo Bolsonaro assumir a embaixada em Washington ou o próprio comando do ministério.

 

Judiciário 

Ao mesmo tempo, uma nuvem pesada de denúncias paira sobre a campanha. Reportagens recentes expuseram chantagens de um ex-sócio de Flávio da época das lojas de chocolate. Mensagens vazadas sugerem orgias financiadas com dinheiro suspeito, recebimento de um relógio de mais de 300 mil reais dado por um lobista e até tráfico de influência envolvendo o ministro Kassio Nunes Marques. Diante das câmeras, o silêncio reina. O candidato ignora as perguntas e foca em abraçar Pablo Marçal. Barrado pela Justiça, o influenciador circula pelos eventos oferecendo seu capital político em troca de um futuro espaço no governo. Tudo acontece à luz do dia.

O cenário fica ainda mais sombrio quando olhamos para o topo do Judiciário. O Supremo Tribunal Federal caminha para o precipício da falência moral. Ministros trocam a imparcialidade por viagens em jatinhos e festas pagas por empresários que possuem processos na corte. O escândalo envolvendo interesses do Banco Master é apenas um sintoma de uma doença maior. Oito dos onze magistrados possuem parentes advogando no próprio tribunal. É um nível de promiscuidade institucional inaceitável. Decisões tomadas por um único juiz mudam os rumos da nação, enquanto o corporativismo barra qualquer tentativa de criar regras de conduta decentes.

 

Pós Eleição 

O próximo presidente assumirá um país fraturado e terá nas mãos a chance de reconfigurar essa corte aparelhada. Poderá indicar até quatro novos ministros. Lula fala em mudar a forma de escolha para fatiar o poder. Flávio carrega o desejo autoritário de enquadrar o tribunal aos seus interesses. O Brasil entra na reta final da eleição discutindo falsas ameaças contra santas de gesso, enquanto a estrutura da República apodrece sob o peso da corrupção, da omissão e da ausência total de espírito público.

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