Quando o jornalismo econômico internacional decide voltar seus refletores para a política brasileira, o resultado costuma ser cirúrgico. A recente reportagem de capa da revista do Financial Times não apenas expôs o clã Bolsonaro para a elite financeira global, mas escancarou uma estrutura que oscila entre a insanidade tática e a sobrevivência penal. O retrato pintado pelo correspondente britânico Michael Pooler é o de uma dinastia disfuncional, movida por paranoia, sede de impunidade e disputas financeiras violentas.
Feudo
Longe da imagem de liderança patriótica que tentam vender aos seus apoiadores, a família opera como uma empresa familiar em litígio permanente. O patriarca Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tramar um golpe de Estado e articular a destruição de suas oposições, hoje cumpre prisão domiciliar na capital federal. Trancado e proibido de usar as redes sociais, o antigo capitão comporta-se como um senhor feudal em franca decadência. Ele refere-se aos próprios filhos por numerais, do 01 ao 03, numa demonstração de despersonalização militarizada que reflete a rigidez e a subserviência do ambiente em que foram criados.
Brigas
A briga pública travada entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro revelou a verdadeira natureza do grupo. O desentendimento começou por causa do controle de candidaturas regionais e verbas partidárias. Michelle usou as redes sociais para acusar o enteado de humilhá-la e dar-lhe uma facada nas costas. A reconciliação que veio meses depois, repleta de abraços calculados e orações para as câmeras, não enganou os observadores mais atentos. Como resumiu o pastor Silas Malafaia, a disputa nunca foi sobre princípios ou valores cristãos, mas sim sobre quem vai herdar o espólio político e financeiro do grupo.
Flávio
A candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República em 2026 expõe os limites dessa engrenagem. Vendido por seus assessores como a versão "vacinada" e moderada do pai, o senador acumula trapalhadas graves que mostram a fragilidade da sua plataforma. O episódio mais escandaloso envolve o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do quebrado Banco Master. Áudios vazados revelaram que Flávio pediu verbas ao banqueiro para financiar um filme de propaganda sobre o pai, orçado em mais de 12 milhões de dólares e estrelado pelo ator americano Jim Caviezel. A Polícia Federal investiga se parte desse dinheiro serviu para custear a vida do irmão Eduardo nos Estados Unidos.
O restante do núcleo familiar reflete a mesma deterioração moral e institucional:
Carlos Bolsonaro atua como o cão de guarda digital, mantendo o controle das redes sociais com estratégias de desinformação e ataques violentos contra opositores.
Eduardo Bolsonaro, hoje vivendo no Texas após ter o mandato cassado e ser condenado pela Justiça por tentar coagir autoridades americanas contra o Brasil, encarna a vertente internacional mais extremista.
Michelle Bolsonaro explora a religiosidade popular para pavimentar sua própria carreira política rumo ao Senado, tornando-se uma figura incômoda para os enteados que temem perder espaço na divisão do poder.
Colapso
O que está em jogo nas urnas de outubro vai além de uma simples disputa entre projetos de país. Se Flávio Bolsonaro alcançar o poder, o plano prioritário da família é empurrar uma anistia ampla no Congresso Nacional para livrar o pai da cadeia e perdoar os condenados pelo ataque aos poderes da República. Isso colocaria o país à beira de um colapso constitucional sem precedentes, confrontando diretamente o Supremo Tribunal Federal e transformando a preservação do clã na única política de Estado. O Brasil não estaria escolhendo um projeto de desenvolvimento, mas assinando a certidão de impunidade para um grupo disposto a aparelhar e destruir as instituições em benefício próprio.

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