ANVISA, Tirzepatida e Risco Real de Lula Perder as Eleições - Jornalismo de Opinião

Breaking

28/09/26

ANVISA, Tirzepatida e Risco Real de Lula Perder as Eleições


Uma disputa que começou nos consultórios, farmácias, fronteiras e laboratórios brasileiros ganhou uma dimensão que Brasília dificilmente poderá ignorar: a relação entre o acesso à Tirzepatida e a política sanitária do governo federal entrou no ambiente eleitoral de 2026.

A questão é delicada porque envolve, ao mesmo tempo, saúde pública, medicamentos sem registro, combate ao mercado irregular, pacientes que procuram tratamento para diabetes e obesidade, indústria farmacêutica e decisões regulatórias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa.

O ponto politicamente sensível está justamente aí.

O governo pode sustentar que está protegendo a população contra medicamentos de procedência desconhecida. Pacientes e críticos das medidas podem interpretar as mesmas ações como uma barreira ao acesso a tratamentos que procuram há meses ou anos. Entre uma narrativa e outra existe uma realidade objetiva: produtos vendidos no mercado paralelo não possuem as mesmas garantias regulatórias dos medicamentos registrados, mas também não se pode afirmar que toda amostra apreendida seja simplesmente uma falsificação sem princípio ativo.

A própria investigação realizada pelo Centro de Informação e Assistência Toxicológica da Unicamp colocou essa discussão em outro patamar.

Em julho de 2026, a Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp informou que o CIATox havia analisado canetas apreendidas em reportagens sobre o comércio ilegal de medicamentos. A investigação identificou a composição das amostras e avaliou possíveis riscos.

Análises divulgadas sobre amostras adquiridas no Paraguai encontraram, de fato, tirzepatida nos produtos examinados. Isso é relevante porque desmonta uma interpretação simplista segundo a qual qualquer produto comercializado fora do sistema regulatório brasileiro necessariamente seria apenas uma caneta vazia ou contendo uma substância completamente diferente.

Mas existe uma diferença fundamental entre encontrar a molécula e comprovar que um medicamento é seguro.

A própria Anvisa fez questão de estabelecer essa distinção. Segundo a Agência, os exames realizados pelo CIATox identificaram presença, concentração e estrutura molecular da tirzepatida, mas não avaliaram equivalência terapêutica, biodisponibilidade, impurezas, contaminantes, degradação, esterilidade ou presença de metais pesados. Portanto, o resultado não permite concluir que os produtos analisados sejam equivalentes ao Mounjaro ou tenham o mesmo perfil de segurança e eficácia.

Essa ressalva é tecnicamente importante.

E também é justamente onde começa uma discussão política que não pode ser reduzida a slogans.

O problema não desaparece porque o produto é irregular

Em 2026, a Anvisa intensificou as ações contra medicamentos injetáveis irregulares à base de agonistas de GLP-1.

Em nota técnica conjunta com a Polícia Federal, a Agência informou que, entre janeiro e abril, foram apreendidas mais de 1,3 milhão de unidades de medicamentos injetáveis irregulares, enquanto 26 estabelecimentos foram inspecionados e oito acabaram interditados por falhas técnicas graves e ausência de controle de qualidade.

A operação conjunta realizada em abril também identificou aproximadamente R$ 4,8 milhões em transações irregulares e movimentação de tirzepatida suficiente, segundo a Anvisa e a PF, para produzir mais de 1 milhão de dispositivos injetáveis. Mais de 17 mil frascos de tirzepatida manipulados irregularmente foram apreendidos.

Esses números dão dimensão ao problema.

Não se está falando apenas de consumidores atravessando a fronteira para comprar uma caixa de medicamento.

Existe um mercado clandestino envolvendo importação, manipulação, distribuição, publicidade digital e venda de produtos cuja cadeia de produção e conservação pode não ser conhecida.

Por outro lado, existe uma pergunta política que permanece legítima: o Estado está conseguindo proteger o paciente sem empurrá-lo para um mercado paralelo ainda mais difícil de fiscalizar?

Essa pergunta não pode ser respondida apenas com operações policiais ou resoluções administrativas.

A tirzepatida virou questão de acesso

A Anvisa proibiu em 2026 diversos produtos contendo ou alegando conter tirzepatida, entre eles Gluconex e Tirzedral, justamente por não possuírem registro, notificação ou cadastro e por serem produzidos por empresas não identificadas.

Também houve medidas contra produtos como Synedica, TG, Slimex, Rapha, There e Tirzemax, além de preparações manipuladas consideradas irregulares.

Do ponto de vista regulatório, a justificativa é objetiva: medicamento injetável precisa ter procedência, controle de qualidade, estabilidade, esterilidade e rastreabilidade.

Do ponto de vista do paciente, entretanto, a discussão é muito mais concreta.

Quem está utilizando tirzepatida para diabetes ou controle de peso não enxerga uma resolução da Anvisa como uma abstração burocrática. Enxerga uma eventual interrupção do tratamento, aumento de custo, dificuldade de acesso ou necessidade de procurar outra alternativa.

É nesse ponto que uma questão sanitária pode adquirir consequências eleitorais.

Não há, até o momento, evidência pública sólida que permita afirmar que "milhões de pacientes de tirzepatida" decidiram votar contra Lula por causa das ações da Anvisa. Tampouco há pesquisa eleitoral confiável demonstrando que esse tema, isoladamente, produzirá determinado resultado nas urnas.

Essa diferença precisa ser preservada.

O que existe é a possibilidade de que uma parcela dos usuários, familiares e pessoas diretamente afetadas pelo acesso a esses medicamentos transforme a questão em um fator de decisão eleitoral.

E, em uma eleição disputada, pequenas alterações na preferência do eleitorado podem ter importância.

O fantasma da margem de 2022

A eleição presidencial de 2022 oferece um dado concreto para dimensionar essa discussão.

Lula recebeu 60.345.999 votos, equivalentes a 50,90% dos votos válidos. Jair Bolsonaro recebeu 58.206.354, ou 49,10%.

A diferença foi de 2.139.645 votos, correspondente a 1,80 ponto percentual.

Isso não significa que a eleição de 2026 repetirá aquela configuração.

Também não permite concluir que qualquer grupo de pacientes será capaz de determinar o resultado.

Mas demonstra uma realidade matemática incontestável: em uma disputa presidencial nacional, uma movimentação de alguns pontos percentuais pode modificar completamente o resultado.

Por isso, a hipótese de uma reação eleitoral relacionada à política de medicamentos não deveria ser tratada como certeza, mas tampouco como algo automaticamente irrelevante.

O primeiro turno de 2026 ocorrerá em 4 de outubro. Se houver segundo turno para presidente, será em 25 de outubro. O eleitorado apto a votar no país é de 158.765.543 pessoas.

O que ainda não existe é uma demonstração empírica de quantos desses eleitores colocaram a tirzepatida entre os fatores determinantes de sua decisão.

Semaglutida não é sinônimo de tirzepatida

Outro ponto que merece correção é a afirmação de que a semaglutida seria simplesmente "inferior" à tirzepatida.

Os estudos disponíveis mostram diferenças importantes, mas a comparação depende da indicação, população estudada e desfecho analisado.

No SURMOUNT-5, publicado no New England Journal of Medicine, a tirzepatida apresentou maior redução de peso do que a semaglutida em adultos com obesidade sem diabetes. O resultado foi descrito como superioridade da tirzepatida nesse desfecho específico.

Isso não significa que semaglutida seja um medicamento sem eficácia ou inadequado. Significa que, naquela comparação e naquela população, a tirzepatida apresentou maior redução de peso.

A distinção é importante porque uma discussão eleitoral construída sobre saúde pública precisa resistir à simplificação.

E o SUS?

O governo federal vem trabalhando para ampliar o acesso a medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1.

Em julho, a Anvisa registrou cinco novos medicamentos à base de semaglutida após solicitação de prioridade feita pelo Ministério da Saúde, segundo o próprio governo. A estratégia foi apresentada como forma de ampliar o acesso, estimular concorrência e reduzir preços, além de subsidiar uma eventual incorporação dessas tecnologias ao SUS.

Em agosto, a Anvisa registrou ainda dois novos medicamentos injetáveis à base de semaglutida indicados para diabetes.

Isso é diferente de afirmar que a população brasileira já dispõe amplamente desses medicamentos pelo SUS.

Registro sanitário não significa automaticamente incorporação ao sistema público.

E incorporação ao SUS também exige avaliação específica, negociação de preço, critérios de utilização e decisão institucional.

É exatamente nessa distância entre promessa política, registro sanitário e disponibilidade efetiva que pode surgir outra fonte de frustração.

A questão que Brasília terá de enfrentar

A Anvisa possui autonomia técnica e uma estrutura própria de decisão. Sua Diretoria Colegiada é formada por cinco diretores indicados pelo presidente da República e nomeados após aprovação pelo Senado. Em agosto de 2025, Leandro Safatle foi nomeado diretor-presidente, juntamente com outros dois novos diretores, após aprovação no Senado.

Isso permite afirmar que existe uma relação institucional entre o governo federal e a composição da direção da Agência.

Não permite, porém, concluir automaticamente que cada decisão técnica da Anvisa seja uma ordem pessoal do presidente da República.

Essa distinção também importa.

O atual ministro da Saúde é Alexandre Padilha, segundo a estrutura oficial do Ministério da Saúde.

A crítica política pode, portanto, ser dirigida às prioridades do governo, às políticas de acesso, às decisões administrativas e à forma como a questão vem sendo comunicada sem atribuir ao presidente uma ordem específica que não esteja documentada.

A questão eleitoral ainda está aberta

O ponto mais explosivo dessa história não está em afirmar antecipadamente que Lula perderá a eleição por causa da tirzepatida.

Não existe dado confiável que permita fazer essa afirmação.

O ponto está em reconhecer que uma política pública pode produzir consequências políticas quando atinge diretamente pessoas que dependem de determinado tratamento.

Se usuários de tirzepatida, familiares e outros eleitores afetados considerarem as ações do governo um fator relevante de sua decisão, esse comportamento poderá aparecer nas urnas. Se esse grupo for pequeno, o impacto poderá ser limitado. Se for numeroso e estiver concentrado em uma eleição apertada, sua importância poderá crescer.

Mas isso somente poderá ser medido por pesquisas eleitorais adequadamente desenhadas e, depois, pelo resultado das urnas.

A experiência de 2022 mostra que não é necessário existir uma diferença gigantesca para uma eleição presidencial ser decidida. Foram 1,80 ponto percentual entre Lula e Bolsonaro.

Em 2026, entretanto, não há base factual para afirmar que a tirzepatida repetirá esse papel, nem que uma reação de pacientes produzirá derrota ou vitória de qualquer candidato.

O que existe é uma questão concreta colocada diante do governo: como combater um mercado irregular de medicamentos sem deixar que pacientes que buscam tratamento se sintam abandonados, criminalizados ou sem alternativas acessíveis?

Essa resposta poderá ser dada por políticas públicas, por evidências científicas, pelo sistema regulatório e, no fim, também pelo eleitor.

Em 4 de outubro, a discussão deixará os laboratórios, as farmácias, as fronteiras e as redes sociais para entrar no lugar onde qualquer hipótese eleitoral precisa ser testada: a urna eletrônica.

E, diante de uma eleição que pode ser decidida por uma margem estreita, nenhum governo deveria presumir que uma parcela insatisfeita do eleitorado é politicamente irrelevante.

Nenhum comentário:

Postar um comentário