O Golpe de Sorte do Governo - A Conta Bilionária da Proibição das Bets - Jornalismo de Opinião

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26/09/26

O Golpe de Sorte do Governo - A Conta Bilionária da Proibição das Bets

 

 

A oito dias de abrir as urnas, o governo decidiu que os jogos de azar são um problema urgente. A mudança drástica de postura tem cheiro, cor e formato de puro desespero eleitoral. O presidente assinou uma Medida Provisória para banir as plataformas de apostas online do Brasil em uma pressa que atropela o próprio histórico da sua gestão. Afinal, foi este mesmo governo que regulamentou e tributou a atividade há pouquíssimo tempo. O objetivo original era raso e puramente arrecadatório. O Ministério da Fazenda precisava de dinheiro para sustentar as contas do arcabouço fiscal. Agora, com a popularidade derretendo diante da epidemia de vício que tomou conta dos celulares brasileiros, a estratégia virou de cabeça para baixo. A jogada é política. O foco é limpar a imagem e pescar votos na bacia das almas.

 

Cinismo 

Para entender o tamanho do cinismo, precisamos voltar a fita. A porteira da jogatina foi aberta em 2018 por Michel Temer. Jair Bolsonaro preferiu lavar as mãos durante quatro anos para não irritar sua base econômica nem bater de frente com a ala evangélica. Quando a atual gestão assumiu, a equipe econômica enxergou nas apostas esportivas e no jogo do tigrinho uma verdadeira mina de ouro. O governo cobrou 30 milhões de reais por cada licença de operação. Encheu o caixa com 2,5 bilhões de reais só com essas outorgas e sugou outros 10 bilhões em impostos diretos ao longo de 2025. O dinheiro entrou. O custo social foi deliberadamente ignorado. O resultado dessa omissão está carimbado nos dados do Banco Central. O comprometimento da renda das famílias com dívidas beira os 29 por cento. Oitenta e dois por cento das famílias brasileiras estão enforcadas financeiramente. O estrago atingiu de forma impiedosa crianças, adolescentes e trabalhadores de baixa renda.

 

Desenrola 

A mágica eleitoral, contudo, não para na proibição. O pacote de bondades inclui uma nova fase do programa Desenrola. O plano consiste em fazer o governo comprar 150 bilhões de reais em dívidas atrasadas da população. O desconto exigido dos bancos será agressivo, na casa dos 90 por cento. Toda essa manobra custará 15 bilhões de reais aos cofres públicos. O detalhe mais perverso é a data de pagamento dessa fatura. O impacto financeiro foi empurrado de forma muito conveniente para os orçamentos de 2027 e 2028. A lógica é cristalina. O governo limpa o nome do eleitor agora e joga a conta para o futuro. O cidadão arruinado pela jogatina ganha um alívio momentâneo. O político fatura a reeleição.

 

Tribunais 

O castelo de cartas já começou a balançar nos tribunais. A Medida Provisória proíbe expressamente qualquer devolução do dinheiro pago pelas empresas de apostas. O Ministério da Fazenda cravou que não haverá ressarcimento das outorgas milionárias, argumentando que o dinheiro gasto pelos viciados será redirecionado para a economia real. As empresas acusam o governo de quebrar contratos e preparam uma guerra judicial sem precedentes. O setor de apostas estima que as ações de indenização por lucros cessantes e investimentos perdidos podem variar de 15 bilhões a absurdos 100 bilhões de reais. É um verdadeiro apagão jurídico. O Estado autorizou o funcionamento, cobrou uma fortuna pela permissão e, doze meses depois, cassou tudo em uma canetada de véspera de eleição.

A manobra expõe uma forma de governar baseada no improviso e no instinto de sobrevivência. Medidas Provisórias existem para urgências reais e imprevistas, não para apagar incêndios criados pela própria base governista a poucos dias de uma votação. A epidemia do vício precisava de freios duros há muito tempo. O combate ao superendividamento exige educação financeira sólida e regras rígidas de concessão de crédito. O que vemos hoje é apenas a velha política embalada em falsas boas intenções. O eleitor recebe um curativo paliativo enquanto a conta real dessa bagunça jurídica e fiscal engorda nas sombras. A roleta parou no aplicativo, mas continua girando em Brasília. O único perdedor garantido no longo prazo continua sendo você.

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