CRISE NO PARAGUAI - Ueno Bank Quebra, Afeta Milhões de Clientes e Mergulha o Paraguai em Turbulência Política - Jornalismo de Opinião

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Wilson Vieira

05/11/26

CRISE NO PARAGUAI - Ueno Bank Quebra, Afeta Milhões de Clientes e Mergulha o Paraguai em Turbulência Política

 

 

O Paraguai, que nos últimos anos passou a atrair investidores estrangeiros interessados em sua carga tributária relativamente baixa, estabilidade monetária e ambiente favorável aos negócios, enfrenta uma crise capaz de colocar em dúvida a segurança de parte de seu próprio sistema financeiro.

O centro da turbulência é o Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras digitais do país e integrante do Grupo Vázquez. Em poucos dias, o banco passou de uma trajetória de expansão acelerada para uma situação de insolvência regulatória que provocou o bloqueio de operações, deixou milhões de clientes sem acesso imediato aos serviços bancários e abriu uma investigação criminal de grandes proporções.

Instituição ligada ao Grupo Vázquez teve sua solvência reduzida a menos da metade do mínimo exigido pela legislação. Investigação criminal alcança 27 pessoas, milhões de dólares de fundos públicos estão expostos e o presidente Santiago Peña enfrenta pressão por sua antiga ligação empresarial com o grupo controlador. 

A decisão do Banco Central do Paraguai (BCP), tomada por unanimidade em 2 de novembro e anunciada na madrugada do dia seguinte, determinou o início do procedimento de resolução da instituição. Na prática, todas as operações foram suspensas, incluindo movimentações pela internet, utilização de cartões e atendimento nas agências.

O impacto é proporcional ao tamanho que o banco havia alcançado. Em junho de 2026, os próprios indicadores divulgados pelo Ueno em sua página para investidores apontavam 2.941.996 clientes, praticamente três milhões de pessoas. Naquele mesmo período, os depósitos registrados pela instituição somavam aproximadamente 17,31 trilhões de guaranis paraguaios.

O que parecia ser uma história de crescimento e modernização bancária transformou-se em um problema que agora envolve depositantes, aposentados, instituições públicas, dirigentes empresariais, autoridades monetárias e até organizações esportivas.



A queda da solvência e os sinais de deterioração financeira

O principal motivo apresentado pelo Banco Central para iniciar a resolução foi o comprometimento da capacidade financeira do Ueno Bank de sustentar suas obrigações.

Segundo informações publicadas pelo jornal paraguaio ABC Color, com base na documentação relacionada ao procedimento, o índice de solvência da instituição teria caído para 5,56%, diante de uma exigência regulatória mínima de 12%.

A legislação paraguaia estabelece que a relação entre o capital principal e o capital complementar da instituição, considerada em conjunto com os ativos ponderados pelo risco, não pode ficar abaixo desse percentual.

Em termos mais simples, o índice de solvência indica quanto de capital próprio o banco possui para suportar possíveis perdas associadas aos riscos de suas operações. Quanto menor essa proteção, menor a capacidade de absorver prejuízos sem comprometer os recursos de clientes e credores.

O quadro tornou-se ainda mais preocupante porque as inspeções do regulador identificaram problemas na avaliação de operações de crédito. Os ajustes necessários nas provisões financeiras ultrapassaram 1,6 trilhão de guaranis, provocando uma deterioração expressiva do patrimônio da instituição.

Outro sinal de alerta foi a impossibilidade de recompor aproximadamente US$ 70 milhões referentes ao depósito compulsório, conhecido como encaje legal, valor que as instituições financeiras precisam manter imobilizado junto à autoridade monetária como parte das exigências de liquidez.

A situação revela duas dificuldades distintas: a insuficiência de capital para absorver riscos e o problema de liquidez relacionado à recomposição das reservas obrigatórias.

Há ainda um dado que ajuda a compreender a dimensão da mudança.

Em junho de 2026, o próprio Ueno Bank informava um indicador de solvência de capital Tier 2 de 14,52%. Na revisão realizada durante o processo de regularização, o índice teria recuado para 5,56%. Os números correspondem a momentos diferentes de apuração, e a redução ocorreu após a reavaliação de operações e ajustes contábeis.

A diferença levanta uma questão importante: como uma instituição que apresentava indicadores aparentemente compatíveis com as exigências regulatórias chegou a uma condição tão grave em poucos meses?

A resposta depende da análise dos empréstimos concedidos, da qualidade dos ativos registrados, da adequação das provisões e da atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização.

O próprio Banco Central informou que a decisão foi resultado de um trabalho técnico desenvolvido ao longo de vários meses, e não de uma constatação isolada feita na madrugada do fechamento.



Empréstimos a empresas relacionadas entram no centro da investigação

Uma das questões mais delicadas envolve operações de crédito realizadas com empresas que teriam ligações societárias, econômicas ou financeiras com o grupo controlador do banco.

A concessão de empréstimos a empresas relacionadas aos acionistas não é automaticamente ilegal. Entretanto, essas operações estão sujeitas a limites prudenciais, controles específicos e avaliações rigorosas de risco, justamente para impedir que uma instituição financeira utilize os recursos dos depositantes em benefício de seus próprios controladores.

Segundo os documentos apresentados pelo Banco Central, as inspeções identificaram financiamentos de valores elevados em relação à capacidade econômica das empresas beneficiadas, inconsistências nas informações financeiras utilizadas para aprovar operações e deficiências no acompanhamento dos empréstimos concedidos.

Também foram apontadas limitações na avaliação das garantias oferecidas e nas fontes previstas para o pagamento das dívidas.

A investigação do Ministério Público avançou ainda mais. Em 4 de novembro, os promotores anunciaram a imputação de 27 pessoas ligadas ao banco e a empresas relacionadas à instituição.

Entre os possíveis crimes investigados estão conduta indevida em situações de crise, lesão de confiança, tentativa de estelionato e violação da obrigação de manter livros comerciais.

A acusação também examina empréstimos e operações de crédito realizados entre 2025 e 2026, incluindo uma transferência de carteira de crédito de aproximadamente US$ 74,4 milhões para uma sociedade que, segundo a hipótese investigativa, teria utilizado recursos originados indiretamente no próprio banco.

De acordo com o Ministério Público, os saldos pendentes das operações examinadas alcançariam US$ 166,98 milhões, além de aproximadamente 343,15 bilhões de guaranis.

É fundamental compreender que esses valores representam operações sob investigação e saldos cuja recuperação pode estar comprometida. Não significam, por si só, que todo esse dinheiro tenha sido definitivamente desviado ou perdido. Essa conclusão dependerá das provas e do andamento do processo judicial.



Oito dirigentes detidos e 27 pessoas formalmente imputadas

A investigação deixou rapidamente o campo administrativo e passou à esfera criminal.

O Ministério Público determinou a detenção de oito dirigentes e ex-integrantes da administração do Ueno Bank. Entre eles estão Federico Miguel Vázquez Villasanti, principal referência do Grupo Vázquez, e Juan Manuel Gustale Cardoni, que ocupava a presidência da instituição.

Também foram detidos Diana Leticia Mongelós González, Julio Daniel Rey Fernández, Mariana Torres Rubiani, Alejandro Gómez Abente, Diego Fernando Duarte Schussmuller e Miguel Ángel Almada Frutos.

Todos foram apresentados à Fiscalía para prestar esclarecimentos em 4 de novembro.

No mesmo dia, a Justiça admitiu a imputação contra as 27 pessoas investigadas. O Ministério Público solicitou prisão preventiva para Miguel Vázquez Villasanti e prisão domiciliar, com monitoramento eletrônico, para outros sete dirigentes detidos. Para os demais investigados, pediu medidas como proibição de saída do país e prestação de caução.

Essas medidas ainda precisam ser analisadas pelo Judiciário. A imputação representa uma acusação formal no curso da investigação, não uma condenação.

Paralelamente, a Justiça determinou o bloqueio preventivo de bens e contas de dirigentes e empresas integrantes da estrutura societária do grupo. O embargo alcança até US$ 70 milhões e aproximadamente 1,62 trilhão de guaranis, além de outros valores estabelecidos provisoriamente para despesas judiciais.

Entre as empresas atingidas estão U Paraguay, U Holdings e Grupo Vázquez.

O objetivo da medida é impedir a venda ou transferência de patrimônio enquanto as autoridades tentam preservar ativos que possam contribuir para o ressarcimento dos credores e depositantes.



O que acontece com o dinheiro dos clientes?

Essa é a pergunta que mais preocupa os paraguaios neste momento.

O Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai prevê cobertura de até 228,3 milhões de guaranis por depositante e por instituição financeira, valor equivalente a 75 salários mínimos mensais.

O limite não vale para cada conta separadamente. Se uma pessoa possui conta corrente, poupança e certificado de depósito no mesmo banco, os valores são somados para calcular o limite total de proteção.

Também é importante entender a diferença entre o valor total garantido pela legislação e a quantia que o cliente receberá inicialmente.

Na primeira comunicação após a resolução, o Banco Central anunciou um pagamento inicial de até 10 milhões de guaranis. Entretanto, diante da dimensão da crise, o Congresso aprovou uma alteração legislativa para acelerar a restituição dos recursos.

Na noite de 4 de novembro, o presidente Santiago Peña promulgou a Lei nº 7.745, que autoriza a antecipação de até 40 salários mínimos por depositante, equivalentes a aproximadamente 121,76 milhões de guaranis.

A legislação estabelece que o processo de pagamento deve começar em até 24 horas e não poderá ultrapassar cinco dias úteis após sua entrada em vigor.

O Banco Central informou que as transferências começarão em 5 de novembro. Os clientes receberão comunicação por e-mail indicando a instituição financeira na qual terão acesso ao dinheiro.

Quem já possui conta em outro banco poderá receber o valor nessa instituição. Para quem não possui outra conta, será providenciada a abertura de uma conta em uma instituição financeira habilitada.

Há uma condição importante: poderão ser descontadas as obrigações vencidas do cliente com o Ueno Bank. Dívidas que ainda não venceram não entram automaticamente nesse desconto, conforme o texto aprovado.

Essa antecipação, entretanto, não significa que todos os clientes receberão imediatamente a totalidade de seus depósitos. O limite geral de garantia permanece em 228,3 milhões de guaranis. Valores superiores a esse teto dependerão da apuração patrimonial do banco e dos mecanismos utilizados durante o procedimento de resolução.



O dinheiro público também está no centro da crise

A dimensão do problema aumenta consideravelmente quando entram na conta os recursos de instituições públicas.

Segundo informações divulgadas pela agência Reuters, o Ueno Bank administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos paraguaios.

Uma das exposições mais relevantes é a do Instituto de Previsión Social (IPS), entidade responsável pela administração da previdência social de grande parte dos trabalhadores do país.

De acordo com informações apresentadas pelo diretor de investimentos do IPS e reproduzidas pela agência EFE, a instituição mantinha aproximadamente US$ 355 milhões investidos no Ueno Bank.

Esses recursos estavam distribuídos entre certificados de depósito de poupança, conhecidos como CDA, e títulos financeiros emitidos pela instituição. As aplicações representavam aproximadamente 9% da carteira de investimentos do IPS.

O banco também mantinha recursos de outras instituições públicas, incluindo a Administração Nacional de Eletricidade (ANDE) e a binacional Itaipu.

Existe uma diferença importante nessa exposição: certificados de depósito de poupança podem estar abrangidos pela garantia legal, dentro dos limites estabelecidos, enquanto títulos financeiros não recebem automaticamente o mesmo tratamento. Portanto, não se pode considerar que todo o dinheiro investido pelo IPS esteja protegido pelo Fundo de Garantia de Depósitos.

A recuperação dependerá da natureza de cada aplicação, da situação patrimonial da instituição e das regras aplicáveis ao processo de resolução.



Aposentados terão contas transferidas para outros bancos

A crise também atingiu diretamente os beneficiários do IPS que recebiam seus pagamentos por meio do Ueno Bank.

Aproximadamente 32 mil aposentados e pensionistas utilizavam a instituição para receber seus benefícios.

Diante da suspensão das operações, o IPS anunciou a transferência desses beneficiários para outras instituições financeiras. O instituto confirmou que está coordenando a operação com sete bancos: GNB, Atlas, Banco Nacional de Fomento, Itaú, Sudameris, Familiar e Continental.

A direção do IPS também assegurou que os pagamentos de novembro serão realizados conforme o calendário previsto. O benefício adicional anual, equivalente ao décimo terceiro, tem pagamento programado a partir de 17 de novembro.

Um esclarecimento importante foi feito pela própria administração previdenciária: os pagamentos mensais dos aposentados são financiados pelas contribuições dos trabalhadores e empregadores, não dependendo diretamente dos investimentos mantidos no Ueno Bank.

Isso significa que o bloqueio das aplicações financeiras não implica automaticamente a interrupção das aposentadorias.

O problema mais delicado permanece na recuperação dos investimentos realizados pela instituição previdenciária, especialmente porque parte deles está aplicada em títulos financeiros que não possuem a mesma garantia dos depósitos bancários comuns.

Para milhares de aposentados, portanto, existem duas questões diferentes: continuar recebendo a aposentadoria e garantir que os recursos acumulados ao longo dos anos não sejam comprometidos.



Santiago Peña no centro da turbulência política

As consequências da crise ultrapassaram rapidamente os limites do sistema financeiro.

O presidente Santiago Peña passou a enfrentar questionamentos por sua antiga relação comercial com o grupo empresarial controlador do banco.

Segundo reportagem da Reuters, Peña foi parceiro de negócios do grupo proprietário do Ueno Bank até março de 2025, período posterior ao início de seu mandato presidencial, em 2023.

Outro ponto de preocupação envolve Carlos Carvallo, que comandava o Banco Central desde 2023, mas anteriormente havia dirigido a financeira Ueno, instituição que deu origem ao atual banco digital.

A proximidade profissional entre antigos dirigentes da instituição financeira e autoridades responsáveis pela fiscalização do sistema levantou questionamentos sobre a independência dos mecanismos de controle.

Carvallo apresentou sua renúncia em 3 de novembro, a pedido do próprio presidente da República. Ele, entretanto, afirmou que permaneceria no cargo durante o processo de resolução para garantir a continuidade dos trabalhos da autoridade monetária.

Sua saída não encerra as perguntas sobre a fiscalização anterior. Pelo contrário, aumenta a necessidade de esclarecer quando as irregularidades foram identificadas, quais providências foram adotadas e por que a situação chegou a um nível tão grave.

Na quarta-feira, 4 de novembro, o Senado também avançou na reorganização do comando do Banco Central, aprovando o nome de Pedro de Jesús Acosta Bernal para integrar o diretório da instituição.



Oposição prepara ofensiva contra Peña e Alliana

A crise financeira transformou-se também em um problema para a sobrevivência política do governo.

Parlamentares da oposição anunciaram pedidos de impeachment contra Santiago Peña e o vice-presidente Pedro Alliana. Segundo informações publicadas pelo ABC Color, os documentos acusatórios já contavam com a assinatura de 22 deputados, enquanto a oposição articulava uma sessão extraordinária para discutir o assunto em 5 de novembro.

Entre os questionamentos políticos estão a relação anterior de Peña com o grupo empresarial, a indicação de Carvallo para comandar o Banco Central e a exposição de recursos previdenciários e públicos ao banco.

Essas são acusações e argumentos apresentados por parlamentares oposicionistas, ainda sujeitos à análise política e jurídica. Não representam decisões que tenham comprovado responsabilidade criminal do presidente ou do vice-presidente.

A crise, porém, colocou o governo diante de um desgaste que não pode ser resolvido apenas com declarações de tranquilidade ao mercado.

A população precisa saber como os recursos públicos foram aplicados, quais órgãos autorizaram as operações, quais controles foram realizados e quem deverá responder caso sejam comprovadas irregularidades.

Peña, por sua vez, sustentou que o problema é específico do Ueno Bank e não representa uma crise generalizada do sistema financeiro paraguaio. Essa também é a posição divulgada pelo Banco Central.



Centenas de trabalhadores também são atingidos

Os efeitos da crise começaram a alcançar outras empresas do Grupo Vázquez.

Em 4 de novembro, a divisão de comunicação VMedia suspendeu suas atividades e comunicou a interrupção dos contratos de trabalho por um período de 90 dias, sem pagamento de salários durante esse intervalo.

A medida atingiu veículos como os jornais La Tribuna e Crónica, as rádios La Tribu 650 AM e La Tribu Deport 1120 AM, além do canal La Tribu Stream.

A agência EFE informou que a paralisação atingiu aproximadamente 300 trabalhadores, que foram surpreendidos pela decisão em meio ao agravamento da crise financeira do grupo.

A suspensão representa outra consequência importante: os problemas de uma instituição financeira podem alcançar empresas de outros setores quando existe forte concentração de atividades e interesses econômicos sob o mesmo conglomerado empresarial.

Nesse caso, a crise deixou de afetar somente clientes e investidores. Também passou a atingir profissionais da comunicação, que perderam temporariamente suas atividades e remuneração.



O escândalo também chega ao futebol

O futebol paraguaio, que mantinha relações comerciais próximas com o banco, também foi alcançado pelo episódio.

A Associação Paraguaia de Futebol (APF) retirou a marca Ueno das publicações utilizadas em suas redes sociais para divulgar partidas, resultados e informações do Campeonato Paraguaio.

Entretanto, a entidade manteve a denominação comercial Ueno Defensores del Chaco para o principal estádio do país.

O contrato de patrocínio firmado em 2023 previa a utilização da marca até agosto de 2027, em um acordo estimado em US$ 12 milhões. A APF passou a analisar juridicamente as medidas que poderá adotar em relação ao compromisso comercial.

Outra preocupação envolve jogadores da seleção paraguaia que mantinham economias depositadas no banco. Segundo informações divulgadas pelo advogado e representante Rodrigo Codas, aproximadamente dez atletas que atuam no exterior estariam organizando uma ação coletiva para tentar recuperar seus recursos.

O caso também alcançou a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol). Uma reportagem do jornal argentino Clarín, reproduzindo informações da imprensa paraguaia, apontou que a entidade teria aproximadamente US$ 14 milhões aplicados em certificados de depósito de poupança no Ueno Bank.

Procurada pelo periódico, a Conmebol procurou afastar preocupações sobre a realização das competições continentais e o pagamento das premiações, afirmando que esses compromissos não dependem dos valores mantidos na instituição paraguaia.

Portanto, até o momento, o impacto identificado no futebol está relacionado à exposição financeira de atletas e organizações, aos contratos comerciais e à credibilidade de um patrocinador que se tornou alvo de uma investigação de grande repercussão.



A crise que coloca à prova a credibilidade do Paraguai

O caso Ueno Bank representa um teste importante para as instituições paraguaias.

Durante anos, o país construiu uma imagem de ambiente favorável aos negócios, com crescimento econômico, inflação relativamente controlada e condições tributárias que atraem investidores, especialmente de países vizinhos.

Mas a segurança de um mercado financeiro não depende exclusivamente de impostos baixos ou de indicadores macroeconômicos positivos.

Depende também da qualidade da fiscalização, da transparência das operações de crédito, da independência das autoridades reguladoras e da capacidade do Estado de agir antes que problemas localizados se transformem em prejuízos coletivos.

 

A crise do Ueno Bank expôs justamente essas questões.

Uma instituição com quase três milhões de clientes acumulou operações de crédito que, segundo os documentos examinados pelos órgãos reguladores, apresentavam problemas na avaliação de riscos e envolviam empresas relacionadas ao grupo controlador. Ao mesmo tempo, recursos de aposentados e de entidades públicas estavam expostos à situação financeira do banco.

A renúncia do presidente do Banco Central, as detenções, as imputações criminais, os embargos patrimoniais e as movimentações no Congresso mostram que o episódio já ultrapassou a dimensão de um problema contábil.

Também existe um efeito sobre a imagem externa do país. A Reuters apontou que a crise aumentou a preocupação de investidores e pressionou títulos internacionais do Ueno e também papéis da dívida soberana paraguaia.

Isso não comprova que todo o sistema financeiro do país esteja comprometido. O Banco Central sustenta que o episódio é específico da instituição e que as demais entidades continuam operando normalmente.

Entretanto, a confiança no sistema depende da capacidade de demonstrar que os controles funcionam, inclusive quando os envolvidos mantêm relações comerciais ou políticas com figuras importantes do poder público.

A pergunta central agora é quem vai responder pelo dinheiro comprometido e até onde as investigações conseguirão chegar.

A antecipação dos depósitos representa uma resposta imediata aos milhões de clientes prejudicados, mas não encerra o problema. Ainda será necessário descobrir a real situação patrimonial do Ueno Bank, identificar a dimensão das operações irregulares, recuperar os ativos possíveis e estabelecer responsabilidades.

O Paraguai precisa demonstrar que suas instituições conseguem fiscalizar grandes grupos econômicos com a mesma firmeza aplicada aos pequenos depositantes.

Porque, quando um banco com milhões de clientes deixa de funcionar, a crise não fica restrita às agências fechadas. Ela atinge a confiança nas regras, a credibilidade das autoridades e a percepção de segurança de quem escolhe investir, empreender ou simplesmente guardar suas economias no país.

E essa confiança, uma vez abalada, não se recupera apenas com uma lei ou com a promessa de devolução do dinheiro.

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