Crise no Paraguai - Presidente Santiago Peña Renuncia e Abre Uma das Maiores Crises Políticas da História do País - Jornalismo de Opinião

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Wilson Vieira

05/11/26

Crise no Paraguai - Presidente Santiago Peña Renuncia e Abre Uma das Maiores Crises Políticas da História do País

 

 

A crise financeira provocada pelo Ueno Bank atingiu o coração do poder político paraguaio. O presidente Santiago Peña anunciou sua renúncia nesta quinta-feira, 5 de novembro de 2026, em meio a protestos populares, questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses, perda de apoio dentro do próprio Partido Colorado e uma articulação parlamentar para submetê-lo a um processo de impeachment.

O episódio reúne dois problemas que se alimentaram mutuamente: a fragilidade de uma instituição financeira que concentrava milhões de clientes e a suspeita de que relações entre interesses empresariais e integrantes do poder público possam ter comprometido a fiscalização e a confiança nas instituições paraguaias.

A saída de Peña representa um abalo político significativo para o país, especialmente porque seu mandato, iniciado em agosto de 2023, deveria terminar somente em 2028. A renúncia também expõe os limites de sustentação de um governo quando uma crise econômica deixa de ser um problema restrito ao mercado financeiro e passa a mobilizar diretamente a população e o Congresso.



Ueno Bank: uma instituição que cresceu rapidamente e entrou em colapso financeiro

A origem imediata da crise está na decisão do Banco Central do Paraguai (BCP), tomada por unanimidade em 2 de novembro e divulgada no dia seguinte, de iniciar o chamado procedimento de resolução do Ueno Bank. A medida foi adotada depois que a autoridade monetária identificou uma insuficiência no índice de solvência da instituição, que havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela regulamentação.

O índice de solvência é um indicador fundamental para a segurança de um banco. Ele mede a capacidade de uma instituição financeira de suportar perdas, levando em consideração o capital disponível e os riscos assumidos em suas operações. Quando esse indicador fica abaixo do limite regulamentar, aumenta o risco de que o banco não consiga honrar seus compromissos.

Segundo o próprio Banco Central, a deterioração identificada ocorreu após ajustes realizados nas demonstrações financeiras da instituição durante um processo de regularização. Com a resolução, o controle das operações passou para representantes designados pelo órgão regulador, que ficaram responsáveis por avaliar a situação patrimonial, preservar os ativos e conduzir o processo dentro das regras legais.

As informações divulgadas pela Associated Press acrescentam outro elemento preocupante: investigadores identificaram suspeitas envolvendo empréstimos a empresas relacionadas aos proprietários do grupo, documentação inadequada de operações de crédito e inconsistências no registro de ativos. O Banco Central também havia alertado anteriormente para o volume de empréstimos concedidos a empresas vinculadas aos controladores.

Essas informações passaram a integrar o contexto das investigações sobre a administração da instituição. Ainda assim, é necessário distinguir os problemas apontados pelos reguladores e as suspeitas investigadas pela Justiça de eventuais crimes que ainda precisam ser comprovados.

A dimensão do problema ajuda a explicar a repercussão nacional. O Ueno Bank informava possuir aproximadamente três milhões de clientes em um país com cerca de 6,5 milhões de habitantes. Isso representa uma presença expressiva na vida financeira dos paraguaios.

A instituição também administrava entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em recursos públicos, segundo levantamento publicado pela Associated Press. Desse montante, aproximadamente US$ 380 milhões estavam relacionados ao fundo estatal de aposentadorias e saúde.

A utilização de recursos públicos em uma instituição que posteriormente apresentou problemas graves de solvência transformou a crise bancária em uma questão diretamente ligada à responsabilidade administrativa, à fiscalização estatal e à proteção do patrimônio coletivo.



Os vínculos empresariais de Peña entraram no centro das acusações

A relação entre Santiago Peña e o grupo empresarial ligado ao Ueno Bank tornou-se um dos pontos mais delicados da crise.

Antes de chegar à Presidência, Peña participou de atividades empresariais relacionadas ao Grupo Vázquez, controlador do conglomerado que abriga o banco. Segundo a Reuters e a Associated Press, essa relação societária permaneceu até março de 2025, quando o então presidente deixou de ser sócio do grupo.

Outro aspecto questionado foi a nomeação de Carlos Carvallo para comandar o Banco Central do Paraguai. Carvallo havia dirigido anteriormente uma instituição financeira que antecedeu o Ueno Bank. A escolha levantou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses e a independência da fiscalização bancária.

A oposição passou a questionar se as relações anteriores do presidente com o grupo empresarial poderiam ter influenciado decisões públicas, especialmente diante da presença de recursos previdenciários e de outros valores estatais na instituição financeira.

As acusações ganharam dimensão institucional em 4 de novembro, quando 35 deputados apresentaram formalmente documentos para iniciar processos de impeachment contra Peña e o vice-presidente Pedro Alliana.

Entre os pontos apresentados estão a suposta existência de conflitos de interesses, a nomeação de autoridades com vínculos anteriores ao grupo financeiro, a concentração de recursos do Instituto de Previsión Social (IPS) no Ueno Bank e possíveis alterações na legislação sobre conflitos de interesses.

O documento também levanta suspeitas sobre o conhecimento prévio das autoridades a respeito da situação financeira da instituição.

É importante ressaltar que essas afirmações fazem parte de uma acusação parlamentar. A apresentação de um pedido de impeachment não equivale à comprovação de responsabilidade criminal ou administrativa. A apuração depende de procedimentos próprios e da análise das provas.



A perda de apoio político tornou a permanência de Peña insustentável

O Partido Colorado, também conhecido como Associação Nacional Republicana (ANR), representa uma das forças políticas mais tradicionais do Paraguai. A legenda domina a estrutura política nacional há décadas e controla importantes espaços no Congresso.

Peña chegou à Presidência em 2023 com o apoio do movimento Honor Colorado, liderado pelo ex-presidente Horacio Cartes. Economista, com experiência no Banco Central, passagem pelo Ministério da Fazenda e formação complementar nos Estados Unidos, apresentou-se como um representante de renovação política dentro de uma organização historicamente consolidada.

Entretanto, a crise do Ueno Bank provocou divisões dentro do próprio grupo que sustentava seu governo.

A perda de apoio entre parlamentares colorados foi particularmente grave porque a oposição, isoladamente, enfrentava dificuldades para reunir os votos necessários à aprovação de um impeachment. Com a aproximação de integrantes dissidentes da própria base governista, o cenário político mudou rapidamente.

O presidente da Câmara dos Deputados, Raúl Latorre, reconheceu a gravidade do momento e afirmou que o Congresso deveria concentrar seus esforços na recuperação dos recursos dos poupadores, na estabilidade financeira e na construção de uma solução institucional.

A crise deixou de ser uma disputa entre governo e oposição. Passou a ameaçar diretamente a sustentação política do próprio Partido Colorado.


Protestos, confrontos e indignação nas ruas de Assunção

Enquanto a crise avançava nos corredores do poder, a população começou a ocupar as ruas.

Nos dias 3 e 4 de novembro, centenas de pessoas participaram de manifestações em Assunção. Entre os participantes estavam clientes do Ueno Bank, aposentados, trabalhadores, representantes de organizações sociais e cidadãos preocupados com a destinação dos recursos públicos.

O principal pedido era a devolução integral dos depósitos. Também houve cobranças por explicações sobre o dinheiro administrado pela instituição e manifestações exigindo a responsabilização das autoridades envolvidas.

Os protestos chegaram às imediações do Congresso Nacional e da residência presidencial. Em determinados momentos, ocorreram confrontos com integrantes da Polícia Nacional.

Na noite de quarta-feira, 4 de novembro, veículos da imprensa paraguaia registraram a utilização de gás de pimenta e balas de borracha por agentes policiais durante a contenção de manifestantes. Participantes das mobilizações denunciaram uso excessivo da força.

O ambiente de tensão demonstrou que a crise já havia ultrapassado os limites de uma discussão técnica sobre balanços bancários. Para milhares de famílias, a preocupação era concreta: como pagar despesas, manter compromissos financeiros e recuperar dinheiro que estava indisponível?



O que acontecerá com o dinheiro dos clientes?

Uma das maiores preocupações envolve a recuperação dos depósitos.

O Banco Central do Paraguai informou que o Fundo de Garantia de Depósitos oferece cobertura de até 75 salários mínimos mensais por pessoa ou empresa em cada instituição financeira. Na data do comunicado, esse limite correspondia a 228,3 milhões de guaranis paraguaios.

A cobertura é calculada por depositante e por instituição, não por quantidade de contas bancárias. Portanto, uma pessoa que possua várias contas no mesmo banco não recebe um limite de proteção separado para cada uma delas.

Diante da urgência social, o governo paraguaio também adotou medidas para acelerar a devolução de parte dos recursos.

O Banco Central anunciou que o pagamento antecipado poderá alcançar até 40 salários mínimos, equivalentes a 121,76 milhões de guaranis por beneficiário. Eventuais dívidas vencidas com o Ueno Bank serão descontadas desse valor.

O procedimento prevê que o dinheiro seja transferido para uma conta que o cliente mantenha em outra instituição financeira. Quem não possuir outra conta receberá uma nova conta de poupança em banco ou financeira indicada para realizar o pagamento.

O cronograma divulgado pelo Banco Central estabelece o início dos pagamentos em até 24 horas, com conclusão do processo em prazo máximo de cinco dias úteis. Em 5 de novembro, o órgão também anunciou uma plataforma para que os clientes consultem qual instituição financeira foi designada para receber o pagamento.

Entretanto, existe uma diferença importante entre receber o adiantamento e recuperar integralmente todos os valores.

O pagamento antecipado não representa necessariamente a quitação definitiva de todos os depósitos. Valores superiores à cobertura legal dependem da apuração patrimonial da instituição, da recuperação de seus ativos e dos mecanismos previstos na legislação.

O próprio Banco Central afirmou que buscará proteger da melhor maneira possível os recursos que ultrapassem o limite do Fundo de Garantia de Depósitos. Isso não equivale a uma garantia de devolução integral e imediata para todos os clientes.



Oito dirigentes detidos e 27 pessoas investigadas

A crise também avançou para a esfera criminal.

O Ministério Público paraguaio confirmou a detenção de oito dirigentes ligados ao Ueno Bank durante as primeiras diligências da investigação. A operação ocorreu depois que o Banco Central encaminhou uma denúncia às autoridades responsáveis pela apuração de possíveis irregularidades.

Em 4 de novembro, quatro integrantes do Ministério Público formalizaram imputações contra 27 pessoas relacionadas ao banco e a outras empresas do conglomerado.

Entre as suspeitas investigadas estão lesão de confiança, conduta indevida em situações de crise, tentativa de estelionato e irregularidades relacionadas à administração financeira.

O principal investigado, Federico Miguel Vázquez Villasanti, está entre os nomes centrais do caso. Outros dirigentes também foram incluídos no procedimento judicial.

A Justiça foi acionada para analisar as medidas cautelares solicitadas pelos promotores, incluindo pedidos de prisão preventiva e prisão domiciliar com monitoramento eletrônico.

A existência de imputações significa que a investigação encontrou elementos considerados suficientes para formalizar acusações. Não significa, por si só, condenação. A responsabilidade individual de cada investigado deverá ser estabelecida durante o processo judicial.



Pedro Alliana pode assumir a Presidência e completar o mandato

Com o anúncio da renúncia de Peña, o próximo passo é a formalização da saída pelo Congresso Nacional.

De acordo com a Constituição paraguaia, o artigo 234 estabelece que, diante da vacância definitiva da Presidência, o vice-presidente eleito assume o Poder Executivo e permanece no cargo até o encerramento do período constitucional.

Nesse cenário, Pedro Alliana é o nome previsto para assumir a Presidência. Seu mandato, assim como o de Peña, está relacionado ao período constitucional iniciado em 2023, com término previsto para agosto de 2028.

A renúncia anunciada em vídeo ainda precisa cumprir o procedimento institucional de formalização e aceitação pelo Congresso. Portanto, a sucessão deve observar esse rito constitucional.

A saída de Peña também poderá provocar uma reorganização dentro do Partido Colorado, especialmente na relação entre Horacio Cartes, Pedro Alliana e as diferentes correntes que disputam influência na estrutura partidária.



A crise ultrapassa as fronteiras paraguaias

Os reflexos do problema financeiro também começaram a atingir atividades empresariais relacionadas ao conglomerado controlador do Ueno Bank.

Na Argentina, trabalhadores de uma empresa de tecnologia ligada ao grupo enfrentaram incertezas sobre salários e continuidade dos empregos. Reportagem publicada pelo Infobae em 5 de novembro informou que a operação argentina possuía mais de 900 trabalhadores e que parte deles recebeu comunicados de suspensão temporária das atividades, por 30 dias e sem remuneração.

Outros funcionários receberam orientação para continuar trabalhando remotamente. A empresa justificou as medidas pelas dificuldades financeiras decorrentes da intervenção bancária e seus efeitos sobre os mecanismos habituais de financiamento.

O episódio mostra como uma crise concentrada inicialmente em uma instituição financeira pode atingir fornecedores, prestadores de serviços, trabalhadores e empresas que dependem economicamente do mesmo conglomerado.



Uma crise que coloca à prova as instituições paraguaias

A renúncia de Santiago Peña representa uma ruptura importante na política do Paraguai. Um presidente que chegou ao poder com a promessa de modernizar a administração pública e atrair investimentos deixa o cargo em meio a uma crise que reúne problemas de solvência bancária, suspeitas de irregularidades, disputas políticas e questionamentos sobre a fiscalização dos recursos públicos.

O caso também coloca em discussão a relação entre o Estado e os grandes grupos empresariais. Quando uma instituição financeira administra volumes expressivos de recursos públicos, a fiscalização precisa ser rigorosa, transparente e independente. A proximidade entre agentes políticos e interesses privados torna ainda mais importante a existência de mecanismos capazes de prevenir conflitos de interesses e impedir favorecimentos.

Para o Paraguai, o desafio imediato é assegurar que os clientes tenham acesso aos recursos protegidos pela legislação, esclarecer o destino do dinheiro público e garantir que as investigações avancem sem interferências políticas.

A estabilidade do sistema financeiro também será fundamental. A crise do Ueno Bank não significa, por si só, que todo o setor bancário paraguaio esteja comprometido. O próprio Banco Central classificou a situação como um caso específico, sem caracterizá-la como uma condição generalizada do sistema financeiro nacional.

Mas a dimensão política do episódio já está estabelecida.

A renúncia de Peña demonstra o tamanho da pressão provocada pelo caso e evidencia como a confiança pública pode se deteriorar quando surgem dúvidas sobre a relação entre poder econômico, fiscalização e responsabilidade governamental.

A partir de agora, o Paraguai terá de responder a perguntas fundamentais: quem sabia da situação financeira do Ueno Bank, por que os mecanismos de controle não impediram o agravamento do problema e quem será responsabilizado pelos prejuízos eventualmente comprovados?

A resposta não dependerá somente da mudança no comando do Palácio de López. Dependerá da capacidade das instituições paraguaias de esclarecer os fatos, proteger os cidadãos e demonstrar que a lei também alcança aqueles que ocupam as posições mais altas do poder.

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